Semana On

Domingo 22.set.2019

Ano VIII - Nº 364

Artigo da semana

Evangélicos e a ascensão da extrema-direita no Brasil

As igrejas neopentecostais tornaram-se uma espécie de ‘curral eleitoral’, por um lado, e centros irradiadores de propaganda eleitoral

Postado em 15 de Maio de 2019 - Ana Keila Mosca Pinezi

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A Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) é um complexo que envolve um império midiático não voltado apenas à propagação de seus preceitos religiosos e morais e ao proselitismo, mas também como a expressão do crescimento extraordinário evangélico no Brasil, em especial o do neopentecostalismo, cujo cerne está na Teologia da Prosperidade e da Saúde. Dessa maneira, os evangélicos neopentecostais são uma clara ameaça ao catolicismo tradicional e também popular. A Iurd é uma igreja-empresa, cujo poderio se espraiou especialmente nas periferias brasileiras e chegou à esfera pública, à política institucionalizada, por meio da eleição de pastores e de adeptos que a representam no Congresso Nacional e em municípios e estados brasileiros. Portanto, com o elevado número de adeptos e com o império midiático que tem, a Iurd aparece – ao lado da Assembleia de Deus, a mais antiga igreja pentecostal brasileira – como um espaço para recrutar eleitores e ampliar a imagem de candidatos que dela se aproximem e que ofereçam a manutenção e ampliação desse poderio. As igrejas neopentecostais, cujo maior expoente é a Iurd, tornaram-se uma espécie de “curral eleitoral”, por um lado, e centros irradiadores de propaganda eleitoral, por outro, aos que a representam e aos que oferecerão, se eleitos, vantagens e ampliação do seu poderio.

A Frente Parlamentar Evangélica (popularmente chamada de bancada evangélica), fundada em 2003, reflete claramente a inserção de evangélicos de várias vertentes na política institucionalizada. Entre os parlamentares evangélicos que fazem parte da bancada evangélica, a maioria é membro da Assembleia de Deus ou da Iurd.

Não é a primeira vez que os evangélicos declaram apoio a políticos que lhes interessam. Nas primeiras eleições diretas para presidente no Brasil, após o período militar e o início do processo de redemocratização pós-constituinte, os evangélicos, representados pela bancada evangélica formada à época da Constituinte em 1986, colocaram-se favoráveis a Fernando Collor de Mello (PRN), o candidato da direita, contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT), demonizado por ser de esquerda e que, por isso, perseguiria as igrejas evangélicas. Em 1994, novamente os evangélicos, notadamente os pentecostais, voltaram identificar Lula como o “candidato do demônio”. Os líderes da Iurd orientaram a não votar em Lula, que novamente perdeu as eleições, desta vez para Fernando Henrique Cardoso. Isso mesmo depois de Lula declarar que acreditava em Deus e tentar uma aproximação com os pentecostais. Em 2002, no entanto, a Iurd e outras denominações evangélicas apoiam a candidatura petista. No governo Lula, há uma aproximação entre o presidente e parlamentares evangélicos.

Como se pode ver, a atuação dos evangélicos na esfera pública não é algo inédito. Contudo, a ampliação dos parlamentares e do poderio deles no espaço político levou a uma disputa acirrada por parte dos candidatos pelo apoio deles, que de fato tem se tornado decisivo no processo eleitoral brasileiro.

Minha hipótese é bastante simples. Com o colapso do lulismo, não há dinâmica política convencional remanescente no Brasil. Pode ser que algum tipo de “bolsonarismo” surja em seu lugar, mas durante o período de transição o que aparece é uma política paralela baseada na religião. Enquanto a Assembleia de Deus e a Igreja Universal do Reino de Deus parecem ser muito dinâmicas, o catolicismo tradicional do Brasil continua sendo a identidade majoritária. O resultado final é uma sociedade cristã conservadora, com algumas crenças fundamentais que agora constituem o consenso político nacional. O que é notável é que essas crenças não compartilham quase nada com períodos anteriores da cultura política brasileira. Por exemplo, ler a imprensa evangélica leva a pessoa a outro mundo: um mundo em que as questões mais importantes são as profecias dos homens santos e a questão de exatamente quem Deus escolheu e por quê. O “Plano de Poder”, de Edir Macedo, elimina todo esse sistema político. Se a Record pode substituir a Globo como o principal meio de normalidade política, essas questões serão cimentadas no lugar das mentes das massas, assim como as doutrinas da Igreja Católica foram consolidadas na época da Casa Grande. Esta seria uma mudança fundamental para o Brasil e para toda a América Latina.

