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Segunda-Feira 20.mai.2019

Ano VII - Nº 351

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Poder

Barraco de olavistas e generais é parte da estratégia de poder de Bolsonaro

Militares optam pela discrição, olavistas pela balbúrdia ideológica

Postado em 10 de Maio de 2019 - Gustavo Uribe, Daniel Mariani e Fábio Takahashi (Folha de SP), Leonardo Sakamoto (UOL)

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O general Mourão resolveu ficar em silêncio por um tempo, para sair da linha de tiro de Olavo de Carvalho, guru de Jair Bolsonaro, e dos filhos do presidente. A decisão foi tomada antes ainda de Carvalho e os filhos de Bolsonaro virarem suas baterias para o general Santos Cruz, da Secretaria de Governo.

A pressão para que o general fale, no entanto, é grande: há 116 pedidos de entrevistas registrados na vice-presidência da República. Boa parte dos pedidos são de veículos internacionais como Wall Street Journal, The New York Times, La Nación e outros da Alemanha e da Holanda. Desde o começo do governo, Mourão é procurado pela imprensa estrangeira, que Bolsonaro raramente atende —​em geral, o presidente fala quando viaja para fora do Brasil.

Por sua vez, Cruz organizou na quinta-feira (9) um café da manhã com deputados federais no Palácio do Planalto. A reunião teve como objetivo discutir a pauta legislativa, mas congressistas convidados saíram do encontro com a impressão de que se tratou de um esforço para demonstrar força política no momento em que o general sofre críticas do núcleo ideológico do governo.

Para o encontro, ele mobilizou 34 deputados federais de doze partidos diferentes. A metade dos congressistas presentes era do PSL, partido do presidente e de seu filho Eduardo Bolsonaro (SP), defensor de Olavo de Carvalho e que não compareceu ao encontro.

Diferentemente de seu filho, o presidente fez questão de comparecer ao café da manhã, assim como os ministros Paulo Guedes (Economia), Onyx Lorenzoni (Casa Civil) e Floriano Peixoto (Secretaria-Geral). O último é também do núcleo militar do governo.

O encontro foi marcado no início da semana, após o escritor e seus seguidores terem intensificado os ataques ao general nas redes sociais. O movimento gerou reação do núcleo militar do governo, que o interpretou como um ataque às Forças Armadas.

Apelidado no Congresso Nacional de "cara feia", por seu semblante sério, o general acabou se tornando, ao longo do tempo, o principal articulador do governo junto a parlamentares do baixo clero, que apresentam resistências ao ministro da Casa Civil.

Bolsonaro privilegia radicais de direita em rede social, base de Olavo

Na disputa em curso entre o escritor Olavo de Carvalho e militares, o presidente Jair Bolsonaro parece preferir o público de Olavo, ao menos na rede social.

É do grupo mais radical de usuários à direita de onde o presidente mais escolhe pessoas para retuitar - compartilhar mensagens na rede social.

Pesquisadores afirmam que compartilhar material indica uma tendência de a pessoa concordar com o conteúdo.

Quase 35% das pessoas que o presidente retuitou neste ano vêm do grupo de 5% de usuários mais à direita, segundo a categorização feita pela ferramenta.

Esses 5% mais radicais à direita também são o grupo que mais compartilha o material do escritor, que tem desferido ataques aos militares que integram altos escalões do governo Bolsonaro.

Mais de 70% das pessoas que retuitaram mensagens do guru do bolsonarismo com ataques aos militares são desses mesmos 5% mais à direita.

Mais ataques

Olavo tem afirmado que os militares não defendem suficientemente uma agenda. Apesar das tentativas de apaziguar os ânimos, o polemista não deu trégua. Em vídeo publicado na quarta (8), no Facebook, voltou a fazer ataques a Santos Cruz. Ele disse que o general deveria ser investigado por relatos feitos pela ex-diretora da Apex Letícia Catelani. “Tem que haver uma investigação disso. Vamos investigar o Santos Cruz, vamos investigar Olavo de Carvalho e vamos botar tudo isso a limpo. E alguém vai parar na cadeia. E não sou eu” afirmou.

O escritor publicou o vídeo para falar de seu embate com os militares e para explicar a origem de seu dinheiro que, segundo ele, teria sido questionada por integrantes das Forças Armadas.

Carvalho tentou traçar uma ordem cronológica dos seus embates com Santos Cruz, que começaram em março, e diz que resolveu aumentar o tom das críticas depois de receber informação de que Santos Cruz teria pressionado a agora ex-diretora da Apex Letícia Catelani a assinar convênios. Os acordos seriam para levar produtores cinematográficos a Cannes e, segundo ele, promover obras comunistas, o que ela teria se recusado a fazer.

Para Olavo, o ministro agiu “em favor de organizações comunistas inimigas do governo”.O escritor diz ainda que Santos Cruz passou a mobilizar setores da sociedade contra ele.

“Agora o Seu Santos Cruz, não sei ele está fazendo essa pressão em cima da Apex por dinheiro ou vantagem política. Não estou dizendo que ele está levando um tostão ou acusando de nada disso, mas que ele está fazendo uma coisa ilegal e contra o governo, está. E quando foi descoberto ele decidiu criar essa encenação de uma conspiração internacional para desviar a atenção das autoridades”, afirma Olavo.

O guru ideológico de ala do bolsonarismo diz também que Santos Cruz usou o ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas para criticá-lo em mensagem publicada no tuíte no último dia 6, quando ele disse que Olavo é um “Trotsky de direita.

