Semana On

Terça-Feira 23.jul.2019

Ano VII - Nº 356

Artigo da semana

Sobre o espólio do mal

O nazismo é de esquerda?

Postado em 25 de Abril de 2019 - Érico Andrade – Le Monde Diplomatique

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Nem mesmo as flagrantes evidências que o nazismo se firma pela ojeriza ao comunismo (termo inequivocamente de esquerda) demovem os conservadores de atribuírem de algum modo o nazismo à esquerda porque o interesse deles não é pelo debate histórico, mas pela afirmação fantasmática de que os problemas – na sua totalidade – da humanidade estão nas ideias socialistas.

Duas estratégias para lidar com o legado do nazismo têm ganho corpo na extrema direita. Ambas são calcadas num revisionismo histórico e acalentam o relativismo, mas se orientam por caminhos distintos. A primeira estratégia é simplesmente negar o que torna a experiência do nazismo, segundo Arendt, o mal radical, a saber: o holocausto. Relativiza-se, neste caso, os números de mortos, os relatos e outros fatos que atestam – inequivocamente – a existência dos campos de concentração. A outra estratégia assume o mal radical do nazismo, mas relativiza o seu viés ideológico. A postura mais relativista o reporta à esquerda e procura argumentar que o nazismo, apesar das flagrantes evidências históricas contrárias a essa tese, seria um movimento de esquerda. Outra postura um pouco menos relativista reporta o nazismo para um espectro ideológico que não encontraria amparo nem unicamente na ideologia de esquerda, nem na direita. O nazismo seria um movimento político absolutamente singular e com caraterísticas de movimentos de esquerda e de direita, mas sem se reduzir a nenhum desses espectros ideológicos.

Dizer simplesmente que o holocausto não existiu ou que não teve a magnitude observada pelos abundantes registros históricos é apostar que a teoria da conspiração pode homologar qualquer crença desde que ela proteja certos ideais autoritários que além de torturar e matar pessoas lhes nega a condição de vítima. Com efeito, diante da onerosa exigência de se negar tantos fatos e relatos históricos a extrema-direita optou mais recentemente por reconfigurar a sua relação com o nazismo lhe reputando a quem se constituiu, segundo uma variedade de documentos que incluem os discursos dos próprios nazistas, como um dos maiores opositores ao nazismo: o socialismo soviético.

A conspiração envereda agora por uma compreensão unívoca do termo socialismo que no início do século era disputado politicamente pela esquerda e pela direita sem ter ainda a conotação definitiva que tomaria após a segunda Guerra. A partir da qual ele seria um termo usado majoritariamente pelo campo da esquerda. Confunde-se ainda o que é um aspecto dos sistemas totalitários – presentes em qualquer espectro ideológico – com um traço específico do socialismo. Concentração de poder e intervenção estatal na economia são características que perpassam diversos sistemas totalitários (incluindo sistemas teocráticos) sem se reduzir a nenhum deles.  O fato de regimes totalitários terem pontos em comum não os faz serem congruentes – idênticos – mas apenas totalitários. Isto é, o totalitarismo, nos ensina Arendt, não é limitado a uma ideologia. Ele pode se dar em diversos campos ideológicos, mas isso não produz uma unidade ideológica entre esses diversos campos.

Por fim, afirmar que o nazismo não é nem de esquerda, nem de direita encontra amparo no fato de que os nazistas (e os fascistas de modo geral) se opunham aos liberais da mesma forma que eram contra os socialistas de esquerda. Eles também alegavam o caráter inédito do seu movimento para justificar uma singularidade ideológica. Mas aqui temos um ponto importante. Se é verdade que os nazistas se opunham aos liberais, é necessário sublinhar também que o espectro da direita não engloba apenas as pautas liberais, mas historicamente esteve ligado às causas conservadoras. A relação entre os liberais e conservadores no interior do que se chama direita ao longo da história está longe de ser um ponto consensual. No entanto, o que dá ao nazismo a marca da direita é porque ele se coloca no horizonte do conservadorismo (historicamente ligado à direita por oposição aos progressistas e socialistas) em que pautas como família, propriedade e pátria são postas no primeiro plano. Por isso, o nazismo é, pelo menos, um extremo conservadorismo em que em nome de uma compreensão unilateral da pátria se leva à radicalidade a tese de que há uma cultura pura, um povo que se reconhece como grande e com um propósito especial.

Com efeito, são justamente os conservadores – mais do que os liberais – que colocam o nazismo como um movimento de esquerda ou, na melhor das hipóteses, sem ideologia precisa, mas como uma tendência de esquerda. Nem mesmo as flagrantes evidências que o nazismo se firma pela ojeriza ao comunismo (termo inequivocamente de esquerda) demovem os conservadores de atribuírem de algum modo o nazismo à esquerda porque o interesse deles não é pelo debate histórico, mas pela afirmação fantasmática de que os problemas – na sua totalidade – da humanidade estão nas ideias socialistas.

O que essas estratégias argumentativas demonstram é uma forma específica de violência. Violência ética, para ser preciso (Butler). É quando o discurso age com fins estritamente morais para criar realidades sem recorrência aos fatos A tática é tornar abjeta a perspectiva do outro para se autoproclamar a única fonte de pureza e parâmetro moral. É um discurso violento porque visa, em última análise, a eliminação do outro, o seu apagamento. Essa eliminação começa pela deturpação e manipulação da história a exemplo do que fez o sistema de propaganda nazista. Negar ao outro o direito de se autoreconhecer para lhe imputar aquilo que não lhe é próprio é proceder uma violência. A justificativa para esse tipo de violência é que vale tudo para condenar moralmente quem não é espelho dos ideais conservadores.

No entanto, para existência de um debate minimamente republicano é necessário ter um compromisso não tanto com um consenso, mas sobretudo com os termos em função dos quais podemos traçar e operar as nossas discordâncias. Assim, não é possível dialogar com quem está descolado de um plano mínimo de evidências compartilhadas e sedimentadas as quais servem de base para o início do debate. Quando a fantasia passa a governar a política e a história é porque nem a história, nem a política importam mais. Apenas a verdade que neste caso é sinônimo da estupidez de quem se conserva na mentira.

Érico Andrade - Psicanalista, filósofo e professor de filosofia da UFPE


Voltar


Comente sobre essa publicação...