A imagem de Bolsonaro foi construída com base no conservadorismo moral e na noção de libertador do país de uma ameaça comunista que seria representada pelo PT. No Brasil, Collor de Mello teve sua imagem construída de forma muito parecida. Ele foi intitulado “caçador de marajás”, isto é, alguém que iria “caçar” os privilegiados, os ricos e que se aproveitavam da pobreza de grande parte da população de um país cuja desigualdade social é gritante. O messianismo no Brasil é forte e vem, em especial, de uma tradição sebastianista. O sebastianismo diz respeito à crença de que Dom Sebastião, rei de Portugal, desaparecido na batalha de Alcácer-Quibir, na África, em 1578, voltaria e assumiria as tropas portuguesas, vencendo os inimigos, restaurando a paz, a justiça e a felicidade do seu povo. Essa crença se fez presente no imaginário português durante mais de um século. O sebastianismo chegou ao Brasil, carregado de conteúdo religioso, no século XIX. A ideia salvacionista do sebastianismo aglutinou elementos religiosos e políticos do imaginário popular e explodiu na região do sertão nordestino. Assim, o messianismo no Brasil não está calcado apenas na concepção religiosa de salvação, pois há a expectativa de que um “messias” surja e livre a nação das mazelas sociais, atuando no campo político, tal como é a figura de Dom Sebastião. O sebastianismo foi a base de movimentos político-religiosos no Nordeste, com a exploração da fé religiosa por meio de líderes fanáticos. O imaginário brasileiro, ainda hoje, está eivado do sebastianismo que foi remodelado e revestido com roupas modernas e midiáticas e torna-se mais forte e aparente quando há insatisfação política por parte da população. Assim, mesmo com a proclamação do Estado laico, em 1890, há uma expectativa por parte de grande parte da população de que líderes políticos surjam para restaurar a “ordem”. Ou mesmo promover uma mudança no status quo no que tange à pobreza, à desigualdade, à precaridade econômica e social brasileira tal como faria um messias, um “escolhido” divino que traria, enfim, prosperidade ao povo brasileiro. Isto posto, compreende-se que o terreno simbólico para o aparecimento de líderes religiosos na política estava pronto para que tivessem apoio popular.

