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Segunda-Feira 21.out.2019

Ano VIII - Nº 368

Mundo

Notre-Dame, Moçambique e a solidariedade seletiva dos religiosos

Por que será que a reconstrução de uma igreja europeia gerou mais solidariedade do que milhares de vidas africanas?

Postado em 23 de Abril de 2019 - Franklin Félix – Carta Capital

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“Se alguém tiver recursos materiais e, vendo seu irmão em necessidade, não se compadecer dele, como pode permanecer nele o amor de Deus?” - João 3:17

Poucas horas após o lamentável incêndio que atingiu a Catedral de Notre-Dame, em Paris, França (tida como berço do espiritismo, pois lá nasceu Allan Kardec, principal expoente da doutrina espírita), empresas, milionários franceses (e até uma brasileira), além de cidades europeias, se mobilizaram para contribuir com a reconstrução do monumento histórico.

Para muitos, a Catedral de Notre-Dame não é apenas uma igreja, mas um dos símbolos de Paris. Erguida no marco zero da capital francesa, era um dos pontos turísticos mais visitados da cidade, recebendo, por mês, aproximadamente um milhão de visitantes.

Diante da comoção, brasileiros/as foram às redes sociais para comparar a “generosidade” dos milionários europeus com a da elite do Brasil quando o Museu Nacional, o mais antigo do país, pegou fogo em setembro do ano passado no Rio de Janeiro, somando pouco mais de 960 mil reais em doações até agora.

“Milhões para a Notre-Dame, mas e os pobres?” Essa solidariedade seletiva também incomodou os próprios franceses que foram às ruas na 23ª manifestação consecutiva do movimento gilets jaunes (coletes amarelos), que desde o fim de 2018 tem sido um dos principais obstáculos para o governo de Emmanuel Macron.

Teve também os que lembrassem que, mês passado, Moçambique, Zimbábue e Malaui, três países africanos, foram os mais afetados pela passagem do ciclone Idai e não conseguiram, até hoje, um terço das doações ofertadas para a reconstrução da igreja francesa.

São mais de 1.000 mortos e mais de 1,5 milhão de pessoas afetadas. Em menos de 1 semana as doações para a catedral de Paris já eram 16 vezes maiores do que para as vítimas africanas.

Logo após a tragédia, tive o prazer de estar com o ativista social moçambicano Boaventura Monjane, membro da organização Via Campesina Internacional. Durante evento organizado pela Abong (Associação Brasileira de ONGs) em São Paulo, o ativista afirmou que os atos de solidariedade com Moçambique e outros países atingidos pelo ciclone Idai não devem ocorrer apenas em momentos de desastre ambiental. Monjane participou da mesa “Articulações internacionais na defesa da democracia” e destacou que os diversos grupos internacionais que estão trabalhando direta ou indiretamente no auxílio da população atingida pela tragédia ambiental no sudeste africano deveriam “criar vínculos” com o país. “Neste momento, em Moçambique, existem diversos grupos de diversos países colaborando com a população. Essa é uma grande oportunidade para criarmos vínculo. A solidariedade internacional precisa ultrapassar momentos de desastre”, afirmou o ativista. Monjane ainda criticou o modelo econômico adotado por Moçambique e disse que o “triunfo do neoliberalismo na África Austral” impede mais ações solidárias com as nações desta região. “Estes países estão em eterna transição, eles nunca cruzaram a linha de fato. Isso é resultado do neoliberalismo, uma política que feriu a solidariedade e o pan-africanismo”, disse.

Por que será que a reconstrução de uma igreja europeia gerou mais solidariedade do que milhares de vidas africanas? Por causa do racismo estrutural, um conjunto de práticas, hábitos, situações e falas embutidos em costumes e que promove, direta ou indiretamente, a segregação ou o preconceito racial e se manifesta de maneira ainda mais branda e quase imperceptível, e para mim, ainda mais perigoso, por ser camuflado e de difícil percepção. Infelizmente, para certa parcela da população (branca), há vidas tidas como matáveis.

Silvio Luiz de Almeida, diretor-presidente do Instituto Luiz Gama, presidente do IBCCRIM e professor de importantes universidades brasileiras, em seu livro “O que é racismo estrutural?” provoca a reflexão sobre os conceitos de racismo como fundamento estruturador das relações sociais, com base em autores reconhecidos pelos estudos de teoria crítica racial, colonialismo, imperialismo e capitalismo, motivo pelo qual o livro evidencia a importância de compreensão dos fatos históricos, sociais, políticos, jurídicos e econômicos para se entender a existência do racismo.

Para finalizar, recorremos às palavras de Matheus 25:35-40:

“Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram. Então os justos lhe responderão: Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar? O Rei responderá: Digo a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram.”


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