Semana On

Sexta-Feira 22.nov.2019

Ano VIII - Nº 372

Comportamento

A era do pós tesão

Jovens estão transando menos porque ‘é muito arriscado’, diz especialista

Postado em 15 de Maio de 2019 - Hannah Ewens (VICE) e Galileu

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Existem várias causas para os millennials transarem menos que as gerações anteriores: não terem casa própria, carro ou preferirem ficar em casa a sair. Contudo, para o economista Allison Schrager, o principal motivo é o "alto nível de risco" que o ato sexual envolve.

De acordo com o autor de An Economist Walks into a Brothel ("Um Economista Vai a um Bordel", em tradução livre) se relacionar é muito perigoso, já que nunca se sabe quais serão as consequências de se envolver emocionalmente. A pessoa pode encontrar satisfação profunda ou ser rejeitada. Um relacionamento casual pode se tornar desagradável, a outra pessoa pode se apegar demais, você pode se apegar demais, e pode haver um desentendimento.

Sair para conhecer possíveis parceiros também é incômodo, porque pode ser estranho e desconfortável (ou maravilhoso). "Há evidências de que a geração do milênio pode estar menos inclinada a assumir esses riscos. Eles namoram menos, apesar da tecnologia permitir que eles conheçam mais pessoas, e demorem mais para se casar ou estar em relacionamentos de longo prazo. Tudo isso resulta em menos sexo", escreve Schrager ao Quartz.

Economistas especulam, inclusive, que os millennials são mais avessos ao risco do que as gerações anteriores, já que foram criadas de forma a se beneficiarem mais de atividades caseiras, e, consequentemente, mais seguras. "Alguns [especialistas] especulam que a Netflix pode explicar o declínio da fertilidade, porque os casais preferem ver TV ao invés de, digamos, praticar outras atividades", comenta o especialista.

Millennials têm mais dificuldade em definir sua sexualidade, mostra estudo

A geração millennial tem mais dificuldade em definir sua orientação sexual, de acordo com um estudo feito nos Estados Unidos com mais de 7 mil pessoas. Os voluntários foram entrevistados três vezes entre 1995 e 2009, durante a adolescência, o início da vida adulta e aos quase 30 anos.

Além disso, os pesquisadores descobriram que as mulheres são mais fluidas em sua orientação sexual. Em contraste com garotos, dos quais 90% disseram ser heterossexuais, apenas dois terços das mulheres jovens se colocariam nessa categoria. Dez por cento se sentem mais atraídas pelo sexo oposto, e 7,5% expressa um interesse claro em ambos os sexos.

Enquanto isso, nos voluntários do sexo masculino, as duas últimas categorias juntas representavam pouco menos de 4%. Apenas 1,5% das mulheres e 2,4% dos homens identificaram-se clara e exclusivamente como homossexuais.

De acordo com os especialistas, esse comportamento significa uma maior "flexibilidade na capacidade de resposta sexual que depende das situações" por parte das mulheres. Enquanto os homens tendem a se definir mais claramente, seja como homossexual ou heterossexual, as mulheres parecem experimentar sua sexualidade como um espectro mais amplo, ou seja, mesmo se descrevendo como heterossexuais, por exemplo, elas consideram a possibilidade de se interessarem por outras mulheres.

O estudo também mostrou que a idade influencia na definição final da sexualidade. Por exemplo, o número de mulheres que dizia se interessar por ambos os sexos no começo da vida adulta, mas que mesmo assim se descreveram como predominantemente heterossexuais, caiu para zero quando elas foram entrevistadas pela terceira vez — afirmaram gostar exclusivamente de homens.

Se a maior fluidez feminina se dá por fator biológico ou sócio-cultural, ainda não se sabe. O time de pesquisadores acredita que uma razão para a diferença entre gêneros pode ser o fato de que a imagem masculina clássica ainda está muito mais fortemente ligada à heterossexualidade do que a imagem clássica feminina.

Contudo, os especialistas lembram que com a maior aceitação de diferentes orientações sexuais por parte da sociedade, essas classificações serão menos importantes.

Pós tesão

Na virada do milênio, algo escroto aconteceu. Até aquele ponto, uma vida sem sexo era reservada para casados e eunucos. Uma vida sem sexo para os jovens era impossível: comprar sua primeira pílula do dia seguinte e ter um alarme falso com uma DST eram praticamente um rito de passagem da adolescência.

Enquanto todo mundo esperava o bug do milênio foder os computadores e jogar o mundo ocidental no caos e pânico, não suspeitamos de um outro tipo de glitch. Quando o relógio deu o ano 2000, entramos no calendário Pós-Tesão.

