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Segunda-Feira 20.mai.2019

Ano VII - Nº 351

Camara maio

Brasil

Resistência indígena: o papel das universidades

Daniel Manduruku, professor e escritor indígena, vê na academia importante aliança contra ofensiva reacionária. Ele lembra: apesar de suas contradições, Funai é essencial para comunidades que lutam por seus territórios, tradições e cultura

Postado em 09 de Maio de 2019 - Luiz Sugimoto - Jornal da Unicamp

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O pesado ataque do governo Bolsonaro aos povos indígenas logo no dia da posse e em sua primeira medida provisória, praticamente desmantelando a Funai, não surpreendeu o professor e escritor indígena Daniel Munduruku, que escreveu em seu blog um artigo com o trecho acima. “Eu já esperava. Porque aquilo que parecia ser apenas a fala de um bufão em campanha, acabou se revelando um propósito que já estava instituído no projeto de poder desse grupo de extrema direita, que há muito quer se apossar dos territórios indígenas”, disse, por telefone. “Na verdade, a Funai sempre foi um grande elefante branco na mão do Estado. E mesmo os governos de centro-esquerda ou de esquerda pouco fizeram para dar a ela materialidade e funcionalidade, tirando-a do espectro que trazia de ser uma instituição de militares – um pouco por covardia da esquerda, que não quis mexer no vespeiro.”

Daniel Munduruku é graduado em filosofia, licenciado em história e psicologia, doutor em educação pela USP e pós-doutor em linguística pela UFSCar. Escreveu 52 livros para crianças, jovens e educadores, sendo premiado diversas vezes no Brasil e no exterior; em 2017, com o Prêmio Jabuti na categoria juvenil. Atuou como professor convidado na Unicamp no primeiro semestre de 2018, ministrando a disciplina “Temática indígena na escola”, sob a responsabilidade da professora Alik Wunder, na Faculdade de Educação; também atuou em disciplina de pós-graduação focando a presença indígena no pensamento acadêmico e na literatura brasileira; e colaborou, ainda, nas discussões do GT da Unicamp para a realização do Vestibular Indígena.

Nem mesmo o que parecia impensável, a transferência da responsabilidade pela identificação e demarcação de terras indígenas justamente para o Ministério da Agricultura – submetendo-se a Funai ao Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos – surpreendeu o escritor. “O que talvez não se imaginasse era que isso fosse acontecer logo no primeiro dia do ano. Mas parece que eles precisam fazer tudo muito rapidamente. Se não forem rápidos, correm o risco de não conseguirem destruir tudo o que foi construído do ponto de vista das conquistas sociais. Sobre a minha expectativa de futuro, ela é de que esse governo não vai durar muito tempo. Ainda não disse a que veio, a não ser de nesse momento estar alimentando aqueles que o financiaram: a própria direita.”

No artigo publicado em seu blog, Munduruku pondera que, “quer gostemos ou não”, a Funai é a única instituição que compreende os complexos sistemas epistemológicos que os povos indígenas detêm, tecendo elogios ao seu corpo técnico. “Ouve-se muitas coisas negativas sobre a Funai, como a de ser corrupta, o que é sabido. Mas não se fala que é um braço do Estado que tem uma atuação efetiva dentro das aldeias, através de pessoas extremamente comprometidas com a salvaguarda dos direitos e dos saberes indígenas. No meio desse mundaréu de funcionários sempre existiram os corruptos ou corrompidos, inclusive indígenas funcionários. Quem critica pode ter razão, mas não conhece a temática indígena, quem conhece são os técnicos que trabalham diretamente com essas populações, no dia a dia, inclusive sofrendo ameaças.”

Ainda no artigo “Os últimos socialistas – Ou por que perseguir os povos indígenas?”, o escritor responde à ameaça deste governo de “acabar com o marxismo cultural”, mostrando em breve histórico que no Brasil nunca houve socialismo. “Os únicos socialistas são as populações indígenas, que vivem uma vida longe do sistema capitalista, da divisão de classes. São grupos humanos lutando avidamente por seu território – não por uma propriedade individual, privada – e por tradições e culturas que são sua memória ancestral; que procuram manter seu bem-viver, um estilo de vida baseado no tripé da harmonia com a natureza, harmonia entre as pessoas e harmonia espiritual. Quando se alija os povos indígenas disso, se alija toda uma estrutura social que ainda alimentam. O desconhecimento das pessoas cria a incompatibilidade de compreensão do pensamento indígena.”

