Semana On

Domingo 25.ago.2019

Ano VII - Nº 360

Coluna

Lutas que valem a pena lutar

Por um mundo habitado por vidas não neoliberal

Postado em 25 de Abril de 2019 - Emerson Merhy

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Estamos, aqui, tomando como vida neoliberal isso que nos ocupa diariamente, hoje. Modos de viver, que para serem produzidos, acabam por produzir mais valor ao modo capitalístico do viver contemporâneo, centrado no individualismo, na noção de que os corpos que merecem viver são os corpos-capitais, no ideal de uma vida autorregulada em torno de se constituir, isoladamente, cada um como um empreendedor do capital, que lá no fundo só favorece as grandes corporações e o capital financeiro mundial.

Esse modo de viver, o neoliberal, vem mostrando intolerância às diferenças que não se coadunam com ele e, o pior, tem construído uma pauta para o mundo que é o do extermínio dessas diferenças, procurando criminalizá-las. Além, de uma maneira geral, ter se constituído como uma crença que não aposta na vida sob todas as suas formas possíveis, que esse planeta mãe que nos produziu e acolhe sustenta.

O modo de viver neoliberal, em sua prepotência, tem sido antivida, mesmo quando se associa com algumas religiões fundamentalistas, que são mais estimuladores de guerra contra o outro diferente, do que qualquer outra coisa.

Diante disso, uma das preocupações centrais têm sido pensar e agir na direção de viveres antineoliberais, por parte dos que não cabem aí e dos que não comungam com essa aposta para a humanidade.

Isso, em si, abre uma conversa sobre lutas que valem a pena lutar, ao lado, daquelas que já se consagraram como lutas sociais necessárias como, por exemplo, a luta pela democracia de base, horizontal e molecular. A luta contra a exploração do homem pelo homem. A luta contra os privilégios de poucos, que acumulam enormes riquezas. A luta pela existência de uma rede de proteção social, que considera cada vida vivida um patrimônio coletivo. A luta contra o preconceito e a violência.

Nesses anos todos, desde a emergência dos projetos neoliberais da década de 70, do século XX, várias outras lutas têm se agregado àquelas, como a luta feminista, a luta do movimento gay, a consolidação do necessário enfrentamento de uma pauta lgbtq+ em todos níveis da organização de qualquer sociedade. Luta pela moradia e pelo uso da terra de forma produtiva e dentro de uma pauta de sustentabilidade do planeta. Luta pela água. Luta pela liberdade das manifestações culturais.

A originalidade em ir se inventando novas formas de luta, que apontam para modos de viver não neoliberal não para, é um devir.

Nessa coluna, a ideia é agregar dois movimentos que me ficaram mais visíveis recentemente e que me parecem conter alguns elementos, que vale a pena nos debruçarmos. Um deles, é a luta dos coletes amarelos, na França, e, a outra, a luta por um “green new deal”, nos EUA.

Não tenho a pretensão de me estender muito, mas gostaria de registrar pelo menos questões que cada uma dessas lutas podem estar colocando, como novidade, enquanto um movimento mais deflagrado.

Dentre uma infinidade de pautas que a luta dos coletes amarelos vêm colocando, há uma bem invisível ainda, que se refere às ações do governo Macron na direção de se destruir as economias locais e regionais, que são sustentação para modos de vida bem consolidadas, na França. Diria, até, que não só na França, pois podemos ver isso também na Espanha, na Itália, só a titulo de exemplo.

O que seriam essas economias locais e regionais? São a construção de uma rede de produção e distribuição em certas localidades e regiões que são realizadas pelo reconhecimento da capacidade produtiva específica, de um certo setor e local. Por exemplo, uma certa vocação que foi se instituindo em algumas localidades na produção de alguns produtos agroindustriais, como laticínios e seus derivados, como grãos e seus derivados, como comércios específicos e seus derivados. Em torno dos quais vai se consolidando a própria produção de riqueza e de modos de viver, dessas localidades.

É famosa a existência de regiões de competência da produção de vinhos, por vários lugares da França, bem como, a produção de queijos, ou mesmo a produção de certos equipamentos necessários para sustentar esses processos produtivos.

Isso, em uma escala nacional, gera uma rede de capacidade cooperativa, não centralizada e não dominada pelo capital financeiro, e que em si se organiza como uma resistência ao modo mais “perverso” da vida neoliberal.

No Brasil, conhecemos bem isso. Quando em uma cidade abre um grande shopping center, vemos sumirem as economias locais e a destruição por completo dos modos mais comunitários de viver no entorno.

Na França e nos outros países, esse processo é ainda mais contido, diferente dos EUA.

Acontece, que uma das pautas do governo Macron é o de fazer exatamente o que as grandes corporações pretendem. Comprar todas as pequenas e médias capacidades produtivas, destruí-las e colocar os seus insonsos e uniformes produtos no lugar, mas que lhes geram lucros astronômicos.

A luta dos coletes amarelos enfrenta esse projeto, também, além do que a mídia coloca sobre eles. Vale ver nisso, uma pauta nova para lutas antineoliberais, como vejo no caso brasileiro na luta do MST na sua briga para fazer que sua produção cooperativada chegue a população em geral, mostrando as vantagens dessas apostas.

No caso do “Green New Deal”, que vem sendo criado a partir do movimento de alguns setores do Partido Democrata americano, parece-me também que há uma pauta interessante a dialogar contra o mar de destruição do meio ambiente, que vimos assistindo passivamente, no nosso país. Mesmo sabendo que estamos sendo envenenados diariamente pela nossa agroindústria, ainda não conseguimos criar um efetivo movimento social sobre isso.

Nos EUA, que viveu um período dos anos 30, do século passado, em torno do “New Deal”, para combater a miséria que se vivia no país, gerando novos empregos e novas economias, hoje produz esse movimento do “Green New Deal” com uma extensa pauta de que, ou salvamos o nosso planeta continuando sendo produtores de riqueza e, portanto, salvamos as nossas próprias vidas, ou a Terra vai acabar com a gente, que vimos produzindo destruições incríveis em seus habitats.

Esse movimento americano, que recém começa como proposta de uma política efetiva para pensar a sociedade americana como um todo, acrescenta algo vital do ponto de vista antineoliberal: riqueza é produzir vida, diversidade, sustentabilidade em ambiente social democrático.

Vejo que essa proposta tem muito a nos dizer, mesmo que possamos ter, como tenho, críticas a certas questões que esse projeto de setores do Partido Democrático carrega. Mas, como diz Chomsky, em recente entrevista sobre isso no Democracy Now, não invalida a potência de mudanças que há nessa construção e, portanto, por isso deve ser conhecida, debatida e apoiada.

Insisto que ou criamos essas novas lutas que valem a pena lutar, ou seremos esmagados se só nos posicionarmos no mesmo tipo de tabuleiro, onde a política formal vem sendo operada.

Uma nova esquerda, precisa se posicionar a partir disso.


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