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Segunda-Feira 22.jul.2019

Ano VII - Nº 356

Brasil

CNBB prega coesão de bispos em momento de embate com governo Bolsonaro

Bispos da região amazônica tentam emplacar vice-presidente na CNBB

Postado em 03 de Maio de 2019 - Folha de SP e Carta Capital

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Com um discurso de busca de unidade, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) iniciou no último dia 1º a assembleia em que elegerá sua direção para os próximos quatro anos.

O encontro em Aparecida (SP) ocorre em meio a tensões da Igreja Católica com o governo Jair Bolsonaro. Quase 500 bispos, entre ativos e eméritos (aposentados), participam da reunião, que vai durar dez dias.

Na abertura, os líderes católicos pregaram coesão entre eles e pediram orações para que cheguem "a decisões acertadas".

"Que o Deus de bondade nos conceda a graça de vivermos estes dias em fraterna comunhão", rogou o atual presidente da entidade, dom Sergio da Rocha, que está encerrando o mandato.

O clima na reunião reflete os tempos de polarização política no país, com a expectativa nos bastidores de que haja uma guinada conservadora na cúpula, hoje comandada pela ala considerada progressista.

Nos últimos meses, posicionamentos da CNBB têm se chocado com propostas de Bolsonaro.

A mais recente elevação de temperatura ocorreu horas antes do começo do encontro, com a divulgação de uma nota sobre o Dia do Trabalhador com críticas duras à reforma da Previdência.

Na mensagem, a CNBB diz que a participação dos trabalhadores e dos sindicatos nas discussões sobre o projeto "é fundamental para a preservação da dignidade dos trabalhadores e de sua justa e digna aposentadoria, especialmente dos que se encontram mais fragilizados".

A instituição afirmou estar preocupada com o regime de capitalização (põe em risco a "lógica da solidariedade e da proteção social") e com o plano de desconstitucionalizar regras da Previdência ("não é ético").

O texto também emite discordâncias com a reforma trabalhista concretizada pela gestão Michel Temer (MDB). Afirma que a flexibilização de direitos aprovada em 2017 a pretexto de atenuar o desemprego "mostrou-se ineficiente", com um saldo de mais de 13 milhões de pessoas nessa situação.

A entidade já havia se colocado contra a reforma da Previdência em 2017, no governo Temer, e em março deste ano, já sob Bolsonaro.

Em entrevista coletiva durante o evento, dom Guilherme Werlang, bispo de Lages (SC), disse que a atual proposta para as aposentadorias amedronta porque "são retirados direitos conquistados a duras penas".

"Reconhecemos que às vezes há necessidade de fazer alguns ajustes. A sociedade é dinâmica. Mas não que quem pague o preço sejam os trabalhadores, especialmente aqueles mais fragilizados", ponderou.

Organizações ligadas à conferência, como o Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e a Pastoral Carcerária, também já repudiaram publicamente iniciativas do governo que assumiu em janeiro.

No outro lado do front, apoiadores de Bolsonaro disparam não só contra a CNBB (à qual reservam adjetivos como "esquerdizada" e "comunista"), mas também contra o papa Francisco, apontado por detratores como propagador de "ideias vermelhas" ao redor do mundo.

O escritor Olavo de Carvalho e o estrategista americano Steve Bannon, ambos com influência sobre a família Bolsonaro, têm estimulado as bordoadas no pontífice.

Para observadores da sucessão na CNBB, a escolha de dirigentes com bom trânsito no governo seria uma forma de atenuar conflitos da igreja com o Planalto. A ala mais progressista, no entanto, rejeita qualquer tipo de recuo.

"Eu digo que isso [guinada conservadora na CNBB] é mais fantasia do que realidade", disse dom Darci Nicioli, conhecido como "o bispo da jararaca" por causa de um sermão contra o ex-presidente Lula (PT) em 2016.

"A equipe que estará à frente é de coordenação; os bispos continuarão os mesmos, e eles têm autonomia", acrescentou o arcebispo de Diamantina (MG), para quem "é normal" ter membros do clero com diferentes ideologias, como acontece em qualquer instituição.

O discurso oficial é o de que o cenário externo não interfere na tomada de decisão e que a CNBB busca tão somente praticar a doutrina social da igreja, sem partidarismo.

"O grande trabalho da igreja é interno. O nível de contato com o governo é pequeno", reforçou o atual vice-presidente, dom Murilo Krieger.

Embora os bispos se esquivem das polêmicas, as tensões políticas sobressaem no pano de fundo da eleição. Candidatos tidos como simpáticos a ideias conservadoras ascenderam na bolsa de apostas interna nos últimos meses.