Embora não gozasse de repertório religioso, Lula foi tido como aquele que, por seu passado na pobreza, com baixa escolaridade, condição de operário e sindicalista que ultrapassou as agruras e se tornou um líder popular, poderia mudar o cenário de desigualdade brasileira, possibilitando uma diminuição da base da pirâmide social. Políticas públicas e programas voltados para mitigar a pobreza e possibilitar o aumento do poder aquisitivo das classes sociais mais pobres. De fato, esse plano funcionou em parte, melhorando os índices de desenvolvimento, elevando o nível aquisitivo das classes miseráveis e possibilitando a saída do país do mapa da fome. No entanto, as estruturas que mantêm a desigualdade social, incluindo a mentalidade escravista e classista pautada pela equação “Casa Grande-Senzala”, que permeia o imaginário tanto de ricos como da classe média, em especial, rechaçou os avanços sociais e a inclusão de parte das camadas populares em espaços antes permitidos apenas às camadas médias e às abastadas. Houve também uma reação aos avanços no que se refere às reivindicações de grupos minoritários, como os LGBTT e negros. No final do primeiro governo de Dilma Rousseff, houve uma desconexão das bases populares com o governo e medidas impopulares foram tomadas, sem consulta aos movimentos sociais que apoiaram o governo de Lula. O lulismo começou a ficar desgastado e a dar sinais de que estaria chegando ao fim. Soma-se a isso o fato de que o aumento do poder aquisitivo das camadas populares nos governos petistas não se deu juntamente com a formação cidadã, em que se reconhecem direitos e deveres e podem, por meio da educação voltada à cidadania e inclusão social, refletir sobre sua própria condição e sobre as estruturas de poder que solapam a mobilidade social e a diminuição das desigualdades sociais e mantêm a concentração de renda nas mãos de muito poucos. Dessa maneira, a democracia brasileira não foi fortalecida e a revolta com os escândalos de corrupção, inclusive do PT, levaram à desmoralização da classe política. Esse foi o golpe final no lulopetismo, que culminou com o golpe parlamentar que levou ao impeachment de Dilma e à prisão de Lula. O cenário político, econômico e social tornou-se propício para a emergência de mais um “messias”, advindo da política, mas revestido com o manto religioso, construído pela Frente Parlamentar Evangélica juntamente com setores privados da economia. Assim, Jair Messias Bolsonaro, um desconhecido deputado carioca, é tomado como um possível messias, aquele que incorporaria a figura sebastianista e salvaria o país da ameaça contra a família nuclear tradicional, restauraria a “ordem” na política, contra a corrupção, e elevaria o país a níveis de desenvolvimento econômico de países centrais, abrindo o país para exploração de grupos econômicos internacionais, disponibilizando inclusive a própria Amazônia para isso.

O discurso de Bolsonaro foi identificado como moralizador, por parte de conservadores e religiosos. A austeridade identificada com seu passado militar também acionou elementos do imaginário nacional, mesmo com o fato de que a ditadura militar tenha sido um período recente na história brasileira e que tenha levado ao desrespeito aos direitos humanos, com práticas de tortura, prisões, desaparecimento e morte aos que a ela se opunham. Uma sensação de saudosismo do que na verdade não houve no país tomou conta de boa parte da população no que se refere à ideia de que “na época dos militares é que era bom”. Esse mote foi repetido por seguidores de Bolsonaro em questões desde a violência atual e a corrupção no país até a ideia de que a família e os valores tradicionais eram respeitados nesse período. O passado, então, foi refeito, de forma distorcida, por aqueles que, como o ex-capitão e deputado dizia, passaram a admirar torturadores do regime militar. Caso do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, invocado por Bolsonaro no momento do impeachment de Dilma e homenageado por ele em várias outras situações. O golpe militar de 1964 que deu início à ditadura militar no Brasil foi negado por políticos e teve, por parte de instituições públicas, uma nova interpretação, amenizando-o e classificando-o como apenas um “movimento militar”. Foi isso, por exemplo, que disse o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Tóffoli.

Jair Bolsonaro, o “mito”, como foi e é chamado por seus seguidores, construiu sua campanha eleitoral com declarações contrárias aos direitos das minorias, mostrando claramente misoginia, homofobia, racismo, xenofobia e acenando positivamente para os valores tradicionais cristãos (especificamente os evangélicos) como uma maneira de restabelecer a “ordem” no país.

A campanha eleitoral de Bolsonaro também foi caracterizada pelo movimento Escola Sem Partido (hoje um projeto de lei criado por líderes políticos evangélicos, conservadores, incluindo Bolsonaro e seus filhos), para quem há uma “doutrinação ideológica” nas escolas, acusando professores de doutrinar crianças no que tange à ideologia comunista. Além disso, muitas escolas e professores foram acusados de utilizar um suposto material distribuído pelo Ministério da Educação, elaborado na gestão de Fernando Haddad, que seria voltado para a sexualização de crianças e para a adoção do que foi chamado de “ideologia de gênero”, a qual teria como objetivo transformar as crianças em homossexuais, transgêneros ou transexuais. O suposto material foi chamado de “kit gay”. Na reta final da campanha eleitoral, o STF apurou essa informação e esclareceu que era falsa, que tal material jamais havia existido. Apesar disso, Bolsonaro continuou a utilizar essa informação falsa, sem que houvesse qualquer punição. Tanto a questão da suposta doutrinação ideológica como o kit gay foram tidos pelos evangélicos como uma afronta aos seus valores. Dessa maneira, conservadores, católicos e evangélicos, de todas as vertentes uniram-se contra Haddad e aclamaram Bolsonaro como a salvação das crianças, da família, do país.

