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Quinta-Feira 05.dez.2019

Ano VIII - Nº 374

Poder

Quase 40% dos desempregados estão há mais de um ano sem trabalho, aponta IBGE

Bolsonaro diz que 'não faz milagre' e milhões não vão conseguir emprego

Postado em 17 de Maio de 2019 - Brasil de Fato e Leonardo Sakamoto (UOL)

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O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou dados mais detalhados sobre o perfil do desemprego no Brasil, que atingiu 13,4 milhões de pessoas (12,7%), no primeiro trimestre de 2019.

Os novos números mostram que, do total de desempregados, 5,2 milhões (38,9%) já procuram emprego há mais de um ano, dos quais 3,3 milhões (24,8%) estão desocupados há dois anos ou mais. 

De acordo com o IBGE, 6 milhões de desempregados estão nessa condição há mais de um mês e menos de um ano, enquanto 2,1 milhões perderam o trabalho há menos de um mês.

Os números apontam também para um grupo crescente de trabalhadores desalentados, ou seja, desempregados que deixaram de procurar emprego, cresceu 3,9% no último trimestre. No total, 180 mil pessoas desistiram de encontrar um trabalho, somando 4,8 milhões de brasileiros.

Mulheres. jovens, negros e pardos são os mais atingidos 

Os grupos de trabalhadores entre as faixas etárias de 14 a 24 anos são os que mais sentem o desemprego: 44,5% das pessoas entre 14 e 17 e 27,3% dos pessoas entre 18 e 24 anos estão sem trabalho.

A taxa de desemprego entre as mulheres (14,9%) é maior do que entre os homens (10,9%). O índice neste primeiro trimestre entre as pessoas que se declararam brancas ficou em 10,2%, enquanto os que se declararam pretos atingiram 16% e pardos 14,5%.

Educação superior

Apenas 10,4% das pessoas desempregadas são graduadas em cursos superiores. Por outro lado, 56,4% tem o ensino médio completo, e 22,1% não chegaram a completar o ensino fundamental.

Milagre

Jair Bolsonaro afirmou que há milhões de trabalhadores desempregados "que não têm como ter emprego porque o mundo evoluiu" e eles "não estão habilitados a enfrentar um novo mercado de trabalho, a indústria 4G". A declaração foi dada a repórteres durante a viagem que faz a Dallas, nos Estados Unidos, e registrada pelo jornal O Globo.

O presidente, provavelmente, se referia ao termo "indústria 4.0" (pelo menos, é o que gostaríamos de acreditar), que se refere a tecnologias de automação e troca de dados. Isso inclui inteligência artificial, big data, impressão em 3D, biologia sintética. Seria uma quarta fase da revolução industrial.

Na verdade, a falta de formação nessa área não é uma questão apenas de quem está fora do mercado de trabalho. Poucos entendem o que significa essa tecnologia e um número ainda menor está preparado para atuar nessas áreas – o que será um dos grandes desafios não só para o país mas também para o mundo nas próximas décadas. Os problemas de qualificação que temos à nossa frente, contudo, são bem mais prosaicos e possíveis de serem atenuados pelo governo – desde que esse governo esteja realmente interessado.

Estamos falando, por exemplo, em combater o analfabetismo digital. Na última pesquisa disponível do IBGE, a internet chegava a 74,9% dos domicílios no Brasil. Dos 17,7 milhões lares em que não havia acesso à rede, 22% deles não contavam com alguém que sabia usar a internet. A proporção de quem tem 60 anos ou mais e acessou a internet pelo menos uma vez nos três meses anteriores à pesquisa foi de 31,1%. E isso para o básico, ou seja, o acesso. Mas precisamos de trabalhadores que saibam escrever códigos de programação. O problema é que o número de brasileiros capacitados para isso deve ser menor do que aqueles que acreditam que a Terra é plana.

"Tenho pena, tenho. Faço o que for possível, mas não posso fazer milagre, não posso obrigar ninguém a empregar ninguém", afirmou o presidente.

Ele não precisa ter pena, muito menos obrigar alguém, até porque empregar não é um favor, mas um negócio de compra e venda de força de trabalho em nome de salário e lucro. Mas o governo deve adotar medidas e não ficar apenas apostando todas as fichas na Reforma da Previdência, na Reforma Tributária e nas privatizações de estatais.

Os 13,4 milhões de desempregados e os 28,3 milhões de subocupados não vão reduzir se a economia não sair do lugar, se o Estado brasileiro não agir com políticas para aquecer o mercado interno e gerar postos de trabalho.

Bolsonaro reclama que não tem culpa pelo alto patamar de desemprego. Nisso ele tem razão, uma vez que estamos vivendo as consequências de decisões de governos anteriores. Mas até agora não apresentou sua política nacional para o emprego e a qualificação de mão de obra – ausência que não contribui com a construção de saídas e que deve sim ser colocado em sua conta. Formar trabalhadores é fundamental não apenas para aumentar a chance de empregá-los, mas também para permitir o ganho de produtividade que o país tanto precisa.

Na mesma fala, o presidente criticou, novamente, a metodologia do cálculo de desemprego do IBGE, que segue padrões internacionais, afirmando que o número é subdimensionado.

O instituto calcula a estimativa dos que estão em busca de emprego, dos que trabalham menos do que gostariam, dos que desistir de procurar emprego porque acham que não vão encontrar e daqueles que não estão trabalhando, nem procurando serviço.

Lançar dúvidas sobre o termômetro é típico de quem não sabe atacar as causas da febre para reduzi-la.

O fato do presidente desdenhar das ferramentas de seu governo baseadas em métodos científicos, aliás, ajuda a explicar a falta de cuidado que ele tem com o financiamento da pesquisa científica e da produção de conhecimento no país.


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