Semana On

Quarta-Feira 17.jul.2019

Ano VII - Nº 356

Coluna

Além da privatização

As metas do governo não são deste mundo

Postado em 02 de Maio de 2019 - Rodrigo Amém

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Quando o ministro da Educação corta mais de um terço da verba das universidades, muita gente vê como um ataque ideológico. Na verdade, é apenas business: transformar direitos constitucionais em comodities, vendidas a altos juros e grandes custos.

No caso do ensino universitário, o objetivo é extinguir o curso superior gratuito estatal. Forçar as federais a cobrarem mensalidade, não apenas para diminuir a concorrência com as instituições particulares, mas para criar a oportunidade de financiamento bancário.

Esse é o modelo republicano norte-americano de liberalismo econômico, onde a dívida dos créditos educativos chega a 1,5 trilhão de dólares. Sair da faculdade com 200 mil reais no vermelho é a realidade da maioria da classe média de lá.

Eu sei que tem muito eleitor no Brasil que é ruim de conta e pensamento abstrato. Então vamos dar um exemplo mais concreto e real: Dona Cotinha (nome fictício) é americana, formada em Serviço Social, tem 76 anos e ainda trabalha. Ela contraiu uma dívida para pagar seu mestrado, quando tinha 50 anos. Concluiu o curso com uma dívida de 35 mil dólares. Hoje, 19 anos mais tarde, deve ao banco 38 mil dólares, já que não consegue nem pagar os juros do empréstimo.

Esse é o modelo que a atual administração quer discretamente implantar no Brasil. "Balbúrdia e gente pelada" é só pretexto para o desmonte que vai abrir espaço para a "modernização do ensino universitário".

Eu gostaria dizer que é "só" isso que estamos importando do modelo gringo. O objetivo é criar uma nova realidade, onde a mão invisível do mercado pega o brasileiro pelo pé e secode até a última moedinha cair. Parece apocalíptico, mas é possível vislumbrar três outros cenários dispóticos nesse seriado de horror que se tornou o Brasil. Se me permite a paródia:

"Você está entrando em uma nova dimensão, uma dimensão não apenas de teoria e ideologia, mas de resultados financeiros. Uma jornada pelo assombroso mundo onde o liberalismo econômico não conhece fronteiras ou limites. Um mundo... Além da privatização..."

Episódio 1 - O futuro sumiu

Seu Juca (nome ficítico) tem 58 anos. Como quase todo americano, contava com uma aposentadoria, que lá são apelidadas de 401k e são administradas por bancos privados. Seu objetivo era se aposentar aos 62, mas o banco usava o dinheiro do fundo para investimentos de alto risco. Na crise imobiliária de 2008, seu Juca perdeu 140 mil dólares ou 90% do que tinha acumulado em décadas de contribuição. Ele agora acredita que jamais reaverá o dinheiro ou conseguirá se aposentar.

(som de trovão ao fundo)

Episódio 2 - O Fim da Feira

Laura (Nome fictício) mora num deserto alimentício no sudeste de Washington, a capital dos EUA. Lá, os alimentos processados são produzidos com insumos subsidiados pelo governo. Milho, açucar e gordura são os ingredientes mais baratos da cadeia produtiva e, por isso, os mais vendidos. As lojas de conveninência e lanchonetes "fast food" tomaram conta do bairro pobre onde Laura mora. E isso tornou os alimentos frescos e naturais ainda mais caros e difíceis de achar. Laura, seus filhos e seus vizinhos consomem comida de pobre valor nutricional e rica em sódio, açucar e gordura saturada. Hoje, a expectativa de vida na região de Laura é 12 anos menor do que nos bairros mais ricos e com acesso facilitado à comida de qualidade, resultado das políticas de incentivo da administração pública, sempre orientada pelo lobby da indústria dos alimentos industrializados.  

(Grito de um corvo)

Episódio 3 - A Trabalhadora Desabrigada

Daniela (nome ficítico) tem 46 anos, trabalha num emprego formal e ganha dois mil dólares mensais. Na parte do país onde vive, não é o suficiente para pagar aluguel. Por isso, Daniela e sua filha adolescente moram no carro, o único patrimônio da família. A filha está matriculada em escola pública. Caso decidissem se mudar para outra cidade, perderiam a vaga da menina, além da única renda da família. Daniela dorme todas as noites no banco do seu automóvel, sobre tudo que possui na vida. Mas nem sempre foi assim. Ela perdeu um emprego de quase 10 anos e não conseguiu mais pagar o aluguel. Com 15 dias de atraso, veio a ordem de despejo. Daniela juntou o que pode e passou a dormir com a filha em estacionamentos e parques públicos. Essa é a sua rotina há quatro anos.

(Lobo uivando)

Todos os casos acima são reais, tirados dos noticiários da imprensa americana. São exemplos do que acontece quando um governo destrói sua rede de assistência social para que a iniciativa privada possa lucrar com o desamparo da população. Nossa dimensão percorre a passos largos o mesmo caminho. E o que mais assusta é que parte do povo aplaude, como se fosse ficção científica. E continuarão aplaudindo, até o dia em que acordarem dentro do filme.


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