A imagem do “messias” foi se fortalecendo ao longo da campanha presidencial de 2018. Mais denúncias de corrupção de Lula e de integrantes do PT, fruto de delações premiadas, foram colocadas na imprensa pelo então juiz federal, Sérgio Moro, encarregado pela Operação Lava-Jato.

No plano do discurso moralista e moralizador, a campanha atacou também a classe artística, que se colocou, em grande parte, contra as ideias ultra-conservadoras de Bolsonaro. Seus seguidores colocaram-se, então, frontalmente contra os artistas contrários à eleição do ex-capitão e elegeram a Rede Globo como a propagadora do mal, de imoralidade, destruidora da família e dos valores tradicionais. Nesse momento, a TV Record, a emissora da Iurd, apareceu como apoiadora de Jair Bolsonaro, oferecendo ao então candidato à presidência espaço para entrevistas exclusivas. Integrantes da campanha presidencial indicaram, segundo jornais brasileiros, a articulação com a TV Record com o objetivo de torná-la uma “Fox News brasileira”. A TV Record passou a ser, a partir de 2015, a segunda emissora de maior faturamento no país e tem cooptado telespectadores outrora assíduos da TV Globo. O conteúdo da TV Record não diz respeito apenas a programas de teor religioso e eclesiástico, mas inclui um leque razoavelmente grande de programas de variedades, jornalístico, revista eletrônica, novelas e noticiário.

A declaração de Edir Macedo de que votaria em Bolsonaro, no primeiro e segundo turnos das eleições presidenciais de 2018, foi, de fato, um grande impulso à vitória do candidato. O IBGE apontou, a partir de dados do último censo realizado em 2010, que os evangélicos saltaram, no período de 1970 a 2010, de 5,2% da população para 22,2%, contando com o declínio de mais de 22% de católicos. Portanto, os evangélicos, notadamente os pentecostais e neopentecostais, a vertente que mais cresce entre eles, passaram a ser vistos por políticos e aspirantes como uma “fatia” importante da população que pode alavancar candidaturas políticas e levá-las à vitória. Em 2014, Dilma contou com o apoio de Edir Macedo em sua campanha presidencial e a diferença relativamente pequena de votos para o seu opositor pode estar também vinculada a esse apoio. Além do apoio do líder da Iurd, Bolsonaro (PSL) foi apoiado pelo pastor Silas Malafaia, líder de uma das vertentes (Ministério Vitória em Cristo) da Assembleia de Deus e vice-presidente do Conselho Interdenominacional de Ministros Evangélicos do Brasil (CIMEB), organização que agrega aproximadamente 8 mil pastores de denominações evangélicas variadas. Malafaia é bem conhecido no meio político e por suas declarações enfáticas na mídia contra o direito da comunidade LGBTT e contra o aborto. Embasado na Teologia da Prosperidade, Malafaia tem apoiado candidatos políticos de direita. Em 2014, posicionou-se frontalmente à candidatura Dilma, apoiando Aécio Neves (PSDB). Com um patrimônio bastante alto para os rendimentos comuns a um pastor, Malafaia, que é também conferencista e apresenta um programa televisivo há mais de 29 anos, o Vitória em Cristo, não tem qualquer pudor em chamar jornalistas, políticos e figuras públicas de “vagabundo”, “idiota” ou usar de outros adjetivos que desqualifiquem os que se opõem a suas ideias e declarações. Também ele declarou fortemente seu apoio a Bolsonaro, justificando-o ao dizer que o candidato era o único que defendia diretamente a “ideologia da direita” e que encarnava “os valores mais caros” ao povo brasileiro “na questão dos costumes”. O pastor assembleiano disse que iria usar suas redes sociais (Twitter, Instagram e Facebook, além de um canal no YouTube com 30 milhões de visualizações) para alavancar a candidatura de Bolsonaro entre os evangélicos, dos quais, profetizou, 80% dariam seu voto a ele. O número de assembleianos no Brasil é de cerca de 22,5 milhões de adeptos e as igrejas se espraiam não apenas pelas metrópoles brasileiras, mas pelas médias e pequenas cidades dos rincões do país.

