Semana On

Segunda-Feira 16.set.2019

Ano VIII - Nº 363

Coluna

Banho de ciência como resistência

Obscurantismo e a destruição das lunetas

Postado em 16 de Maio de 2019 - Emerson Merhy

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Faz séculos que a luneta tem uma centralidade na luta contra o obscurantismo, que na sua pior versão atual passou a ser projeto de governo, pelo mundo afora. De fato, não são poucos os governos que pregam discursos contra os saberes das ciências, dizendo que são constituídos por puras ideologias manipulatórias.

Como por exemplo, quando desde o século XV vemos pensadores de posse de lunetas afirmarem que a Terra não era o centro do universo e era redonda como qualquer outro astro. As lunetas são reveladoras só por ampliar o alcance do olho aberto, com ela passamos a ver que a esfera é uma forma bem comum no nosso Universo. Entretanto, os obscurantistas querem, por que querem e sem nenhuma prova cabível, dizer que a Terra é plana e que tudo que a ciência astronômica vem afirmando é mentira, apesar de todas as provas que vem construindo há séculos.

Ser obscurantista não é em si um problema para quem quer ficar nesse lugar, o problema é quando querem transformar em pensamento oficial de um governo essa sua posição, quando transformam esse absurdo em visão de mundo, que vê em qualquer outro modo de entender o mundo algo que merece ser destruído, morto e eliminado.

Como regra esses obscurantistas são também assassinos em potencial.

Mas, a coisas não para aí, sobre a Terra ser plana ou não. Vai mais longe, quando afirma que todas as ciências sobre o meio ambiente, que vêm mostrando o quanto nosso modo de viver atual tem destruído a capacidade da Terra acolher as vidas em suas multiplicidades, são ideológicas e a serviço do comunismo internacional.

E, pior, ganham algumas cabeças com essas falas, por mais infundadas que sejam. Geram paranoia coletiva contra um inimigo ficcional.

As ciências, na nossa tradição ocidental, tem algo que é muito relevante de ser preservado: a sua capacidade de se colocar a todo tempo em cheque sobre a verdade que produz, mas exigindo para isso provas que possam apontar outras verdades possíveis. Com isso a ciência tem sido, diferente do campo religioso, como um lugar que não pode ser sustentado por dogmas e crenças, pois exige produção de conhecimento vivo e sempre em transição; além de ser um lugar da vida social que só pode se sustentar se for respeitosa com as diferenças nos modos de se produzir esses conhecimentos.

O obscurantismo, ao contrário, é centrado em pura crença e criminaliza o pensamento livre e aberto a novos conhecimentos.

Outro campo onde o obscurantismo abre uma guerra forte é sobre a origem dos seres vivos. Por exemplo, várias ciências dizem que os seres vivos viveram e vivem pelos processos evolutivos, que no caso especial dos humanos advogam a noção de que temos vínculos de parentescos com outros humanos que viveram bem antes de nós, os homos sapiens e, por outro lado, há o posicionamento religioso judaico-cristão fanático que diz que isso não é verdade pois somos originados a partir de

Adão e Eva, em um pensamento que se chama criacionista, não admitindo outra possibilidade por mais prova que haja demonstrando isso.

Entendo, a partir disso tudo, que essa frente da luta das ciências contra o obscurantismo deve ser eleita como um frente de resistência fundamental nos momentos atuais, para desmascarar as más intenções que os obscurantistas que querem ser governo carregam, por considerar que essas suas apostas visam unicamente governar a cabeça dos outros, para impedi-los de olharem a lunetas que existem por aí e passarem a pensar com suas próprias ideias, mostrando que um dos lados lindos do viver é a diferença no pensar e no olhar o mundo, as coisas e os outro.

As ciências devem ser antídoto aos homens maus, malvados e perversos.


Voltar


Comente sobre essa publicação...