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Quinta-Feira 24.out.2019

Ano VIII - Nº 368

Coluna

Você sabia que o multiculturalismo é um movimento comunista internacional?

Estamos em uma encruzilhada civilizatória, pois tudo que não seja reconhecida como dos ‘bons costumes’, é comunista

Postado em 02 de Maio de 2019 - Emerson Merhy

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Eu não, e tenho sérias dúvidas sobre isso. Mas, há muita gente que acredita nisso e isso não é um delírio, é um projeto de intervenção social. De um modo mais preciso nasceu, em termos mais visíveis, a partir da formulação de um militar americano, W. Lind, nos anos 1990, que afirmava que após a queda do muro de Berlim, o movimento comunista internacional passou a criar a Quarta Guerra, feita pela produção infiltrativa de ideias, como: multiculturalismo, lutas pelo direito gay, feminismo, direitos humanos, entre muitas outras, que eram são ajustadas aos ideais das famílias ocidentais cristãs.

Afirma que minando os costumes típicos dessa civilização, o movimento comunista internacional estaria abrindo uma nova forma de implantar o socialismo e o comunismo no mundo.

Essas formulações de W. Lind e vários outros, de sua estirpe, vai ter eco no movimento americano de ultra direita, alt+right, que advoga uma visão supremacista branca, com cores de um anarquismo de direita, ao propor governos de pequenos coletivos anti-estado.

Acontece, que esse tipo de pensamento nos interessa e muito, em especial nesse instante que vivemos no Brasil, pois vários dos componentes do governo atual são adeptos dessa perspectiva para o futuro da humanidade, mesmo que entre eles possa haver pequenas tensões, como a que há entre setores militares e o astrólogo guru de vários ministros nacionais.

Como diz Eduardo Costa Pinto, em seu texto: Bolsonaro e os quartéis: a loucura com método (texto para discussão 006/2019; IE-UFRJ), os militares apostam em uma economia globalizada, liderada pelo mercado capitaneado pelos EUA, mas em uma ação nacional de guerra contra os costumes que não se enquadram na civilização das famílias ocidentais cristãs. Enquanto, outros setores do governo aceitam essa guerra dos costumes, mas são antiglobalização.

Entretanto, essa diferença não os colocam em lugares muito distintos quanto as propostas de políticas, que visam reprimir o livre pensar, pois esse seria comunista em sua essência. Há que controlar professores, jornalistas, intelectuais e artistas, quanto a isso.

Esse conjunto de ativistas do governo atual, podem divergir quanto se a Terra é plana ou não, mas não divergem em ver em um Fernando Henrique Cardoso, um comunista feroz, bem como vêm em um Rockefeller, em um Bil Clinton, em um Obama. Imaginem, então, um Lula, que antes de tudo sempre se posicionou como católico, muito crente. Imaginem, então, o Papa Francisco.

Pois é, como também diz Costa Pinto, loucura com método.

Eu diria que é um perspectivismo que vai construindo materialidade para produção efetiva de modos de viver, mas não sem sérios problemas.

Isso, porque, para ser sustentada, essa perspectiva tem que permanentemente construir inimigos, como o conjunto dos olhos militarizados estão acostumados a fazer. Sem a produção cotidiana de inimigos, não há como justificar a si mesmo.

Nessa direção, é um tipo de “delírio” que de fato se constitui como um imaginário social e de louco não tem nada. Aliás, deixem os loucos em paz, pois em sua imensa maioria são da paz e dóceis.

Além disso, vale perceber que a vitória de Trump impulsionou a visibilidade de vários desses grupos pelo mundo, além dos brasileiros. Veja a atual aparição do Vox na Espanha, formado por jovens que se simpatizam com a tradição do franquismo, talvez a ditadura do século XX que mais resistiu em sua destruição e que tinha na vigilância sobre os costumes ocidentais cristãos conservadores o seu mote repressivo brutal. Assassinou milhares e milhares de pessoas.

Esse processo de botar a cara para fora está muito explícita, hoje em dia, e amedronta a imensa maioria das pessoas, pois são paranoicos e violentos, sempre produzindo inimigos para se justificarem como grupo.

Voltando ao Brasil, vale destacar que isso clareia porque os índios são perseguidos e devem ser eliminados em suas autenticidades, o porque da proposta da escola sem partido, mesmo que seja ultra partidária, o porque da destruição da arte em geral e da ciência em particular.

E por incrível que pareça, essa perspectiva, hoje, é responsável por fazer a cabeça de uma boa parte das próprias Forças Armadas.

Estamos em uma encruzilhada civilizatória, pois tudo que não seja reconhecida por ela como dos bons costumes, é comunista.

Nunca sonhei com tanto comunista no Brasil.

Confesso que não sabia disso.

Agora, me parece que tudo ficou bem claro, somos comunistas, todes, e não sabíamos.


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