Semana On

Terça-Feira 23.jul.2019

Ano VII - Nº 356

Poder

O que os olavistas querem do Ministério da Educação

Analisamos mais de 2.200 tuítes de 54 simpatizantes de Olavo de Carvalho para entender como buscam influenciar a agenda da educação no governo Bolsonaro

Postado em 10 de Maio de 2019 - Ethel Rudnitzki e Rafael Oliveira – Agência Pública / Infográficos: Bruno Fonseca

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“Escola, no Brasil, tem servido somente para fornecer diariamente alimento e abrigo a crianças de famílias pobres ou miseráveis que, infelizmente, não podem dar a elas um sustento digno. Apenas isto. Melhor é que os próprios pais, grande parte deles analfabetos funcionais, eduquem, com amor, seus próprios filhos, do que deixar estes últimos, compulsoriamente, à mercê de um sistema educacional que já se provou totalmente imbecilizante”, tuitou o youtuber Bernardo P. Küster no dia 8 de abril deste ano, dia da nomeação do novo ministro da Educação, Abraham Weintraub.

A thread – fio de postagens no Twitter – de Küster é apenas uma das muitas publicações de simpatizantes das ideias de Olavo de Carvalho com pitacos sobre a condução da educação no Brasil. O Ministério da Educação (MEC), um dos mais cobiçados pelo grupo, é comandado por Weintraub, aluno de Olavo de Carvalho. Seu antecessor, Ricardo Vélez Rodríguez, foi indicado pelo escritor. Além dos dois ministros, pelo menos nove olavistas ocupam ou ocuparam cargos na pasta.

Ao lado de assessores do ministério, membros de sites pró-governo e influenciadores digitais simpáticos a Olavo de Carvalho se engajaram nas pautas de educação no Twitter. Além de defender a nomeação de Vélez ao cargo – e depois pedir sua cabeça –, o grupo influenciou na exoneração de nomes ligados ao Exército, defendeu a retirada de Paulo Freire como patrono da educação e articulou a “Lava Jato da Educação” – iniciativa que pretende “investigar medidas adotadas em gestões anteriores”, mas que ainda não apresentou resultados.

“O Ministro Vélez acabou se voltando contra o grupo que trabalhou nas redes sociais pela sua ida ao ministério, que intercedeu por ele junto ao governo, que o defendeu na Internet, que organizou a Lava Jato da Educação e tem o maior interesse na sua execução, que são os Olavetes”, publicou Pedro Medeiros em 11 de março.

Agindo de maneira coordenada, os olavistas têm entre suas bandeiras o combate ao que chamam de “marxismo cultural”, a mudança na política de alfabetização nacional, a defesa do ensino domiciliar e até o fim do ministério.

A Pública monitorou todas as postagens que mencionavam o MEC ou educação de 54 perfis que se declaram alunos de Olavo de Carvalho ou que demonstraram recorrente apoio às opiniões do escritor.

Foram 986 tuítes publicados nos últimos seis meses – da eleição de Bolsonaro, em 28 de outubro de 2018, até 30 de abril deste ano – e, a partir deles, a Pública mapeou quais são as maiores demandas do grupo sobre o tema.

Também foram quantificadas as postagens que mencionavam Olavo de Carvalho para estabelecer a relação do professor com seus alunos e admiradores. Os 54 perfis analisados publicaram 1.298 tuítes mencionando o autoproclamado filósofo no período.

Cerca de 40% das contas monitoradas fazem parte de sites alternativos de apoio ao governo Bolsonaro, como os portais Terça Livre, Senso Incomum, Conexão Política, Reaçonaria, Renova Mídia e Brasil Paralelo. Outros são representantes de movimentos civis, como os fundadores do Movimento Brasil Conservador (MBC), Anderson Sandes, Henrique Olliveira, Maurício Costa e Rodrigo Moller; Bene Barbosa, do Movimento Viva Brasil; e Dom Lancellotti, do Gays Com Bolsonaro. Outros 21 perfis são apenas influenciadores no Twitter. Somados – desconsiderando seguidores em comum –, esses perfis são seguidos por 4,5 milhões de contas.

Olavistas no Twitter

As contas que mais mencionaram temáticas relacionadas ao MEC no período foram também aquelas que mais citaram o autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho. Foram ao menos 986 tuítes sobre o MEC e 1.298 sobre Olavo.

