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Domingo 15.dez.2019

Ano VIII - Nº 375

Brasil

Há 22 anos, Brasil perdia Paulo Freire

Apesar do renome internacional do pedagogo, Jair Bolsonaro tenta apagar legado do patrono nacional da educação

Postado em 03 de Maio de 2019 - Lu Sudré e Rute Pina - Brasil de Fato

Freire dedicou seus 75 anos de vida à construção de métodos inovadores de educação, com foco na transformação social. Foto: Escola de Gestão Socioeducativa Paulo Freire - RJ Freire dedicou seus 75 anos de vida à construção de métodos inovadores de educação, com foco na transformação social. Foto: Escola de Gestão Socioeducativa Paulo Freire - RJ

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No dia 2 de maio de 1997, o filósofo e educador Paulo Freire falecia vítima de infarto no miocárdio. Foram 75 anos de vida, a maior parte dedicada à criação de métodos inovadores de educação com foco na transformação social. Essa militância tornou a imagem do senhor de barbas brancas e óculos arredondados, assim como sua obra, reconhecida internacionalmente.

Brasileiro mais homenageado da história, o pernambuco autor de quase 40 obras ganhou dezenas de títulos de doutor honoris causa de universidades da Europa e América. Em 1986, recebeu o prêmio da Unesco de Educação para a Paz.  

Seu modelo de educação, utilizado no mundo todo, parte do princípio da humanização do ensino e do reconhecimento da história e da cultura do aluno que, junto com o professor, passa a construir o processo de aprendizagem. Um ensino horizontal, onde todos ensinam e aprendem.

Durante a ditadura civil-militar brasileira, o método de alfabetização do pedagogo foi considerado uma ameaça à ordem. Para fugir da perseguição dos militares, Paulo Freire permaneceu exilado durante 16 anos.

Mesmo passadas mais de duas décadas de sua morte, as ideias do educador ainda incomodam. Por ser considerado um “propagador de ideias perigosas” e “doutrinador marxista”, em 2017, o Movimento Brasil Livre (MBL) organizou um abaixo-assinado online pela revogação da lei 12.612, de 2012, sancionada pela presidenta Dilma Rousseff, que concedeu o título a Freire.

O documento atingiu as 20 mil assinaturas necessárias para se converter em sugestão legislativa e foi debatido no Senado Federal. No entanto, após análise da proposta, a Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) da Casa manteve a honraria à Paulo Freire. 

Mesmo com o pedido negado pelo Senado, o educador continua sendo alvo de ataques. Em declarações recentes, Jair Bolsonaro (PSL) disse que pretende alterar o patrono da educação brasileira, título concedido a Paulo Freire em 2012. O desejo do presidente é acompanhado de muitos outros. A deputada Caroline de Toni (PSL-SC), já havia apresentado um projeto de lei na Câmara para revogar o título

Na contramão do bolsonarismo, na quinta-feira (2), em memória, o governador Flávio Dino (PCdoB), concedeu ao educador a condecoração máxima do Estado do Maranhão por “Reconhecimento à importância de sua monumental obra para a educação em todo o mundo”.

Em entrevista à revista argentina La Garganta Poderosa, da organização de vilas e favelas La Poderosa, a também educadora Sofia Freire Dowbor, neta de Paulo Freire, criticou as ofensivas do governo contra a imagem de seu avô. 

“Bolsonaro propôs entrar com um lança-chamas no Ministério da Educação para destruir até o último vestígio do que meu avô nos deixou. Quer anular o pensamento crítico e o trabalho em grupo”, disse Dowbor. 

“Hoje, mais do que nunca, a educação popular é fundamental para gerar um ser coletivo, porque como bem dizia meu avô, ‘quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor’”, afirmou, exaltando o legado do pedagogo. 

Autor do livro “Comunicação e cultura: As ideias de Paulo Freire”, publicado em 2011, Venício Artur de Lima explica ainda que o pedagogo também deixou um marco na área da comunicação. 

Venício estuda os conceitos de Freire desde a década de 70, quando estava exilado e fez doutorado na área de comunicação social no exterior. “Ele deu uma contribuição teórica e prática para quem se interessa pelo campo da comunicação que, do meu ponto de vista, é válida até hoje. Já havia uma tradição anterior a ele de se estudar a comunicação, mas ele introduziu uma dimensão política nesse estudo”, comenta o especialista. 

O professor emérito da Universidade de Brasília (UNB) também destaca as contribuições de Freire na área dos estudos da cultura. “Ele introduziu o conceito de cultura do silêncio, que se aplica até hoje. Faz parte da história dos oprimidos, dos excluídos no Brasil. A contribuição dele para a comunicação e para a cultura é absolutamente fundamental”, ressalta Venício. 

Referência internacional

Lançado em 1968, o livro "Pedagogia do Oprimido", sua principal obra, completou 50 anos ano passado e se mantém como único livro brasileiro citado na lista dos 100 títulos mais pedidos pelas universidades de língua inglesa. 

Venício de Lima relembra que, em dezembro do ano passado, a “Revue Internationale D’Éducation”, importante publicação da área de educação desenvolvida pela Universidade de Sorbonne, na França, produziu um dossiê sobre as figuras mais importantes da educação de todos os tempos. 