Com o slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, a campanha de Bolsonaro reuniu em torno de si a bancada evangélica. O então senador Magno Malta (PR), pastor e cantor evangélico, foi figura central na campanha, em especial após a facada que o candidato recebeu em um comício. Nas várias aparições de Bolsonaro no hospital após a facada, pela televisão e pela internet, o senador evangélico esteve presente, abençoando o candidato e fazendo orações públicas, pedindo o restabelecimento daquele que iria, segundo ele, salvar o país das garras da esquerda. Assim, o episódio da facada a Bolsonaro foi transformado em um acontecimento religioso do sacrifício e da busca pela cura divina àquele que seria um escolhido do próprio Deus. Os aparecimentos do candidato à presidência na cama de um hospital, rodeado pelos filhos, também parlamentares, e pelas orações e súplicas conduzidas por Malta levaram não apenas à comoção de boa parte da população brasileira como também adaptaram o espaço sagrado dos templos, sobretudo os evangélicos, a um quarto de hospital. O mito estava se tornando mártir. Nem mesmo a imagem de Bolsonaro na cama fazendo o gestual de costume, isto é, apontando com as mãos como se fossem armas, foi capaz de manchar sua imagem como o escolhido divino. Ao contrário, ela fortaleceu a ideia de um “guerreiro”, revestido de poder divino para combater os males do Brasil, identificados como a corrupção (leia-se a corrupção petista) e os valores contrários à família tradicional e aos “bons costumes”. Malta, candidato a senador, não foi reeleito e nem assumiu cargo no governo de Bolsonaro, mas indicou para o Ministério das Mulheres, da Família e dos Direitos Humanos sua assessora, a pastora Damares Alves, que segue a mesma linha de ataques à esquerda, às pautas progressistas, e que pretende fazer do Brasil um país reconhecidamente cristão, desprezando o princípio da laicidade e da diversidade religiosa. Ao se despedir do Congresso, Malta fez um pronunciamento no parlamento dizendo que cruzaria o país novamente se fosse preciso em apoio a Bolsonaro e que o vê como um homem sensível às coisas espirituais. Ainda, declarou que muitos perguntaram-lhe porque ele não foi candidato à presidência e sua resposta foi: Bolsonaro é quem foi escolhido por Deus para essa missão. E disse mais: “O diabo não levanta autoridade. Quem levanta autoridade é Deus. Encampei essa missão de quebrar o viés ideológico. O Brasil precisa de um homem patriota, que tenha Deus no coração, disposto a enfrentar a violência, proteger a escola, as crianças e, acima de tudo, que ame Israel”. Essa fala de Malta resume, de certa maneira, o messianismo a que foi revestida a trajetória de Bolsonaro e de como se construiu no discurso a figura de um herói político e religioso ao mesmo tempo. Muito embora as declarações do ex-capitão estejam distantes dos ensinamentos do Cristo em relação aos pobres, aos marginalizados, para os moralistas representados pelos doutores da lei e os sacerdotes do Templo, Bolsonaro foi como um justiceiro de Deus que usa “armas” para defender os inocentes e as “pessoas do bem”. A dicotomia entre os cidadãos do mal e os cidadãos do bem foi compreendida no discurso de Bolsonaro como o que separaria o “joio do trigo”. Portanto, o deputado assumiu não apenas o papel do enviado divino, mas daquele que poderia julgar e “limpar” a terra brasilis da violência e dos que teriam o objetivo de destruir os valores tradicionais representados pela família nuclear, pensada como sagrada. Assim, não houve qualquer incoerência vista pelos seguidores de Bolsonaro em relação ao seu discurso bélico, inclusive literal, defendendo a flexibilização do uso de armas e a facilitação do porte e da posse delas. Chama ainda a atenção a ideia de “amor à Israel” no discurso de Malta, muito presente no de Bolsonaro. Trata-se da alusão a uma noção bastante forte e presente no meio evangélico, a de que Israel é a terra prometida e, como tal deve ser respeitada e amada. É como se o tempo tivesse sido estancado e Israel estivesse ainda na época do Velho Testamento. É, portanto, significativa a promessa de Bolsonaro de que mudará a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, declarando não reconhecer o Estado Palestino. Para muitas denominações evangélicas, quando Israel obtiver todos esses territórios e vencer a guerra com os palestinos, então a segunda vinda de Jesus Cristo estará próxima e a paz se estabelecerá. No entanto, é importante notar, essa crença não é compartilhada com os judeus, nem faz parte do imaginário coletivo dos israelenses. Mas isso não importa aos evangélicos que se veem como “descendentes” espirituais do povo de Israel.

