Semana On

Terça-Feira 17.set.2019

Ano VIII - Nº 363

Coluna

Isso não é uma ficção

Air BNB, capitalismo virtual e novas materialidades do viver: novos fronts da luta societária

Postado em 08 de Maio de 2019 - Emerson Merhy

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Muitos de nós já está acostumado com a experiência que se constroem nas nossas cidades, de terras que já estavam abandonadas e que eram pastos para gados, nas fronteiras das zonas urbanas, de uma hora para outra adquirirem um valorização no mercado de imóveis, quase como um passe de mágica. Essas terras, deixam de ser pastos e passam a ser vistas como terrenos, onde um hectare do antigo pasto passa a ser 10 terrenos de mil metros quadrados, sendo que cada um desses terrenos adquirem um preço que somados extrapolam de muito o valor do antigo pasto de um hectare. Estamos acostumados, também, a criação do objeto-desejo: terreno bucólico, onde antes havia boi e vacas comendo e defecando, de tal maneira que muitos que podem pagar por eles vêm ali a possibilidade da construção das casas dos seus sonhos. E, diria, que essa transformação, de fato, não foi um passe de mágica, mas, sim, uma verdadeira magia. Verdadeira magia, pois não é um truque como a mágica exige, é uma transformação efetiva. Alguns metros quadrados valendo, da noite para o dia, muito mais do que hectares dos antigos pastos.

E, quanto mais se imagina o valor-capital-imobiliário que isso pode proporcionar, ao permitir a realização de um desejo muito desejado por alguns dos que vivem nesses locais, mais pode-se ampliar o próprio preço desse novo tipo de bem material, que antes não existia.

Essa magia é típica das sociedades capitalistas, por serem sociedades que se constroem materialmente nas cabeças e desejos das pessoas, e que opera magistralmente a criação do valor-capital de algo, que antes não tinha nem materialidade e existência.

Criar e inventar objetos do desejo é sua maestria, pois na sua sequência cria valor-capital sobre esses objetos materiais e imateriais, porém todos dentro de uma materialidade efetiva por existirem para aqueles que os desejam.

O capital, aliás, sempre foi isso mesmo, algo relacional e imaterial. Dinheiro e equivalentes são formas de expressá-lo, mas não são sua essência. Por isso, dizer que um país pode ter uma dívida maior que o dobro do que produz de riqueza é um regime de verdade, que faz sentido, mesmo que essa riqueza não consiga ser equivalente material da dívida, pois isto é tudo virtual, e sempre foi. Um PIB existe e não existe, pois a expectativa de riqueza é que conta, sob a forma de um valor que sempre se apresenta em primeiro lugar como uma virtualidade.

Mas, acontece que estamos acostumados com a experiência das sociedades capitalistas industrializadas, que sempre encontravam um equivalente material palpável para representar essa produção do valor-capital, de alguns bens. E naquela modalidade de construção do valor-capital, o industrial, imaginamos que o que tem valor são as coisas que são materialmente produzidas nos processos produtivos e, como tal, palpáveis. Trocamos a bola. Colocamos a riqueza nas coisas e não nas relações que as sustentam como coisas-valor-capital. Por isso, na nossa experiência fetiche das sociedades industriais, expressamos o valor-capital em casas, carros, prédios, máquinas, moedas metálicas, ouro, papéis-moedas e uma infinidade de outras possibilidades.

E nos acostumamos e essa forma de expressão, o que nos leva a imaginar que o capital é de fato o bem material, o dinheiro real, o metal precioso efetivo.

Mas, não é.

O capital, desde sempre, foi e é um valor abstrato, que só existe nas nossas relações e subjetividades desejantes, criadas através de certos mecanismos micropolíticos subjetivantes e de relações de poder, historicamente contextualizadas.

Quando algo torna-se imperativo para vivermos e o desejamos muito, esse algo, nas sociedades capitalistas, tornam-se potencialmente mercadorias, independente de sua natureza material ou imaterial. Pois, capital é uma invasão e produção de corpos que em si são o próprio valor-capital, e que podem ser expressos como portadores desse efeito abstrato equivalente, entre todos que aí se relacionam.

Mas, afinal, para que toda essa ginástica reflexiva que esse texto está realizando? Onde quer chegar? E, afinal, que o Air BNB tem a ver com isso?

Tudo e mais um pouco, pois mostra que o capitalismo está entrando em uma nova fase, a do capitalismo explicitamente virtual, sem máscaras. Ele mesmo na produção do valor e sua realização dá conta de que a solidez das coisas é pura ficção, mas existe.