Atitudes sociais em mutação, feminismo Spice Girls e a ascensão da ladette sugeriam que as garotas poderiam fazer tudo que quisessem. Nosso desejo sexual diz o contrário. Doze anos depois, o terceiro National Survey of Sexual Attitudes and Lifestyles do Reino Unido descobriu que a frequência do sexo nos país tinha caído 20% desde a pesquisa anterior em 2000. O Guardian apontou o fato mais chocante: pessoas de 25 a 35 anos era o grupo que menos fazia sexo mensalmente, acrescentando “Estamos todos ignorando nossos parceiros ou desesperadamente procurando por um”. Outros deram a manchete que as mulheres estavam fazendo menos sexo com mais parceiros.

Semana retrasada, ouvimos mais uma vez que os britânicos estão transando menos. Não são dados novos – pesquisadores observaram três ondas sucessivas da National Survey of Sexual Attitudes and Lifestyles, realizadas em 1991, 2001 e 2012. Fomos lembrados que millennials estão fazendo sexo em média 4,9 vezes por mês para os homens e 4,8 vezes para mulheres, comparado com 6,2 e 6,3 respectivamente uma década atrás. O líder da pesquisa Kaye Wellind disse que “o ritmo em si da vida moderna” pode ser a razão para tantas pessoas estarem transando menos. É isso: seus pais faziam mais sexo que você nos anos 1980, e ainda estão transando mais que você agora!

Podemos levantar hipóteses sobre o que exatamente está causando esse ressecamento das nossas vidas sexuais – altos níveis de ansiedade, uma cultura pop hipersexualizada, pornografia, expectativas pouco realistas sobre sexo, namoro online, medo de perder o controle, uso de antidepressivos – mas a verdade é que é tudo isso, se juntando sob o guarda-chuva do capitalismo tardio. Não é culpa nossa, e é, mas só é um problema se você valoriza o sexo e tudo que vem com ele. Estamos afundando na era do Pós-Tesão, uma época em que sexo e amor foram totalmente mercantilizados. Essas coisas perderam a prioridades, ficando atrás de uma obsessão com carreira, ser uma Girl Boss e trabalhar até ter uma fadiga adrenal. Essas coisas são barreiras para a produtividade. O sexo em si? Um extra, não uma necessidade. Não dá pra capitalizar profissionalmente o sexo; isso nem rende influência social.

Lembra do seu único ex legal, se masturbando furiosamente com o pior pornô que você pode encontrar, aos maduros 30 anos de idade? Pós-tesão.

Terminar porque vocês pararam de transar anos atrás, pensar em tentar BDSM, ter uma transa do Tinder e logo depois entrar em outro relacionamento de longo prazo sem sexo. Pós-tesão.

Não conseguir decidir entre todas as pessoas com quem você transou três vezes e ainda manda DMs sem muita empolgação. Ainda pós-tesão.

Perguntar pra sua namorada por que ela pegou o celular e abriu o Instagram enquanto você acalmava sua ansiedade o suficiente para iniciar o sexo, e ela respondendo, num estupor, “Sei lá”. Comportamento pós-tesão.

Esperar pelo Cara Certo enquanto constrói sua carreira e aprende muito com livros de autoajuda feministas e seu terapeuta? Atingimos o pico do pós-tesão aqui.

Para os solteiros, a cultura do sexo casual perdeu o charme: o que antes era visto como emocionante e divertido, agora e percebido como um esforço basicamente inútil. Na melhor das hipóteses, você pode experimentar brevemente a falsa emoção do estilo de vida Tinder, mas o sexo por aplicativos muitas vezes é de má qualidade – algo inevitável quando baseado menos em desejo genuíno e mais no fato de que por acaso você curtiu a foto de alguém, com base num vislumbre de meio segundo da cara da pessoa.

Hoje, desenvolvimento pessoal é a prioridade de todo mundo; queremos nos conhecer e nos tornar a melhor versão de nós mesmos. Antigamente, as pessoas podiam aprender sobre si mesmas através de relacionamentos. Muito complicado!

Se você não está fazendo muito sexo casual porque é solteiro por escolha, a situação não é muito melhor em relacionamentos. Poucos casais voltam pra casa e querem ter uma discussão profunda e divertida, ou pensar em fazer sexo; eles preferem passar o fim de noite assistindo Netflix até alguém cair no sono.

Claro, algumas pessoas vão contra esses tempos de pós-tesão. Entre millennials e o pessoal da Gen Z você ainda vai encontrar, por exemplo, os adeptos da transa casual e devotos dos aplicativos de encontro – mas é justo dizer que em se tratando de sexo, a maioria está mais pensando e falando sobre isso que realmente fazendo.

As pessoas ainda ficam confusas quando veem as manchetes “millennials não transam”, porque o sexo em si hoje é mais presente na nossa vida pública e online que nunca. Mas não deveria ser um choque: essa crise já vinha se formando há um tempo – pelo menos uns 19 anos. Afinal de contras, assim que uma coisa está disponível em qualquer lugar, ninguém mais quer.


Voltar


Comente sobre essa publicação...