Envolto em elementos de um suposto ultranacionalismo, o discurso bolsonarista disseminou-se pelas redes sociais, em especial por meio de mensagens no aplicativo Whatsapp. Estas mensagens foram repercutidas por grupos religiosos em especial, sobretudo os evangélicos, que condenam abertamente a homossexualidade como sendo um desvio da criação divina e veem a sexualidade como a dimensão humana mais atacada pelos seres espirituais malignos. Além disso, mensagens de teor religioso como a que Lula faria sacrifícios de animais a demônios a fim de tentar eleger Haddad foram amplamente repassadas em correntes de membros de denominações evangélicas e católicas. A imagem de Bolsonaro tornou-se a representação da austeridade, da moralidade, mas, mais que isso, o brasileiro das camadas médias, sobretudo, identificou-se com esse “mito” do cotidiano. É um mito “ordinário”, isto é, Bolsonaro representa o homem comum, sem nenhum brilhantismo. Por isso, ele é familiar. Essa familiaridade foi enaltecida no sentido de que um “homem comum” poderia assumir o poder, sem ter feito nada de extraordinário, e que, contrariando a intelectualidade acadêmica, os estudiosos dos fenômenos sociais, os organismos internacionais de direitos humanos e a própria história e memória do país, teria sido eleito por Deus, talvez por sua própria insignificância em termos políticos e por suas colocações mais que politicamente incorretas com as quais a maioria se identifica. Lembramos aqui palavras de Bolsonaro no dia de sua posse como presidente da República: “É com humildade e honra que me dirijo a todos vocês como presidente do Brasil e me coloco diante de toda a nação neste dia como um dia em que o povo começou a se libertar do socialismo, se libertar da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”. Sua fala comum, mas com palavras carregadas de sentido do ponto de vista dos conservadores como “nação”, “valores”, “socialismo”, “libertar”, acionam o imaginário social e trazem uma sensação de que tudo voltará a ser como era antes, um “antes” ancorado em um saudosismo do que nunca existiu.

Na verdade, os avanços no Brasil no que tange aos direitos de minorias e a repreensão de discursos racistas e preconceituosos levaram a um silêncio forçado por parte de muitos brasileiros, que engoliram suas palavras preconceituosas, suas piadas eivadas de racismo, xenofobia e preconceito de classe e gênero, mas o desejo de dizê-las não foi apagado, porque esses e muitos outros preconceitos continuaram ali, não foram dissolvidos. O Brasil é um país racistas e classista. Bolsonaro representou a possibilidade, sem censura, de dizer livremente o que se pensa (e o que se sente) em relação ao outro, ao diferente, ao que incomoda por sua diferença e ao que, ilusoriamente ou não, ameaça os privilégios de alguns. Tudo isso, revestido pela aura da religiosidade, ficou amenizado e levou, de certa forma, à autorização da livre expressão contra qualquer pauta que cheirasse a ideias progressistas. Por consequência, a naturalização de discriminações tende a se estabelecer e a esperar submissão dos que são oprimidos sob a ideia de que devem ser humildes, como ensina distorcidamente uma teologia subserviente ao status quo. Sobretudo brancos, homens e religiosos eleitores de Bolsonaro viram-se liberados para dizer o que estava reprimido com a justificativa de serem legítimos conservadores, palavra outrora ofensiva e que foi reabilitada, tornada uma virtude. O conteúdo do que se diz, do que se pensa e os posicionamentos que se tem passaram a ser justificados pela honestidade em se dizer o que se é. Dessa forma, o conteúdo, se racista, classista, discriminatório, passou a não mais importar. A palavra democracia também foi frequentemente nessas eleições evocada para desculpar qualquer conteúdo.

