Semana On

Quinta-Feira 18.jul.2019

Ano VII - Nº 356

Mundo

Sri Lanka, um país asiático nas mãos do terror islamista?

Atentados que mataram e feriram centenas chamam a atenção para tensões sociais e religiosas no país insular do Oceano Índico de maioria budista, onde há dez anos a violência comunal parecia relativamente sob controle

Postado em 23 de Abril de 2019 - Shamil Shams – DW

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O governo do Sri Lanka declarou que o grupo fundamentalista islâmico local National Thowfeek Jamaath (NTJ) estaria por trás dos atentados fatais a bomba do Domingo de Páscoa, resultando em quase 310 mortos e outras centenas de feridos.

Segundo o porta-voz Rajitha Senaratne, que também integra o gabinete, o governo estaria examinando as ramificações do NTJ. "Não vemos como uma pequena organização como esta, neste país, pôde fazer tudo isso. Estamos agora investigando o apoio internacional a eles, suas outras conexões, como conseguiram os homens-bomba e bombas como essas."

Noticiou-se que em 11 de abril o chefe da polícia nacional divulgara uma advertência segundo a qual uma "agência internacional de inteligência" teria advertido que o grupo planejava atentados contra igrejas e contra a Alta Comissão Indiana. No domingo, as autoridades anunciaram a prisão de 13 cidadãos cingaleses suspeitos de ligação com os ataques.

"Não sabemos muito sobre o NTJ, mas ele parece semelhante a outros grupos terroristas ativos no Sul Asiático, como o Ansarullah Bangla Team (ABT) em Bangladesh. Ambos são aparentemente inspirados na Al Qaeda", explicou à DW Siegfried O. Wolf, especialista na região pelo Fórum Democrático do Sul Asiático, sediado em Bruxelas.

"Sua meta principal é espalhar uma ideologia jihadista e criar medo e ódio. Ele é também contra qualquer tipo de reconciliação nacional, e portanto trabalha para manter vivos os conflitos étnicos e religiosos."

Nos últimos anos, têm sido tensas as relações entre a comunidade budista majoritária do Sri Lanka e a minoria muçulmana. Em março de 2018 o governo declarou estado de emergência em nível nacional, a fim de coibir a violência comunitária entre muçulmanos e budistas. Segundo analistas, porém, apesar de devastado por décadas da insurgência separatista tâmil esmagada pelos militares em 2009, o estado insular tem pouco histórico de violência islamista.

A maioria da população cingalesa é budista, com apenas 10% de fé islâmica e 6% de cristãos. "Os grupos fundamentalistas islâmicos locais não são muito fortes. Mas também é verdade que a maioria dos suspeitos pelas detonações do domingo pertence à comunidade muçulmana", observa o ativista cingalês dos direitos humanos S.T. Nalini.

O analista Wolf observa que, assim como muitos grupos islamistas locais ativos no Sul da Ásia, também o NTJ quer alastrar o movimento jihadista por aquela ilha do Oceano Índico.

"Grupos terroristas internacionais estão cada vez mais se apoderando de conflitos locais para estender o jihad global a diferentes partes do mundo. O conflito dos uigures na província ocidental chinesa de Xinjiang e o dos rohingyas em Myanmar são dois exemplos. Em ambos os casos, as organizações globais procuram instrumentalizar problemáticas locais para ampliar sua influência."

As organizações tentam igualmente ganhar atenção internacional e adquirir novos recursos. "O Sri Lanka se tornou uma das mais populares destinações turísticas, nos últimos dez anos, através dos tremendos esforços do governo. Atentados como esses prometem atenção internacional", diz Wolf, segundo quem as igrejas da ilha são alvos fáceis para os terroristas.

Além disso, os grupos militantes cingaleses têm um longo histórico de se associar a organizações internacionais de terrorismo. "A necessidade de gerar fundos levou até mesmo grupos separatistas como os Tigres de Tâmil a procurarem ajuda externa."

Os atentados também suscitam temores de uma ressurgência da violência comunal que tem repetidamente afligido o país no Oceano Índico. No fim do domingo, a polícia informou que uma mesquita do noroeste sofrera um atentado a bomba de gasolina, e duas lojas de proprietários muçulmanos, no oeste, foram incendiadas.

As explosões representam, ainda, um forte golpe para as autoridades cingalesas, que nos últimos dez anos vinham, em parte, conseguindo manter sob controle a violência no país. As décadas de insurgência no norte do país mataram milhares, até que o ex-presidente Mahinda Rajapaksa derrotou o movimento separatista Liberation Tigers of Tamil Eelam (LTTE) numa operação militar, em 2009.

