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Domingo 08.dez.2019

Ano VIII - Nº 374

Brasil

Desemprego chega a 13,4 milhões de brasileiros

Mas governo prefere investir em guerra cultural

Postado em 02 de Maio de 2019 - Daiane Costa (O Globo) e Leonardo Sakamoto (UOL)

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No primeiro trimestre deste ano, nenhum setor da economia brasileira contratou, de acordo com a pesquisa Pnad Contínua do IBGE . A falta de disposição do empresariado para abrir vagas elevou o número de desempregados para 13,4 milhões e fez a taxa de desemprego subir a 12,7%.

A renda do trabalhador também não apresentou melhora: o único grupo cuja renda teve alta nesse começo de ano foi o de trabalhadores domésticos, em razão do reajuste do salário mínimo, aplicado em janeiro.

Os 13,4 milhões de desempregados são o maior número desde o primeiro trimestre do ano passado (13,6 milhões). Em relação aos últimos três meses de 2018, houve acréscimo de 1,2 milhão de pessoas a esse grupo, alta de 10,2%.

A taxa de desemprego é igualmente a maior desde os três primeiros meses de 2018, quando ficou em 13,1%. No último trimestre do ano passado, a taxa havia ficado em 11,6%.

“Sempre na passagem do 4º trimestre para o 1º trimestre há dispensa de trabalhadores temporários contratados no fim de ano. Essa redução aconteceu este ano também. Mas ela poderia ter sido menor por conta do processo de melhora do mercado de trabalho em 2018, quando muitas pessoas conseguiram uma ocupação na informalidade. Estamos com um começo de 2019 muito parecido com o de 2018 em termos de volume de desempregados”, explicou Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE.

Setor público faz maior corte de vagas

O maior corte de vagas foi na administração pública, com menos 332 mil vagas. Houve queda de emprego também na construção civil, com 288 mil postos fechados. O emprego ficou estável na agricultura, na indústria, no comércio, no transporte, no alojamento, na informação em outros serviços e no serviço doméstico.

“A construção é bastante atingida pela sazonalidade nesse período. As pessoas que são demitidas não têm escolaridade. São pedreiros e serventes, responsáveis por pequenos reparos. Não são trabalhadores de grandes obras”, disse o coordenador do IBGE.

Rendimento não cresce

Na administração pública, afirmou Cimar, as dispensas são de trabalhadores temporários contratados sem carteira. Nesse começo de ano, praticamente metade desses desligamentos foram de professoras que, anualmente, são contratadas para trabalho de março a dezembro.

O rendimento médio real habitual, estimado em R$ 2.291, está estável há quase dois anos, desde o segundo trimestre de 2017.   A massa de rendimentos, que representa a soma das rendas de todos os trabalhadores e é determinante para a economia do país, foi estimada em R$ 205,3 bilhões - estabilidade em relação ao fim do ano passado e alta de 3,3% em relação a um ano antes.

O único grupo cuja renda teve alta nesse começo de ano foi o de trabalhadores domésticos, acréscimo de 2,3% em relação à renda do fim do ano passado, para R$ 909, em razão do reajuste do salário mínimo aplicado em janeiro.

A renda média real do servidor público também teve alta, de 2,2%, para R$ 3.706. Mas, segundo Cimar Azeredo, a média ficou maior porque no início de ano a administração pública desliga os contratados temporariamente, que geralmente têm salários mais baixos.

Guerra cultural

Bolsonaro não é diretamente responsável pelo aumento no desemprego, uma vez que uma política para gerar postos de trabalho levam mais tempo para surtir efeito do que os quatro meses em que ocupa o cargo. Contudo, é culpado por não ter apresentado até agora uma política nacional para enfrentar esse desafio ou qualquer coisa minimamente organizada que não passe exclusivamente pela aprovação da Reforma da Previdência e pela venda de empresas públicas.

Diante disso, qual a percepção da população? Entre aqueles que têm renda de até um salário mínimo, Bolsonaro enfrentou uma queda de 34% com relação ao apoio que mantinha no início do seu mandato, segundo pesquisa Ibope deste mês, atingindo 27%. E 31% entre o apoio que tinha no início do ano entre os que recebem entre um e dois salários mínimos e agora, chegando a 33%. A variação na região Nordeste, que reúne Estados com renda mais baixa, foi de 40%. Entre os que ganham mais, ele caiu, mas nem tanto. Bolsonaro conta com aprovação de 41%, de quem ganha entre dois e cinco salários mínimos, e de 45%, dos que recebem mais de cinco salários mínimos mensais.

O Datafolha, também de abril, traz números semelhantes: entre aqueles com renda de até dois salários, 26% aprovam o governo, índice que sobe para 36% na parcela de quem tem renda familiar de dois a cinco salários, para 43% de quem tem renda de cinco a dez salários e 41% acima de dez salários.