Como mito, e um mito revestido de religiosidade e poder político, não importa o que seja feito ou dito, os seguidores ferrenhos de Bolsonaro não reconhecem qualquer deslize em seus atos e declarações.

A alusão aos textos bíblicos tornou-se frequente nos discursos de campanha de Jair Bolsonaro. Usando o versículo bíblico “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João 8:32), em um dos seus vídeos da campanha presidencial, Bolsonaro colocou-se como a própria verdade em oposição aos políticos mentirosos e desonestos. Segundo ele, o seu slogan de campanha originou-se “daquilo que muitos chamam de caixa de ferramenta para consertar o homem e a mulher, que é a Bíblia Sagrada”. Essas frases de efeito são familiares a evangélicos e produzem uma sensação de que o país, a despeito do pluralismo religioso e da laicidade do Estado, poderá, enfim, ser governado por um “homem de Deus” e debaixo dos princípios cristãos, precisamente os mais afeitos aos interpretados pelos evangélicos. Se a desigualdade social e a exclusão social continuarão a assolar o país não é algo que se encontrou no centro das preocupações nas eleições de 2018. Na verdade, a desigualdade social é interpretada pela maioria das denominações evangélicas como fruto do pecado dos seres humanos. Os neopentecostais, por exemplo, a veem como algo a ser vencido por meio das estratégias oferecidas pela Teologia da Prosperidade e da Saúde.

A dimensão política foi substituída pela religiosa? A resposta é não. A dimensão política não é estanque, assim como nenhuma outra. Elas se interrelacionam, alimentam-se, hibridizam-se. A dimensão religiosa nunca esteve fora da esfera pública. A ideia de que religião é um assunto de fórum íntimo já foi ultrapassada pois ela pressupõe valores coletivos e direitos que se consolidam na esfera do público e do coletivo.

Assim, religioso e político dialogam e interpenetram-se. Os elementos culturais da religião e da política não estão circunscritos respectivamente à esfera privada e à pública. Eles estão pulverizados no espaço público e no privado, cujas fronteiras afrouxaram-se, deslocaram-se e encontram-se borradas. Como o aumento da competitividade entre os grupos religiosos no Brasil tem se tornado cada vez mais forte com o fim da hegemonia católica e a emergência e crescimento extraordinário de grupos evangélicos, em especial os pentecostais e neopentecostais, a busca por espaços representativos na política configura-se como fundamental para assegurar não só seu funcionamento e sobrevivência, mas possíveis avanços no que se relaciona ao proselitismo e à disseminação de valores e práticas vistos como os únicos corretos.

As eleições de 2018 mostraram como os evangélicos, que não configuram um bloco monolítico, ao contrário, são constituídos por várias vertentes que disputam o “mercado religioso” brasileiro, uniram-se em torno do mito que construíram, com a ajuda da ala conservadora do catolicismo e de conservadores não religiosos.

A religião não está reclusa ao coração, à intimidade dos fiéis ou aos templos, mas ocupa ruas e instituições políticas. Não é possível mais definir, de forma permanente e categórica, o que é apenas religioso e o que é apenas político. O Brasil é um bom exemplo disso.

Ana Keila Mosca Pinezi é docente e pesquisadora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM)


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