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Segunda-Feira 22.jul.2019

Ano VII - Nº 356

Poder

Conduta de filhos nas redes sociais não é problema só para Bolsonaro

Carlucho fala de tudo, só não fala de dona Nadir

Postado em 03 de Maio de 2019 - Folha de SP e Josias de Suza (UOL)

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O vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente, é uma espécie de pitbull nas redes sociais. Seus posts provocam crises constantes no Palácio do Planalto, já ajudaram a derrubar um ministro e atualmente têm como alvo principal o vice-presidente da República, o general Hamilton Mourão.

Não se sabe ao certo quanto dessa metralhadora virtual de Carlos tem ou não o aval do pai, Jair Bolsonaro, mas a verdade é que não é só o presidente da República que precisa se preocupar com o que os filhos andam fazendo na internet. Ensinar desde cedo os limites da conduta virtual tem sido um imperativo dentro de casa e nas escolas. 

Facebook, Instagram e Twitter só permitem inscrição a partir dos 13 anos, por exemplo. Mas, mesmo com essas restrições nas políticas de uso de páginas e aplicativos, especialistas admitem que a vida digital dos pequenos é inevitável.

 “Em algum momento, no decorrer dos próximos três a cinco anos, não vai existir mais o mundo offline”, afirma a psicóloga Andréa Jotta, do Laboratório de Estudos de Psicologia da Informação e Comunicação da PUC de São Paulo. “E preparar essas crianças para isso significa trabalho.”

A base dessa orientação é mostrar que tudo o que é feito na internet deixa rastros, dificilmente é apagado e pode ser compartilhado, reproduzido e lembrado para o resto da vida. Assim, responsabilidade e respeito ao outro são princípios que ganham amplitude com o uso da tecnologia.

"Coisas que antigamente as crianças faziam, como bater boca e mandar um bilhetinho, em uma semana podiam estar esquecidas. Hoje essas atitudes se perpetuam e impactam no desenvolvimento afetivo e cognitivo delas", diz Jotta. 

Não há consenso sobre a melhor idade para as crianças entrarem nas redes. Até os dez anos, o ideal é usar junto com os filhos, participando de jogos ou o ajudando a mandar mensagens. Uma boa ideia é ter um perfil conjunto, e não apenas a senha da página da criança, como fazem alguns pais. 

Programas de controle parental também podem ser úteis para os mais novos, mas não são suficientes. “O seu filho sempre vai dar um jeito de quebrar essa segurança. Então, o diálogo e o acompanhamento constante são primordiais”, afirma Débora Sebriam, coordenadora de tecnologia educacional do Centro Educacional Pioneiro, em São Paulo. 

O início da vida digital deve ser acompanhado de perto, e uma solução é compartilhar um perfil com o filho. A partir da adolescência, quando a privacidade ganha relevo, o melhor é deixá-lo independente. 

E quando são os filhos que têm a senha individual dos pais? “Não é via de mão dupla”, diz a psicóloga e psicanalista Vera Iaconelli.

Com a senha do filho ou o perfil compartilhado, explica, o pai está cumprindo o papel de dar acesso ao mundo dos adultos —e o inverso não ocorre. “A senha do adulto é algo que diz respeito ao adulto.”

Quanto menor é a criança, menor é o tempo que ela deve ficar na internet. A fim de preservar espaço para atividades offline importantes para o desenvolvimento, muitas escolas têm adiado a permissão para o porte de celulares em sala de aula.

Em São Paulo, o colégio Stance Dual, que recebe alunos desde a educação infantil, só libera o uso do aparelho fora da sala de aula e a partir do oitavo ano (jovens na faixa de 13 anos de idade).

Nem sempre foi assim, explica a coordenadora educacional, Ana Claudia Esteves Correia. “Percebemos que os mais novos ainda não dão conta das consequências do mau uso. Colocam uma coisa na internet e não sabem como isso vai impactar, quantas pessoas vão ver. E uma criança de até 13 anos com celular na escola perde muito em convivência interpessoal.”

No ano passado, a escola implementou um projeto de “cybermentores”, em que alunos mais velhos com afinidade em tecnologia ajudam os mais novos em questões de segurança digital e dão apoio em situações como vazamentos e bullying virtual. 

“Enquanto a criança não provar que não vai fazer na internet algo que seja ruim para ela ou para os outros, é melhor não soltar”, orienta Jotta.

E essa maturidade, explica, envolve desde ter cuidado para compartilhar conteúdos recebidos, como fotos íntimas ou notícias falsas, a pensar na própria imagem. “O jovem vai mudar muito, mas aquele post vai ficar ali para sempre”, diz. 

Mágoas e desentendimentos são mais fáceis de serem superados face a face, sem registros que podem ficar permanentes. Mesmo assim, as pessoas insistem em contar tudo e divulgar suas desavenças para amigos virtuais e seguidores. “É uma superexposição da antiga intimidade”, comenta Iaconelli. 