No entanto, a ausência de violência não significa que o Sri Lanka superara suas graves cisões sociais e políticas, alerta Siegfried Wolf. "O conflito étnico-religioso entre a maioria cingalesa budista e a minoria tâmil hindu terminou em 2009, mas o conflito ainda existe no país, pois não houve qualquer solução política para esse problema multifacetado."

Além disso as tensões econômicas e financeiras estariam crescendo devido à implementação da infraestrutura para a Iniciativa do Cinturão e Rota da China. "Apesar do incremento do turismo, o desenvolvimento desigual e as intervenções estrangeiras também estão funcionando como um catalizador para conflitos políticos no Sri Lanka", explica o analista do Fórum do Sul Asiático.

Atentados foram retaliação a Christchurch

As autoridades do Sri Lanka afirmaram que os atentados foram uma espécie de retaliação, por parte de radicais muçulmanos, ao massacre em mesquitas ocorrido em março na cidade de Christchurch, na Nova Zelândia.

"As investigações preliminares revelaram que o que ocorreu no Sri Lanka foi uma retaliação ao ataque contra muçulmanos em Christchurch", disse o vice-ministro da Defesa, Ruwan Wijewardene, ao Parlamento cingalês, em referência ao massacre que deixou 50 mortos na cidade neozelandesa.

"Este grupo National Thowfeek Jamaath (NTJ), que realizou os ataques, tinha ligações estreitas com a JMI, conforme foi agora revelado", disse Wijewardene, numa aparente referência à organização Jamaat-ul-Mujahideen India.   

Pistas de que ataque estava próximo

As primeiras investigações sugerem que um dos ataques mais mortíferos desde o 11 de setembro poderia ter sido evitado. O Sri Lanka foi informado dez dias antes sobre a possibilidade de ataques de um grupo radical islâmico contra templos católicos no país.

Mas o alerta de serviços de inteligência não foi corretamente conduzido pelas autoridades cingalesas. Por trás disso, segundo a imprensa independente local, estaria uma rixa política entre o presidente e o primeiro-ministro do país, Ranil Wickremesinghe, que eclodiu numa crise política no ano passado. O premiê tem sido deixado de fora dos comunicados de inteligência.

Autoridades cingalesas revelaram que haviam recebidos alertas há cerca de duas semanas sobre a possibilidade de ataques de um grupo de muçulmanos radicais. Segundo o jornal New York Times, um alto membro da polícia do Sri Lanka advertiu o governo sobre o risco de atentados contra igrejas no país e que a minoria cristã do país estava na mira do National Thowfeek Jamaath.

Segundo um documento visto pela agência de notícias Reuters, a polícia do Sri Lanka havia sido alertada sobre um possível ataque a igrejas por um grupo islâmico doméstico pouco conhecido. Mas Wickremesinghe não foi avisado do relatório, datado de 11 de abril. O relatório mencionava o alerta emitido por uma agência de inteligência estrangeira sobre o grupo Thowfeek Jamaath, segundo o ministro da Saúde, Rajith Senaratne.

"Quando perguntamos sobre o relatório de inteligência, o primeiro-ministro não estava ciente", disse Senaratne. O ministro acrescentou que não ficou claro se o presidente estava ciente do relatório, mas sublinhou que a principal entidade de segurança do Sri Lança, o Conselho de Segurança, reporta a Sirisena.

"Como governo temos que pedir muitas, muitas desculpas às famílias e suas instituições sobre o incidente", disse Senaratne.

O presidente do Sri Lanka demitiu Wickremesinghe em outubro por diferenças políticas, mas teve que reintegrá-lo semanas depois, após sofrer pressão da Suprema Corte do país. O relacionamento entre Sirisena e Wickremesinghe não melhorou, e suas diferenças teriam atrasado decisões do governo.

Sirisena estava fora do país quando ocorreram os ataques. Wickremesinghe convocou uma reunião do Conselho de Segurança, mas seus membros não compareceram. Na segunda-feira, o premiê participou de uma reunião convocada por Sirisena – foi a primeira participação num encontro do Conselho de Segurança de Wickremesinghe desde a crise política.

"Esta é a primeira vez na história que vemos que o Conselho de Segurança se recusou a ir a uma reunião com o primeiro-ministro do país", disse Senaratne. O ministro disse ainda que as forças de segurança invadiram os locais de treinamento do grupo islâmico radical Thowfeek Jamaath. O governo comunicou que acredita haver ligações internacionais nos ataques.

"Não acreditamos que uma pequena organização possa fazer tudo isso. Estamos investigando o apoio internacional a eles e outras ligações – como eles recrutaram os homens-bomba e produziram bombas como estas", disse Senaratne.


Voltar


Comente sobre essa publicação...