Semana On

Domingo 25.ago.2019

Ano VII - Nº 360

Poder

Carlos faz de Mourão alternativa para o centrão

Incapaz de dialogar sem guerra, Bolsonaro abriu espaço para seu vice

Postado em 26 de Abril de 2019 - Josias de Souza e Leonardo Sakamoto (UOL)

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Jair Bolsonaro deveria estar concentrado na tramitação da reforma da Previdência. Mas desperdiça um naco do seu tempo com a administração de uma briga que seu filho Carlos Bolsonaro comprou com o vice-presidente Hamilton Mourão. O porta-voz do Planalto, Otávio Rêgo Barros, disse que Bolsonaro quer colocar um "ponto final" na divergência do filho com o vice. O diabo é que as encrencas do Pitbull, como o presidente se refere ao filho, têm apenas ponto de partida, não ponto final.

As pontadas sentidas pelo general Mourão não acabarão tão cedo. O 'Zero Dois' escreveu no Twitter: "Lembro que não estou reclamando do vice só agora." Ou seja, as rusgas nasceram em algum ponto do passado. "Não ataco ninguém, são apenas fatos que já aconteceram e gostaria de continuar compartilhando com os amigos", anotou Carlos. Quer dizer: a confusão será empurrada até um ponto indefinido do futuro.

Eis o ponto a que chegamos: o filho do presidente ataca o vice nas redes sociais, insinuando que Mourão conspira para assumir o trono de Bolsonaro. Tudo isso num governo que começou há cinco meses. O brasileiro que frequenta diariamente o ponto de ônibus esbarra num ponto de interrogação: É esse o governo que traria de volta a prosperidade? Logo se compreende o ponto fraco exposto nas pesquisas. Bolsonaro tem a pior avaliação no início de um governo eleito, acaba de reiterar o Ibope.

Se há um ponto pacífico em toda essa história é o seguinte: sem uma base legislativa, Bolsonaro está nas mãos do centrão. Os partidos desse grupo foram determinantes para colocar um ponto final na gestão de Dilma Rousseff. Depois, salvaram Michel Temer da queda. Agora, enxergam as relações do presidente com o vice de ponta-cabeça. Atendido em seus interesses, o centrão estenderá a mão para Bolsonaro. Desatendido, pode concluir que uma aliança com Mourão é mais negócio. Num cenário assim, um filho de presidente sem controle nas redes sociais é como um caminhão descendo a ladeira desgovernado… Em ponto morto.

Sem diálogo

Um vice hostil não é a novidade. Para ser bem honesto, é um clichê horrível. Se a cúpula do governo se interessasse por livros de História, veria que bons presidentes, em todo o mundo, gastaram energia para garantir que essa figura jogasse pelo time e não contra ele, aproveitando o que ela tinha de melhor.

O que tem espantado, porém, é a insegurança com a qual Bolsonaro e família têm reagido diante da busca de Hamilton Mourão por protagonismo. Devemos dar um desconto ao presidente, claro, pois é um novato nesse negócio de política – afinal, foram apenas 28 anos no Congresso Nacional, pouco tempo para aprender a dialogar e construir coletivamente. Mesmo assim, a falta de confiança na própria capacidade de se manter no poder é surpreendente.

O que não deixa de ser uma forma involuntária de autocrítica.

Quem lê este blog já há alguns anos sabe que tratei de forma dura o hoje vice-presidente por declarações golpistas, preconceituosas e excludentes que ele proferiu quando ainda era general da ativa e, depois, durante a campanha eleitoral do ano passado. Mas, agora, seja por estratégia, marketing ou sabedoria, ele tem demonstrado mais equilíbrio, racionalidade e maturidade que o presidente.

Coisa que os mais otimistas afirmaram que aconteceria com Bolsonaro ao assumir a Presidência da República. Aquela conversa para boi dormir, de que a liturgia do cargo mudaria o homem [sobe som de risos]. Esses mesmos sonhadores devem ter ficado decepcionados ao constatar que o coelho não chegou com uma cesta de ovos no domingo passado.

Não digo que concordo com o que pensa Mourão. Até porque ele continua dando declarações bizarras aqui e ali, como a sua polêmica mais recente: em uma entrevista ao jornal francês Le Monde, disse que a última ditadura brasileira "matou muito poucas pessoas".

Mas é natural que ele acabe preenchendo um vácuo deixado pelo próprio presidente da República. Por se mostrar mais aberto a conversas que não girem em torno de "golden shower", "nazismo de esquerda" e "ideologia de gênero" e por não chamar a imprensa de "fake news" dia sim, dia também, ele vê gente cair por gravidade para perto dele.

A Maior Crise do Governo de Todos os Tempos da Última Semana deve ser computada na incapacidade da família Bolsonaro de fazer política sem entrar em guerra. Acostumada a sobreviver do conflito e não no diálogo, ela tenta mostrar a seus fãs que o mundo é caótico e só uma liderança populista, carismática e conservadora garantirá a travessia em meio ao tumulto. O problema é que o custo humano e material desse processo é impagável no longo prazo.

A origem da insegurança e do medo diante do vice reside, portanto, no próprio presidente da República e em sua família. Não por conta de uma paranoia não-medicada, mas pela incapacidade de Bolsonaro em fazer o que foi eleito para fazer: governar um país, articulando diferentes interesses e diferenças, organizando a equipe para lançar projetos para enfrentar os problemas nacionais. E não tocar um Ministério da Verdade, como no livro 1984, de George Orwell, responsável por, entre outras coisas, ressignificar os registros históricos.