O perfil recordista de menções em ambos os casos foi o “Pepe Templário” – nome que faz referência ao personagem “Pepe, the frog”, recorrentemente utilizado pela extrema direita (leia também: rede de ultradireita chega ao Brasil com acenos a Bolsonaro). Antes conhecida como “Cavaleiro Templário”, em alusão aos soldados das Cruzadas, a conta tem 10,6 mil seguidores e citou Olavo de Carvalho em 255 tuítes – 19% do total, ou uma em cada cinco postagens. Além disso, somou 154 tuítes sobre o MEC, 15% de todos os posts analisados sobre o assunto. Os primeiros tuítes, em defesa do ex-ministro Ricardo Vélez, datam de 25 de março.

Em 7 de abril, um dia antes da exoneração de Vélez, “Pepe Templário” se antecipou à demissão do colombiano e foi o primeiro a defender Abraham Weintraub para o MEC, afirmando que ele seria “um ministro MOEDOR DE COMUNISTA“. A nomeação, que não era esperada pela imprensa – eram ventilados nomes como o do ex-secretário adjunto da Secretaria Executiva do MEC Eduardo Melo e do ex-ministro Mendonça Filho – foi anunciada no dia seguinte.

O segundo perfil com mais publicações – tanto sobre o MEC quanto sobre o escritor – é o de Pedro Medeiros, que tem 10,4 mil seguidores na rede social e é aluno do Curso On-line de Filosofia ministrado por Olavo. Em pouco mais de 3 mil tuítes, Medeiros mencionou assuntos relacionados ao Ministério da Educação 136 vezes e citou Olavo de Carvalho em 120 oportunidades (9,2% do total). Ele admite que seu perfil é dedicado a dar pitacos no MEC. “Nos últimos dias, fiz cerca de 100 posts sobre o MEC. […] No total, deve ter uns 500”, publicou em 6 de abril. Em suas publicações Medeiros defendia Eduardo Melo para o cargo de ministro.

Outros três perfis ficaram entre os dez que mais mencionaram tanto Olavo quanto assuntos relacionados ao MEC. Dois deles, Allan dos Santos, editor-chefe do portal Terça Livre, e o perfil do portal Renova Mídia, são de sites pró-governo. O perfil de Allan foi o terceiro que mais mencionou o professor e o quarto que mais citou assuntos relacionados ao MEC no período monitorado. Já o Renova Mídia ficou em décimo lugar e terceiro lugar, respectivamente. O youtuber Bernardo P. Küster foi o outro perfil que ficou no top 10 em ambas as menções analisadas. Mencionou Olavo 40 vezes e o MEC, 34.

Além do interesse comum pela pauta da educação, os olavistas também se seguem mutuamente e interagem entre si, com retuítes e menções. O mais seguido pelo grupo é Bene Barbosa, líder armamentista do movimento “Viva Brasil” e autor do livro Mentiram para mim sobre o desarmamento. Ele é seguido por 50 dos 54 perfis monitorados (92%). Oitenta por cento dos perfis seguem Allan dos Santos, Filipe Martins – assessor especial da Presidência da República e aluno de Olavo –, Flávio Morgenstern – autor do podcast Guten Morgen – e o perfil oficial de Olavo de Carvalho, que estreou em março.

Os quatro perfis dos olavistas mais seguidos pelos perfis monitorados receberam centenas de menções das contas analisadas. Desde a eleição de Bolsonaro, Allan dos Santos foi mencionado pelo menos 593 vezes e Flavio Morgenstern outras 227 vezes pelos 54 monitorados. As menções a Bene Barbosa foram ao menos 292 e a Filipe Martins, 260.

Os dois perfis mais ativos, Pepe Templário e Pedro Medeiros, se seguem mutuamente e costumam se retuitar. Ambos também são seguidos por olavistas mais populares, como Bene Barbosa e Dom Lancellotti, do movimento Gays com Bolsonaro.

“Há algum tipo de coordenação”, explica Márcio Moretto, pesquisador do Monitor do Debate Público nas Redes Sociais, do Gpopai, da USP. “Mas não é possível distinguir se é uma coordenação de um grupo que se organizou para fazer uma hashtag ou uma coordenação orgânica, por assim dizer, de um grupo de usuários que se conheceu na rede e tem os mesmo interesses daqueles sobre o que estão postando.”