Seja por incapacidade ou falta de interesse em implementar políticas de geração de emprego, o governo federal tem preferido aprofundar sua política de excitação de seguidores ideológicos através de discursos em eventos e postagens nas redes sociais. Isso inclui bravatas sobre ingerência em empresas públicas, mudanças de leis ou promessas de recursos que depois são desmentidas por outros membros de sua equipe.

Com isso, mantém o apoio necessário para continuar sua missão a respeito de moldar costumes e comportamento. Em um dia defende garantir que proprietários rurais sejam policiais, juízes e carrascos frente a ocupações de terra. Em outro, assume o papel de censor de comercial de banco. No exterior, passa vergonha ao dizer que o nazismo é de esquerda. E quando está de folga, divulga vídeo de golden shower.

O problema para ele é que a parcela pobre da população é pragmática, sendo capaz de aceitar as sandices de um governo se, em troca, este garantir qualidade de vida – o que inclui emprego e segurança, mas também saúde e educação. No limite, pode relativizar até questões como denúncias de corrupção se o país estiver crescendo a taxas expressivas – vale lembrar que Lula foi reeleito em 2006 mesmo com o escândalo do Mensalão. É um cálculo racional de sobrevivência – ao contrário de setores da classe média que podem se dar ao luxo de ver gigantes no lugar de moinhos de vento.

E há mais um elemento a ser levado em conta. Por mais que a Reforma da Previdência traga medidas que ataquem a desigualdade, como uma alíquota progressiva, que vai cobrar mais de quem ganha mais e menos de quem ganha menos, e atuar junto ao grupo com altos salários no funcionalismo público, ela adota uma série de medidas que prejudicam – e muito – a vida de quem ganha pouco.

E isso não inclui apenas as mudanças propostas para o Benefício de Prestação Continuada (BPC), o salário mínimo assistencial pago aos idosos em situação de miséria, e para a aposentadoria especial rural – voltada a pequenos produtores, pescadores, extrativistas.

Há também o aumento no tempo mínimo de contribuição de 15 para 20 anos, que vai afetar a classe média baixa e baixa, que já se aposentam por idade, e mal conseguem contribuir as 180 parcelas mensais, quiçá 240. Além disso, a proposta do governo diz que, com 20 anos, o recebimento não será de 90% da média salarial, como é hoje, mas 60%. Também há o fim do abono salarial para quem ganha entre um e dois salários mínimos. E a alteração no recebimento de pensões, que deixam de ter o valor integral da aposentadoria, abrindo a brecha para órfãos e viúvas receberem apenas 60% de um salário mínimo. E, claro, previsão de introdução do sistema de capitalização com contas individuais – outra história, mal explicada, que pode reduzir os rendimentos dos aposentados mais pobres, como ocorreu em outros países pelo mundo.

E como isso tem sido recebido pela população? Pesquisa Datafolha aponta que 65% dos brasileiros são contra a proposta do governo de estabelecer a idade mínima de 62 anos para mulheres se aposentarem; 60% são contra ter que contribuir por 40 anos para conseguir aposentadoria integral; 63% são contra que o benefício da pensão por morte pago a viúvas e órfãos possa a ser reduzido a 60% do benefício original; e 61% defendem que trabalhadores rurais mantenham regras diferenciadas de aposentadoria. A pesquisa, divulgada em abril, identificou que 51% da população é contra a ideia de Reforma da Previdência e 41%, a favor. Ou seja, quando a proposta é melhor explicada, a rejeição aumenta.

Desemprego em alta e, mais importante do que ele, o medo do desemprego em alta (segundo índice divulgado, também nesta terça, pela Confederação Nacional da Indústria), somado às propostas que atingem os mais pobres na Reforma da Previdência devem continuar ressoando na aprovação do governo Jair Bolsonaro.

Diante disso, ao invés de sugerir políticas para emprego e renda, que passem por melhorar o consumo interno, e abrir o diálogo sobre a Previdência e a Seguridade Social, o presidente da República segue jogando lenha na fogueira ideológica.

Talvez acredite que o calor gerado o mantenha aquecido o suficiente se a queda de popularidade persistir diante da degradação de indicadores sociais. Mas o inverno chega para todos, já diria o falecido Ned Stark. Até para reis de olhos azuis que gostam de seguidores zumbis.

Em tempo: ao invés de apresentar políticas de (re)qualificação profissional em parceria com a estrutura pública federal de educação, o Ministério da Educação prefere atacar exatamente as universidades públicas que vêm crescendo na ,produção de conhecimento, como a Universidade de Brasília, a Universidade Federal da Bahia e a Universidade Federal Fluminense. O ranking da publicação britânica Times Higher Education, citado em matéria do UOL, considera que Unb passou da 19ª para 16ª posição, de 2017 para 2018, e a UFBA, da 71.ª para a 30ª. O que faz sentido pela lógica apontada neste texto. Afinal de contas, conhecimento leva à reflexão independente, coisa que o governo não admite.


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