Além disso, essa novidade no mundo das vidas vêm definindo novas formas de viver, que estão modificando brutalmente nossas subjetividades e todos os elementos que antes eram sólidos e agora se desmancham no ar.

O neoliberalismo é a atual fase de passagem do capitalismo para um novo mundo, que não é ficção, mas parece. E, com isso tudo, o que tínhamos como certezas se desmontam.

A uberização da vida e a tuitagem da política não são excrecências, vieram para gerarem novas possibilidades do que poderá ser o futuro da humanidade, como virtualização da nova materialidade do viver.

E a forma capitalística do viver está dando um banho nas outras possibilidades, pelo menos, por enquanto.

***

Vamos nos aproximar do que o Air BNB faz e tentar dar “materialidade” a isso tudo que falamos, até agora.

Como um passe de magia, uma cama na minha casa, que antes era um bem privado e ponto, poderá se transformar em uma cama-capital, pois a alugarei para alguém que me pagará para dormir nela. Minha casa passa a funcionar como aquela história dos terrenos que vão surgindo como terrenos-capitais, quase do nada.

Eu mesmo vou virando um corpo-capital ao transformar minha casa em casa-capital. Não só empreendo meu corpo, que passa a funcionar intensamente como capitalista, como cada pedaço das minhas coisas poderão entrar no circuito do mercado de novos tipos de bens, valorizados como bens-capital, aparentemente mobilizando por uma máquina virtual, aplicativo Air BNB, novos valores-capital que antes não existiam.

Minha cama, meu quarto, meu apartamento, minha casa, meu carro, minha cozinha. Minha vida.

Essa nova materialização da forma-capital das coisas vai molecularmente invadindo nossos modos de viver e pensar.

Vamos sendo virtualizados como viventes. Novos modos de desejar e de pensar, além de produzir mundos para si, vão nascendo.

Antigas lógicas relacionais vão se dissolvendo. Não cabe mais a ideia de ter emprego fixo, ter de ficar esperando décadas em trabalhos chatos, para se aposentar. Agora, somos todos equivalentes, não mais capital e trabalho.

Agora somos todos corpos-capitais e na virtualidade do viver o futuro, vai se desenhando e se apresentando possibilidades para percebermos que há um deslocamento brutal da própria política. Parece, para mim, que ela está se deslocando para o campo da ética, ou seja, pelos mecanismos pelos quais os diferentes coletivos constituem os valores-mundos de si e dos outros.

Claramente, sem subterfúgio, a disputa ética de mundos para se viver torna-se o centro do embate da política.

Por isso, hoje, vivemos a tensão fortíssima de uma disputa nuclear nesse campo, entre uma ética entendida como moralidade e não como um auto-instituir formas de viver na diversidade humana.

Essa disputa está e estará, daqui para frente, no cerne de todas as novas formas de construção de mundos outros.

Pois, modos de existir colocam em jogo corpos-capitais versus corpos-anti-capitais.

***

Uma disputa ética e estética está cravada no que é, já hoje, o cerne do mundo da política. Moral e ética são constituintes desse lugar de produção do viver. A política passa claramente para o mundo da comunicação e da linguagem e, dentro disso, para a tensa conversa socialmente ampliada da disputa sobre os costumes e os modos de viver, adquirindo centralidade e até mais potência do que o fazer, o pensar e o agir econômico.

Os modos de viver é que inscrevem o campo de produção ou não do valor-capital das relações onde nos inscrevemos como viventes.

Parte da direita sabe bem isso, hoje, por conduz todas as suas energias para reduzir o campo da ética a questões de valores morais, gastando nos processos comunicativos quase sua energia ativista, e tem conseguido, por enquanto, capitanear muito dos processos de mudança substancial da ordem capitalística do viver, no mundo como um todo.

Mas, boba que não é, não abre mão da sua capacidade de usar da violência do estado contra todes que não aceitam se submeter às suas premissas, e que insistem em disputar esse território apontando para novas éticas para a vida. Na diversidade e na noção básica de que todas formas de vidas já vividas valem a pena serem defendidas e preservadas.

Não é à toa que a extrema direita americana luta ferozmente nesse campo, e os conservadores brasileiros também, com o intuito de produzir uma purificação moral nos seus contextos de vida e uma busca de anulação de quem se contrapõe a isso, acusando-o de perigoso e diabólico.

Matar virou seu lema. Inquisição é sua inspiração.


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