Disputas internas são impulsionadas via redes sociais

Inicialmente festejado e depois criticado, o ex-ministro da Educação Ricardo Vélez foi mencionado 386 vezes pelos perfis monitorados. Pouco depois da eleição de Bolsonaro, em 1º de novembro de 2018, Bernardo P. Küster tuitou “o único nome que indico (e confio) para ministro da Educação é o prof. Ricardo Vélez Rodríguez”. Logo após a nomeação, em 22 de novembro, a escolha de Vélez foi comemorada pelo editor do portal Terça Livre, Allan dos Santos. “Meu senhor, que alívio ver a nomeação do Dr. Vélez para MEC […]”, tuitou Allan dos Santos.

Menos de cinco meses depois, o então ministro já era alvo de ataques nas redes.

Se Vélez decepcionou os olavistas, Abraham Weintraub está cumprindo as expectativas do grupo. Apesar de não ter readmitido os exonerados, como foi inicialmente ventilado pela imprensa, o novo ministro exonerou em 18 de abril o tenente-brigadeiro Ricardo Machado Vieira, então secretário executivo do MEC. Vieira travou batalha sobre a Política Nacional de Alfabetização com o olavista Carlos Nadalim.

Até a sua ação mais polêmica, o corte de 30% no orçamento das universidades federais, foi elogiado por Bernardo P. Küster em vídeo publicado em 3 de maio no seu canal de YouTube. Para o tuiteiro, a medida tem como objetivo “priorizar investimentos no ensino básico”. Na contramão da justificativa de Küster, o governo congelou R$ 2,4 bilhões da educação básica.

Olavistas comandam sites pró-governo

Entre os perfis de apoiadores de Olavo analisados pela Pública, 40% estão por trás de canais alternativos aliados ao governo (22 dos 54), como os portais Terça Livre, Senso Incomum, Conexão Política, Reaçonaria, Renova Mídia e Brasil Paralelo. Os sites repercutem os ideais dos grupos sobre educação em textos hipereditorializados e análises tendenciosas. Em comemoração à nomeação de Weintraub, o portal Conexão Política publicou uma análise intitulada “A Folha não gostou do novo ministro da Educação… que alívio!”. O Reaçonaria é ainda mais explícito ao falar do MEC, publicando tuítes que alimentam as polêmicas.

“Lembram da guerra de versões no MEC? Era um papo de ala dos técnicos vs a ala dos olavistas. Técnicos? Técnicos de que? Formados em que? Especialistas em que? É cada lambeção de coturno de vagabundo que eu vou te contar…”, publicou o portal em 22 de abril.

Membros desses veículos foram credenciados para a cobertura da posse presidencial em 1o de janeiro sob a categoria de “mídia alternativa”, como mostra documento fornecido pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) via Lei de Acesso à Informação.

Enquanto os outros membros da imprensa ficavam confinados em espaços restritos, o jornalista do Correio Braziliense Vicente Nunes denunciou que os credenciados como “mídia alternativa” receberam acesso liberado às diferentes áreas do evento. Outros jornalistas informaram sobre condições degradantes na cobertura, como acesso restrito a água e banheiro. “Um dia de cão: confinados no Congresso por quase seis horas, jornalistas têm até maçãs confiscadas sob suspeita de poder jogá-las na cabeça de Bolsonaro”, descreveu Mônica Bergamo. As denúncias foram ridicularizadas por Allan dos Santos e colegas em vídeo no qual eles afirmam que a imprensa estaria mentindo e mostram que tinham “até café” disponível.

Estavam cadastrados como “mídia alternativa” e fazem parte do grupo de olavistas Allan dos Santos e Italo Lorenzon, do portal Terça Livre; os colaboradores do Senso Incomum, Bruna Luiza Becker, nomeada dias depois ao cargo de assessora no MEC e exonerada em 16 de abril; Filipe Garcia Martins, atualmente assessor especial da Presidência da República; Flávio Azambuja Martins, conhecido como Flávio Morgenstern, âncora do Guten Morgen; Marcos Paulo da Rocha Azevedo, editor-chefe do portal Conexão Política; Osmar Bernardes Junior, então do portal Reaçonaria e um dos olavistas exonerados do MEC; e os influenciadores digitais Paulo Roberto de Almeida Prado Junior (@PauloAP) e Thiago Cortês Silva dos Santos (@SouDescortes). Um representante do portal Renova Mídia disse que também estava entre os credenciados para a posse presidencial, mas não pode comparecer.


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