Em resposta, o escritor escreveu que os militares estavam se escondendo atrás de um “homem preso a uma cadeira de rodas” em vez de eles próprios se defenderem e foi alvo de críticas por ter insultado o general. “Eu apelo aqui: General Villas Boas, o senhor recebeu alguma resposta minha, nunca recebeu. E o senhor acha que dizer que o senhor é um homem doente preso a uma cadeira de rodas é ofensivo ou é descrever exatamente a sua situação?”

Estratégia

Os últimos ataques dw Olavo de Carvalho aos generais que fazem parte do governo Bolsonaro e as respostas a ele, principalmente as do general Villas Bôas, são ruins para a agenda nacional, mas úteis à agenda do presidente.

Um governo que opera em modo de destruição, inclusive autodestruição, não teria o risco de dar certo se o critério de avaliação fosse a execução de um projeto de país. Mas do ponto de vista de um projeto de poder, não.

A família Bolsonaro subverteu a ideia de dividir para conquistar, aplicando-a não apenas aos inimigos, mas também aos próprios aliados. Evita, dessa forma, que surja qualquer pessoa capaz de lhe tomar o poder – o que inclui uma boa dose de paranoia, claro. De Moro a Mourão, quem tenta voar sem autorização é abatido por fogo amigo.

Os tuítes que acusam o vice de traidor podem partir de Carlos Bolsonaro e Olavo de Carvalho. Mas não são uma reação destemperada do responsável pelas redes sociais da Presidência da República e do guru intelectual (sic) do governo e sim algo que vai ao encontro da opinião do patriarca, insatisfeito com o protagonismo que o general vem assumindo e à possibilidade dos militares serem vistos como alternativas a ele. Para além de implantar uma agenda reacionária, há um projeto, que é a própria manutenção desse grupo familiar no poder.

O que Bolsonaro não pode falar, falam seus filhos. Se eles não podem, manifesta-se sua rede de apoio ideológica dentro do governo. Quando isso não é desejável, declarações de Olavo de Carvalho preenchem o vazio. O polemista é útil pois atua como um grilo falante do governo e um porta-voz do lado B. Será chamado de referência e exemplo por eles enquanto servir ao seu propósito.

Esse núcleo familiar tem que, a todo o tempo, garantir que ninguém com possibilidade real de poder tenha chão sólido. Toda opção, mesmo que fantasiosa, é sistematicamente sufocada por eles. Nesse sentido, Mourão continua sendo o principal inimigo, apesar das hipocrisias dos afagos públicos.

Não há, nesse sentido, institucionalidade possível. Há um ataque sistemático ao Congresso Nacional, ao Supremo Tribunal Federal e ao próprio Poder Executivo, na forma da vice-presidência da República e do poder de ministros de Estado. Natural que, tendo Bolsonaro tido sucesso na caminhada à Presidência com a ideia de guerra a tudo e a todos, queira mantê-la durante seu mandato.

A declaração que mais mostra essa concepção de poder é a do deputado federal Eduardo Bolsonaro, em uma palestra, no ano passado, de que bastaria um cabo e um soldado para fechar o STF. Para eles, poder não é apenas ter influência, hegemonia cultural ou estar bem posicionado em uma teia de relações políticas, mas é demonstrar força.

É difícil prever até onde vai o arranca-rabo entre olavistas e militares ou, em português claro, até quando Bolsonaro consegue ser o árbitro desse circo. Enquanto isso, ele se mostra como a pessoa capaz de colocar ordem no barraco.

Parte da população aturdida com o processo de impeachment e a crise econômica, mas também com as notícias de perdões bilionários aos mais ricos e a comercialização de votos de deputados federais para salvar Michel Temer, deixou de acreditar na coletividade e buscou construir sua vida tirando o Estado da equação.

Essa população cozinhou sua insatisfação em desalento, impotência, desgosto e cinismo. Isso não estoura em manifestações com milhões nas ruas, mas corrói a crença nas regras e instituições que nos mantém como país. Nos últimos anos, muitos deixaram de confiar na política como arena para a solução dos problemas cotidianos, o que é equivalente a abandonar o diálogo visando à construção coletiva. Caídas em descrença, instituições vão levar muito tempo para se reerguerem – e isso, se conseguirem.

Tudo isso abriu espaço para figuras que se vendem como capazes de botar ordem no barraco – apesar de estar longe de conseguirem cumprir a promessa. O interessante é que, neste caso, seu governo e amasiados criam as próprias polêmicas que, depois, vão consertar. Eles são situação e oposição, alfa e ômega. E para eles, isso é bom, pois controlam o processo.

Acostumada a sobreviver do conflito e não no diálogo, Bolsonaro e filhos tentam mostrar a seus fãs que o mundo é caótico e só uma liderança populista, carismática e conservadora garantirá a travessia em meio ao tumulto. O problema é que o custo humano e material desse processo tende a ser impagável no longo prazo.

Na disputa entre a ala militar e a ideológica neste momento, há uma vantagem do grupo mais estridente. A primeira tenta aparar as arestas extremistas do presidente e defender os interesses das Forças Armadas. A segunda, deseja ver o circo pegando fogo, porque, da cinzas, ressurgiria um novo Brasil. E, enquanto isso, as chamas mantem os seguidores piromaníacos alertas para defender o governo diante de sua, até agora, incompetência. Acredita que Bolsonaro teria a maioria da população a seu favor se quiser refundar a República.

É falsa a dicotomia de que há uma parte de estratégia organizada e uma parte de loucura e disfuncionalidade.

A estratégia organizada é a loucura e a loucura é a estratégia organizada.


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