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Terça-Feira 23.jul.2019

Ano VII - Nº 356

Brasil

Doação de órgãos

Falta de acesso a informação condena brasileiros à desesperança nas filas de espera

Postado em 09 de Maio de 2019 - Giovanna Galvani – Carta Capital

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Mais de 30 mil brasileiros esperam por uma única ligação hoje. É impossível dizer quando o chamado vai acontecer, especialmente quando se depende do “sim” ou do “não” de outros. Esses são desconhecidos, estão espalhados pelos estados e, em boa parte, desinformados sobre um pequeno ato de fala que pode gerar consequências para uma outra vida inteira.

Os dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) mostram que ainda é grande a resistência para abraçar a causa da doação de órgãos no País. A taxa de não autorização das famílias, segundo o último relatório divulgado, bateu nos 43%. No Brasil, para casos em que há falecimento, apenas pacientes com mortes encefálicas são possíveis doadores, e quem dá a resposta final são as famílias – um direito defendido pela Constituição.

O sistema difere de países como a Espanha, que adota um sistema de doação presumida – ou seja, qualquer pessoa após a morte já é doadora, a não ser que a família diga o contrário – e possui as maiores taxas de doadores por milhão de habitantes no mundo. Na Argentina, o caso de uma jovem de 12 anos que lutou pela causa, mas mesmo assim morreu na fila de espera por um coração, mobilizou o congresso a mudar a legislação.

No Brasil, porém, ainda há receio em seguir pelo mesmo caminho: a falta de esclarecimento, no passado, gerou medo de que se criasse um mercado de órgãos oficializado pelo governo. A tentativa foi um “tiro pela culatra”, segundo Paulo Pêgo, médico chefe do departamento de cardiopneumologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e presidente da ABTO. “Emocionalmente, não estamos preparados. Precisamos caminhar mais no amadurecimento e educação como um todo”, analisa.

“Doar só pode gerar vida”

Pelo telefone, uma voz clara, em tom alto e que passa rapidamente pelas palavras. “Antes, não tinha nem fôlego para falar assim, sem parar”, diz a economista Patrícia Fonseca. O marco temporal que mudou a vida dela foi o recebimento do novo coração, bem no dia em que completou 30 anos, em 2015. Hoje, a paulistana virou atleta de triatlo e atua em prol da doação de órgãos – ela é a criadora do perfil “Coração de Atleta Oficial” no Instagram. Para ela, esse é um ato que não se relaciona à morte. “O tema tem a ver com renascimento, superação e saúde. Doar só pode gerar vida”, diz.

Sem ser assunto no cotidiano, a doação usualmente ganha destaque com as consequências da falta de debate. A história de Tatiane Penha, que faleceu aos 33 anos devido a um coração que nunca chegou, gerou mais de 100 mil compartilhamentos e milhares de comentários emocionados. “Ao menos, eu vi que ela deixou uma mensagem de esperança, empatia e conscientização para outras Tatis serem salvas. Mas o que nós vamos fazer por elas? Vamos esperar outros textos?”, disse Fonseca, autora da publicação.

Para Paulo Pêgo, a temática também evoca a percepção da população sobre o seu papel na sociedade – o princípio da cidadania. “Existem mais chances de você precisar de um órgão do que de ser doador. É a noção do bem comum e do que é bom para a comunidade em que eu vivo, um conceito não tão arraigado aqui”, analisa.

Foi esse sentimento que motivou a doméstica Emanuele Almeida a manter-se esperançosa quando a filha, aos sete anos, precisou de um transplante de córnea. Anos antes, foi ela quem atendeu à ligação do banco de doações no meio do luto em que se encontrava, motivado pela morte do irmão. Até aquele momento, nunca tinha ouvido falar do assunto. “Nem tinha passado pela minha cabeça. Você está em choque e, de repente, vem um pedido desse”, disse. Mesmo assim, escolheu dizer sim à doação de córneas – feito que é lembrado pelo hospital até hoje, com homenagens prestadas à família.

Com a filha, Emanuele esperou cerca de 2 meses pela resposta, período que definiu como “angustiante”. Religiosa, apegou-se à fé de que ter aceitado doar no passado traria a cura, que enfim chegou. Hoje, afirma que a família inteira é doadora, mas que ainda percebe a falta de informação como um problema.

Na visão de Maria Julia Kovács, professora livre docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, a doação pode levar conforto à família do falecido. “Tudo tem o seu tempo. A doação pode ser uma forma de elaboração do luto pela vida a outra pessoa.”, comenta. Para ela, que estuda sobre a morte no processo de desenvolvimento humano, a abordagem das equipes de saúde deve oferecer escuta e esclarecimento. Além disso, defende que a capacitação dos profissionais deve ocorrer na graduação e em práticas hospitalares.

“Onde não existe informação, não existe liberdade de escolha”

Quanto mais se investe em políticas públicas pelo acolhimento e abordagens às famílias, maiores são as taxas de doação. Os índices de 36 doadores por milhão de pessoas da região Sul é o maior do Brasil e o mais próximo aos números da Espanha. Segundo Paulo Pêgo, os estados do Paraná e Santa Catarina olharam para a qualificação dos assistentes sociais e das redes estaduais, e agora colhem esses resultados.

A reviravolta na vida de quem já precisou ou autorizou a doação de órgãos é grande, mas recompensadora. “Vale muito a pena. O que a gente perdeu já foi. Ficam as saudades e as lembranças. Ainda podemos ajudar muitas pessoas”, afirma Emanuele Almeida, cuja filha continua acompanhando a evolução da nova vista com profissionais.

Para Patrícia Fonseca, é não somente necessário, mas poderoso e democrático falar sobre o assunto e colocá-lo cada vez mais em pauta. Para a atleta, “onde não existe informação, não existe liberdade de escolha”.


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