No Centro Educacional Pioneiro, um trabalho iniciado em 2011 ajuda os alunos a desenvolver empatia e a projetar consequências de postagens, com base em situações de constrangimento debatidas em rodas de conversa. “Tentamos promover a autorregulação emocional”, conta a coordenadora pedagógica.

A educadora ressalta que muitos dos problemas detectados na discussão sobre o que fazer nas redes não são exclusividade de crianças e jovens. "Os adultos também enfrentam isso."

TÁ OK?

Senhas compartilhadas, só para os pequenos
O início da vida digital deve ser acompanhado de perto pelos pais, e uma solução é compartilhar um perfil com o filho. Na adolescência, o melhor é deixá-lo independente

Não viva só online
Estimule o tempo fora das redes sociais, com outras atividades de lazer e amigos reais

Pense antes de postar
Publicações deixam rastros e não adianta apagar o post —qualquer deslize pode ser espalhado e lembrado por toda uma vida

Não exponha problemas nas redes
Mágoas e desentendimentos são mais fáceis de serem superados face a face, sem registros que podem ficar permanentes

Respeite a opinião do outro
Em caso de discordância, exponha seus argumentos sem fazer agressões. Demonstre que o respeito continua fora da rede

Peça desculpas em público
Se ofendeu alguém online, também faça aí a sua retratação; não adianta resolver nos bastidores, o que foi publicado é o que fica

Carlucho fala de tudo, só não fala de dona Nadir

Carlos Bolsonaro fala de tudo e de todos nas redes sociais. Que o diga o general Hamilton Mourão. Por um desses mistérios da vida, Carlucho só não fala de dona Nadir Barbosa Goes. É uma pena, pois muitos esperavam que o 'Zero Dois' postasse meia dúzia de palavras na web sobre a passagem da veneranda senhora pela folha salarial do seu gabinete na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

Dona Nadir recebia contracheque mensal de R$ 4.271. No papel era "oficial de gabinete". No mundo real, não dava as caras no gabinete. Sua presença foi abonada por Carlucho. Mas ela diz que nunca trabalhou para ele. Alcançada em casa, mandou um recado para o filho predileto de Jair Bolsonaro: "Fala com o vereador que eu não sei de nada".

Deve-se às repórteres Ana Luíza Albuquerque e Catia Seabra a descoberta de dona Nadir. A dupla noticiou a existência dela. Decorridas mais de 48 horas, Carlucho não havia se manifestado até a manhã deste domingo. Bem verdade que Jorge Luiz Fernandes, chefe de gabinete do vereador, já disse qualquer coisa. Mas suas explicações não fizeram nexo.

Jorge Luiz contou que Nadir, moradora de Campo Grande, na zona Oeste do Rio, integrava um grupo de funcionários que derramava suor longe do gabinete, entregando correspondências e recolhendo reivindicações de eleitores do vereador. Chefiava esse grupo o irmão de Nadir, Edir Barbosa Goes. Compunha o mesmo grupo a mulher de Edir, cunhada de Nadir, Neula de Carvalho Goes.

Nadir e Neula foram demitidas nas pegadas da chegada de Jair Bolsonaro ao Planalto. Edir continua na folha. E Jorge Luiz: "Todos aqui trabalham o dia todo. Nós aqui trabalhamos de segunda à sexta, de 9h até a hora de acabar o expediente do vereador. Todo mundo." A alegação é engraçada e ofensiva.

Nadir tem 70 anos. Edir, 71. Neula, 66. O chefe de gabinete diverte a plateia ao declarar que essa trinca tem vitalidade para bater perna "o dia todo". Jorge Luiz ofende a inteligência alheia ao pedir que as pessoas acreditem que Carlucho, um personagem que se jacta de ter guindado o pai ao Planalto a partir das redes sociais, comunica-se com seus eleitores pela via medieval das cartas.

A família Bolsonaro cultiva dois estranhos hábitos:

1) Por onde passam, Bolsonaro e sua prole penduram no bolso do contribuinte funcionários que recebem verba pública como se fosse dinheiro grátis.

2) Pilhados, não conseguem fornecer ao contribuinte explicações que fiquem em pé.

Não tendo nada a dizer, Carlucho se absteve de demonstrar seu vácuo ético em palavras. Se você esperava mais de um personagem que mantém no bolso do colete um post para cada ocasião, tenha calma. Não desanime. O domingo é longo. O 'Zero Dois' decerto está coçando os dedos para responder à provocação de dona Nadir. "Fala com o vereador que eu não sei de nada". Ninguém fica impune depois de falar nesse tom com Carlos Bolsonaro, dono dos dedos mais rápidos do saloon.


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