Os dois mais conhecidos são os arcebispos de São Paulo, dom Odilo Scherer, e do Rio, dom Orani Tempesta —embora este tenha perdido preferência depois de ser citado na Operação Lava Jato.

Também são mencionados como nomes fortes para as posições em disputa: dom Jaime Spengler (Porto Alegre), dom Joel Portella (Rio de Janeiro) e dom Walmor Azevedo (Belo Horizonte), entre outros.

No pleito serão escolhidos o presidente —função mais institucional—, o vice e o secretário-geral —que é quem manda realmente, por administrar o dia a dia.

Assembleia

Tratadas com sigilo, as discussões eleitorais serão aprofundadas em conversas a partir do fim de semana, depois que os bispos avançarem em outros temas da assembleia. A primeira parte da pauta é definir diretrizes de evangelização para os próximos anos.

A assembleia servirá ainda de preparação para o Sínodo dos Bispos para a Amazônia. O encontro, que ocorrerá em Roma, em outubro, discutirá como ampliar e aperfeiçoar a presença da igreja na região amazônica, tanto no Brasil quanto nos países vizinhos.

O sínodo também se tornou foco de atrito entre governo e igreja, depois da revelação de que o Planalto monitorava a organização do evento.

Em fevereiro, o general Augusto Heleno, ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), admitiu que o governo via o assunto com preocupação, por envolver, segundo o militar, pontos "de interesse de segurança nacional".

A CNBB contesta, dizendo que o sínodo não abordará questões geopolíticas ou econômicas, mas apenas evangelização.

A assembleia da CNBB foi iniciada nesta quarta-feira com uma missa matinal no Santuário Nacional de Aparecida.

Depois os participantes seguiram para um centro de eventos anexo ao templo, onde houve a solenidade de abertura. Além das falas de membros da atual direção da conferência, foram ouvidas as palavras do núncio apostólico no Brasil, dom Giovanni d'Aniello, que é o representante oficial do Vaticano no país.

"Estamos aqui para viver este momento tão bonito com os bispos do Brasil, para reforçar nossa união", afirmou.

As conversas fechadas para debater temas da igreja e articulações da eleição ocorrerão em salas no subsolo do ginásio do centro de convenções. A votação para os cargos da cúpula será eletrônica, em terminais que já foram instalados no local do encontro.

Os líderes católicos ficaram reunidos no ginásio até o início da tarde, quando saíram em pelotão para o intervalo de almoço. Eles costumam vestir calça e paletó, e não a túnica que faz parte da indumentária, e parecem estar de acordo ao menos no hábito de carregar pastas com papéis.

Amazônia

Há poucos dias de uma decisão nas eleições-gerais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, um assunto vem ganhando força entre o episcopado: a Amazônia e os povos da floresta. Um grupo de bispos da região está movendo as peças no tabuleiro para emplacar a vice-presidência da entidade.

Até agora, o nome mais forte na bolsa de apostas é de Dom Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho e presidente do Conselho Indigenista Missionário (CIMI). No Brasil, o movimento pan-amazônico tem cerca de sessenta bispos. O encontro, aliás, também serve de preparativos para o Sínodo da Amazônia, programado para outubro e alvo de

Paloschi é abertamente crítico ao presidente Bolsonaro. Em entrevista ao site da CNBB em janeiro, ele criticou o presidente por “desrespeitar totalmente a Constituição” e acabar com “toda a esperança dos pobres deste país”.

Outro nome cotado é o de Dom Mario da Silva, bispo de Roraima que teve atuação destacada no atendimento aos refugiados que atravessaram a fronteira do estado com a Venezuela.

Interlocutores atribuem o movimento a tentativa de resguardar as atividades eclesiais na região, foco de atritos entre a Igreja o governo brasileiro. O episcopado pan-amazônico teme que o governo atual, subjugado a interesses econômicos, acabe com o que sobrou da Amazônia.

Avanços do agronegócio, a venda de terras para estrangeiros, interesses farmacêuticos, investimento estrangeiro em turismo são os pontos mais críticos. Entre os assuntos internos, discute-se maneiras de manter a evangelização na região — é cogitada, inclusive, a aceitação de padres casados.

Aqui e no Vaticano, a Igreja Católica tem dedicado atenção especial à questão dos povos ribeirinhos e indígenas e da preservação da biodiversidade. Há dois anos, uma encíclica papal recomendou a redução dos impactos climáticos e cuidados quanto ao uso da terra, com citações diretas à Amazônia.


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