O Brasil sofre com um desemprego de 13,1 milhões de pessoas. Já passou do momento de Bolsonaro apresentar um programa para fomentar a geração de postos de trabalho. Garanto que se ele implementar ações eficazes voltadas ao aquecimento da economia, ao invés de apostar todas as fichas na Reforma da Previdência, terá um país menos insatisfeito diante de si. E ele e sua família não precisarão ficar inseguros diante de ninguém.

Em tempo: Nesse caldo, Olavo de Carvalho não apenas como porta-voz, mas também como um totem a ser cultuado, agregando e dando sentido às coisas. Mas é um totem descartável, que seguirá reverenciado pelo governo enquanto for útil.

Sernsato

Carlos Bolsonaro e sua tropa digital ganharam um motivo adicional para atacar o general Hamilton Mourão. O vice-presidente de Jair Bolsonaro foi elogiado por Fernando Henrique Cardoso: "Fala coisas sensatas. No Brasil, isso já é muita coisa." Para o grão-mestre do tucanato, o problema não está nas manifestações do vice, mas na insegurança dos que enxergam suas manifestações como uma ameaça.

Em entrevista ao Jornal da Gazeta, FHC afirmou: "Não vejo que ele [Mourão] esteja articulando. É medo dos que estão no governo. A coisa está tão incerta que eles ficam imaginandio que isso possa acontecer. Não é que esteja acontecendo. Ele está sendo normal. Está dizendo o que pensa. Eu acho que todo mundo tem o direito. Você pensa que eu concordava sempre com as ideias do Marco Maciel e ele com as minhas? Não. Mas respeitávamos."

Instado a comentar a interferência dos familiares do presidente no governo, FHC insinuou que o fenômeno decorre de uma debilidade de Jair Bolsonaro: "Por que as famílias aparecem? Está faltando um chefe, não é? Que o chefe fale com mais força ao país." E quanto à influência do guru Olavo de Carvalho? "Esse Olavo, não quero falar mal porque não li [seus livros], não sei. Para mim, não existe."

FHC acrescentou: "Não conheço [Olavo de Carvalho], nunca ouvi falar. E olha que eu vivo nos Estados Unidos. Nunca ouvi falar dele." Na opinião do ex-presidente tucano, o guru da família Bolsonaro e seus seguidores espantam-se com as assombrações erradas. "inventaram inimigos. É uma espécie de cruzada contra fantasmas. […] Vêem comunismo por todo lado, o globalismo para todo lado. Mas o que é isso, meu Deus? Vamos ser mais concretos, mais sensatos. O governo está meio disparatado."

No início de abril, FHC encontrou-se com Mourão num seminário sobre Brasil, na universidade americana de Harvard. "Eu tive boa impressão dele, porque ele é normal, fala coisas sensatas." Perguntou-se a FHC se as reações às falas de Mourão podem ser motivadas pelo receio de que ele esteja em campanha para 2022. E o entrevistado: "Bom, se for campanha para a próxima eleição é direito dele. Qualquer brasileiro tem esse direito."

FHC resumiu assim a visão que tem de Mourão: "É uma pessoa desabrida. Ele diz o que pensa. Não acho mau, acho bom que ele diga o que pensa. Posso concordar ou não, mas ele diz o que pensa com certa espontaneidade. Por um lado é positivo. Acho que o vice presidente não deve conspirar contra o presidente."

Para FHC, a disciplina da farda inibe comportamentos inadequados do vice. "O general Mourão é militar. As corporações têm lá os seus problemas, mas também têm suas vantagens. Não é fácil você conviver depois com seus colegas se você agir errado." Há no governo de Jair Bolsonaro oito ministros egressos das Forças Armadas.

FHC falou também sobre a reforma da Previdência. Considera a aprovação da proposta indispensável. "Não é o caso de ser a favor ou contra o governo, mas a favor do Brasil. Tem que olhar a perspectiva da continuidade do funcionamento do Estado." Lamentou que Bolsonaro não brigue pela reforma com a mesma intensidade que seu ministro da Economia, Paulo Guedes.

"Se não fizer todo o empenho não aprova", afirmou. Avalia que Guedes "tem feito empenho." Disse ter assistido às exposições do ministro no Congresso. "Não é fácil, é difícil. Mas ele é uma pessoa que me pareceu sincera. Posso não estar de acordo com as ideias dele, depende de quais ideias. Mas acho que ele está tentando passar um sentimento."

Dá-se o oposto com Bolsonaro, disse FHC. "Não se está vendo esse empenho. Mesmo porque a posição dele no passado era outra. Votava contra todas as reformas. É difícil."

Sobre a notícia de que o governo ofereceu R$ 40 milhões em emendas orçamentárias em troca de apoio dos parlamentares à reforma previdenciária, FHC fez um comentário pragmático: "O velho toma-lá-dá-cá faz parte do jogo, mas não pode ser o jogo. Como você sai dessa armadilha? É preciso que tenha valores, que o presidente fale à nação, não é falar ao Congresso só. Quando o presidente está bem com a nação, isso se reflete no Congresso."

Sob Bolsonaro, prosseguiu FHC, "o governo veio com uma ideia: a velha política. Bom, é a política. A política implica em negociação. Se você demonizar a negociação está mal. Agora, a negociação não é corrupção. Se você não me der isso, não te dou aquilo. Aí fica difícil. Não é a coalizão em si, é o que eu chamo de presidencialismo de cooptação."


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