Entre os nomes de Confúcio, Platão, Sócrates, Rousseau e Freud, estava o de Paulo Freire. “É no mínimo paradoxal que haja esse reconhecimento universal sobre a obra e importância do Paulo Freire e no Brasil esteja acontecendo o que está acontecendo. Eu só posso atribuir isso ao desconhecimento”, argumenta. 

Sobre os ataques à figura do educador, Lima afirma concordar com a opinião de Ana Maria Freire, viúva do filósofo, cedida em entrevista ao jornal O Globo no início do mês passado.

“Aqueles que, inclusive o senhor presidente da República, combatem Paulo Freire hoje desconhecem o que ele escreveu, o que ele fez, o que ele pensou e o que ele era. Basta ver o reconhecimento dele fora do Brasil”, critica. 

Por que as ideias de Paulo Freire ainda incomodam?

"Evidentemente, eu fui preso e exilado por causa da ditadura. A ditadura militar de 1964 não só considerou, mas disse por escrito e publicou que eu era um perigoso, subversivo internacional, um inimigo do povo brasileiro e um inimigo de Deus", diz Paulo Freire em entrevista dada à TV Cultura em 1989, quando relembra a perseguição sofrida durante o regime militar.

O educador e filósofo foi preso e ficou exilado durante 16 anos por causa de seus métodos inovadores de educação, com foco na transformação social.

"Meu gosto é que nós todos, brasileiros e brasileiras, meninos e meninas, velhos, maduros tomemos um tal gosto pela liberdade, pela presença no mundo, pela pergunta, pela criatividade, pela ação, pela denúncia, pelo anúncio que jamais seja possível no Brasil a gente voltar àquela experiência do pesado silêncio sobre nós", afirma Freire.

Após duas décadas da morte do educador popular, as ideias dele voltaram a ser consideradas perigosas. O título de Patrono da Educação Brasileira de Paulo Freire vai ser colocado em discussão no Congresso Nacional.

Desde 2013, nos protestos liderados por grupos como o Movimento Brasil Livre (MBL), manifestantes vestidos de verde e amarelo ostentavam faixas pedindo fim à “doutrinação marxista” e um basta a pedagogia de Freire nas escolas. 

O ódio contra o educador culminou em um abaixo-assinado online pela revogação da lei 12.612, de 2012, sancionada pela presidenta Dilma Rousseff, que concedeu o título a Freire. O documento atingiu as 20 mil assinaturas necessárias para se converter em sugestão legislativa e vai ser debatido no Senado Federal.

Para o professor da USP, Dennis de Oliveira, a rejeição ao legado do educador pernambucano reflete o aumento do conservadorismo no Brasil:

“Há toda uma ação de extrema direita conservadora muito forte e o campo da educação, nesta situação em que vivemos hoje, tem sido o campo em que ainda há resistência progressista. Uma parte dos meios de comunicação de massa, infelizmente, aderiu a essa visão golpista e direitista, enquanto na educação a gente ainda tem iniciativa de professores e educadores que tentam formar o pensamento crítico”, opina.

Em 1963, Paulo Freire elaborou um projeto inédito e ousado: alfabetizar jovens e adultos em 40 horas. O novo método aplicado em Angicos, no Rio Grande do Norte, era baseado na experiência de vida e nas distintas realidades das pessoas. Para o educador, aprender sobre o mundo coexiste com a aprendizagem das palavras.

Em vez de cartilhas, ele trabalhava conceitos da realidade. Para um trabalhador rural que pouco cultivou as letras, mais do que juntar as sílabas e compreender que está escrito ‘tijolo’, por exemplo, era necessário entender quem faz o tijolo, quem são os que constroem as casas e quem são os donos delas.

O professor Oliveira trabalhou com Freire em 1989, quando o educador pernambucano foi nomeado secretário de Educação no Município de São Paulo, na gestão de Luiza Erundina.

A frente da pasta, Freire vinculou o EJA, projeto de educação de jovens e adultos, à secretaria da educação. A preocupação do professor era com uma educação emancipadora, libertadora e de consciência crítica.

"Suas obras são reproduzidas em várias línguas, é uma referência internacional no campo da educação, da pedagogia e do pensamento filosófico. Ele propõe você pensar em uma estratégia de ação, junto com os movimentos sociais, em que você respeite a diversidade de saberes e conhecimentos", diz.

Os ensinamentos de Paulo Freire reverberam ainda hoje nos movimentos populares pelo Brasil e pelo mundo. Um deles é o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que tem a educação popular como uma das bases da militância, segundo a coordenadora do setor de educação, Rubneuza Leandro. 

"Paulo freire foi um dos grandes sistematizadores da educação popular, é uma concepção de educação em que ele coloca que a libertação do oprimido está com ele. Não é um iluminado que vem para libertá-lo, é no próprio oprimido que está a chave para a libertação e dentro dessa perspectiva de problematizar o que traz a opressão. E nisso, ele traz o elemento de classe: se tem um oprimido, é porque tem um opressor", expõe.

No Senado, a sugestão legislativa será debatida na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa. A relatoria está a cargo da senadora Fátima Bezerra (PT-RN). 

Educadores e entidades de todo o país já se movimentam para manter o nome de Paulo Freire como Patrono da Educação Brasileira. O manifesto de defesa, organizado pelo Instituto Paulo Freire, também angariou mais de 20 mil assinaturas na Internet.


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