Sobre o peso do preconceito de raça nas ações do novo governo contra os povos indígenas, Daniel Munduruku observa que costuma fazer uma separação entre preconceito e estupidez. “O preconceito vem da educação que se teve. Os brasileiros foram educados a tratar os indígenas como seres diferentes, voltados às coisas da floresta; quando começam a aprender sobre esses povos, que não é bem assim, se espantam com a própria ignorância – o preconceito é fruto um pouco dessa ignorância. Já quando pensamos no racismo, pensamos na estupidez de gente que sabe o que é o indígena, o seu modo de vida e para quê ele está naquele lugar. Falamos de pessoas conscientes, mas de uma consciência que leva para a truculência, no sentido racista, como vemos no atual governo. O preconceituoso tem cura, mas o racista, não.”

Segundo o escritor, o movimento indígena, enquanto movimento político, não está suficientemente organizado para resistir, por si, às pressões que já está sofrendo e às que estão por vir. “O movimento não tem poder econômico algum, não consegue se organizar financeiramente para isso. É claro que as lideranças da APIB [Articulação dos Povos Indígenas do Brasil], que representa o movimento nacionalmente, estão bem preparadas e qualificadas para fazer essa resistência, mas precisarão contar muito com a sociedade civil organizada, caso contrário, os indígenas vão ser perseguidos, maltratados, massacrados e mesmo assassinados no meio desse caminho.”

Munduruku vê na universidade, hoje, um dos grandes aliados das populações indígenas, lembrando que nos anos 70, embora houvesse antropólogos, elas contavam principalmente com o movimento negro e o movimento dos advogados. “O movimento indígena daquela época era nascente e não se acreditava que os povos poderiam ter voz. Por isso, os militares deixavam a coisa fluir e os indígenas falavam livremente. Mas foi esse movimento que aglutinou as diversas forças da sociedade civil. Quando os militares perceberam, os indígenas já estavam inseridos nas grandes manifestações.”

O escritor considera que agora, no século 21, a estratégia de vir para as universidades foi uma das mais inteligentes que os indígenas tomaram. “No caso, nem é do movimento indígena, pois não se trata de uma ação integrada e sim de uma opção dos jovens estudantes. Acabou-se criando uma inteligência indígena, uma espécie de resistência também intelectual, sendo que a universidade capturou bem esse movimento e tem aberto suas portas. Do meu ponto de vista, talvez a grande resistência a tudo isso aconteça nas próprias universidades que, se conseguirem tomar a presença indígena como arma para a resistência, encontrará aliados extremamente conscientes da própria cultura e dispostos a lutar para permanecer nessas instituições.”

Um escritor, basicamente

Perguntado a respeito da sua própria atuação no movimento indígena, Daniel Munduruku responde que é “basicamente” um escritor, procurando criar possibilidades de diálogo com a sociedade brasileira. “Isso tenho feito na literatura, como professor quando convidado (caso da Unicamp), em palestras em universidades e escolas. Tento costurar as duas diferentes culturas e levar o saber indígena para que as pessoas criem uma consciência nova, saindo da ideia de que o Brasil é um país único, sem preconceito, sem racismo, onde todo mundo é igual. Tento abrir seus olhos para uma realidade que às vezes não querem enxergar, ou porque não tiveram formação para isso, ou porque é mais cômodo não ver os problemas e ficar limitado ao universo de consumo da maioria.”

Daniel Munduruku, que também faz visitas regulares e promove ações em aldeias (dos Munduruku, à qual pertence, e de outros parentes), define-se como um “pensador orgânico”, olhando a realidade e formatando-a para que as pessoas compreendam o que se passa na vida real da sociedade. E sobre sua opção pela literatura infantil e juvenil, justifica: “Precisamos educar na base, oferecendo às crianças a possibilidade de conhecer uma realidade outra, que não seja só a da escola – quadrada e linear. É uma necessidade que sinto de me comunicar com uma parcela da sociedade capaz de compreender o que os indígenas são de fato, sem fazer juízo, sem preconceito.”


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