Semana On

Segunda-Feira 14.out.2019

Ano VIII - Nº 367

Especial

Militares x Olavistas

Intrigas e fome de poder

Postado em 23 de Abril de 2019 - Nathalia Passarinho (El País), Igor Gielow, Thais Bilenky, Talita Fernandes e Gustavo Uribe (Folha de SP), Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL)

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Após pouco mais de 100 dias de governo Bolsonaro, as divergências entre os dois principais grupos que ocupam cargos no Executivo - a ala militar e a olavista- têm se tornado mais evidentes, principalmente na área de educação e relações exteriores.

A disputa interna por cargos e protagonismo transbordou para ataques pessoais nas redes sociais e na imprensa. No fim de semana, Carlos Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, publicou no canal do pai no YouTube um vídeo com críticas do escritor Olavo de Carvalho a militares e a deputados e senadores eleitos sob a bandeira da "nova política".

No vídeo, o "guru ideológico do atual governo" diz que o presidente é um "mártir" por aguentar os "filhos da p..." ao redor dele. Segundo ele, os militares acabaram com a direita do país após tomar o poder, abrindo caminho para "os comunistas" assumirem depois.

"Ele criaram o PT (...) Os milicos têm que começar por confessar seus erros antes de querer corrigir os erros dos outros", afirmou. Depois que o vídeo publicado no canal do presidente virou notícia, ele foi apagado (assista abaixo).

A ala do governo ligada às Forças Armadas interpretou a publicação de um vídeo como um recado do presidente para tentar moderar as movimentações de seu vice, general Hamilton Mourão (PRTB), que assumiu posição de ataque contra Olavo. "Eu acho que ele deve se limitar à função que ele desempenha bem, que é de astrólogo. Ele pode continuar a prever as coisas, que ele é bom nisso", disse, ironizando uma das atividades anteriores do escritor. Segundo o vice, "Olavo perdeu o timing, não está entendendo o que está acontecendo no Brasil".

Mourão disse acreditar que Bolsonaro não sabia do conteúdo do vídeo. Generais, no entanto, dizem estar convencidos de que o presidente autorizou a postagem comandada por seu filho Carlos.

Em nota lida pelo general Otávio do Rêgo Barros, porta-voz da Presidência da República, Bolsonaro afirmou que as recentes declarações de Olavo "contra integrantes dos poderes da República não contribuem para a unicidade de esforços e consequente atingimento de objetivos propostos em nosso projeto de governo". Na avaliação de um importante integrante da ativa das Forças Armadas, o episódio foi o mais sério desgaste desde que as rusgas entre a ala ideológica do entorno presidencial tomaram corpo contra os militares.

Depois de apagar o vídeo de suas contas nas redes sociais, Bolsonaro afirmou que as críticas do escritor a militares "não contribuem" com o governo.

"Suas recentes declarações [de Olavo de Carvalho] contra integrantes dos poderes da República não contribuem para a unicidade de esforços e consequente atingimento de objetivos propostos em nosso projeto de governo", afirmou o presidente por meio de nota lida pelo porta-voz da Presidência, general Otávio Rêgo Barros.

Rêgo Barros ponderou, contudo que Olavo, considerado guru da nova direita, "teve um papel considerável na exposição das ideias conservadoras que se contrapuseram à mensagem anacrônica cultuada pela esquerda e que tanto mal fez ao país". 

O porta-voz disse ainda que o presidente "tem convicção de que o professor, com seu espírito patriótico, está tentando contribuir com a mudança e com o futuro do Brasil".

Reinscidente

Mesmo após ter sido repreendido pelo presidente, Olavo de Carvalho divulgou novo vídeo (na terça, 23) em que faz novas críticas à classe militar, sobretudo a "generais incultos e presunçosos".

Na gravação, o ideólogo de direita afirmou que a sua análise sobre a atuação das Forças Armadas no regime militar (1964-1985) é uma "tese histórica absolutamente irrefutável" e ressaltou que nenhum egresso de academia militar tem mínima condição de contestá-la.

"O que digo das Forças Armadas e da sua atuação no regime militar é uma tese histórica absolutamente irrefutável. Não podendo contestá-la, generais incultos e presunçosos tentam reduzi-la a uma conspiração jornalística contra suas augustas pessoas", disse.

"Afirmo categoricamente: nenhum egresso de academia militar tem hoje a mais mínima condição de impugnar a minha análise ou sequer de apreender o alcance histórico do que estou dizendo. Esperneando histericamente contra a verdade histórica, só mostram o quanto é exíguo o seu horizonte de consciência e invencível a sua submissão aos critérios politiqueiros de julgamento", afirmou Olavo.

O escritor disse ainda que burocratas "fardados ou civis" não devem temê-lo, porque ele não pretende ocupar postos no governo e ter "o tipo de prestígio" deles. Ele ressaltou que jamais se rebaixou e não se rebaixará para disputar o que chamou de "supremo valor da existência" daqueles criticados por ele.

"Moldada por vigaristas e analfabetos funcionais, ávidos de poder e de dinheiro, a opinião pública só entende todas as afirmações, especialmente as minhas, como tomadas de posição a favor deste ou daquele grupo. Mesmo as análises que faço de acontecimentos de mais de meio século atrás são reduzidas a fusquinhas e caras feias contra este ou aquele alto funcionário, como se eu estivesse disputando o seu cargo", afirmou.

Panos quentes, pero no mucho

Militares que trabalham no Palácio do Planalto coordenam uma estratégia para tentar amenizar a pauta negativa gerada pelo desconforto da família do presidente Jair Bolsonaro com o vice.

Os generais Augusto Heleno, do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), e Otávio Rêgo Barros, porta-voz da Presidência, mantêm postura de discrição para não melindrar Bolsonaro, ao mesmo tempo em que, nos bastidores, atuam, eles próprios e suas equipes, para evitar ruídos.

Na avaliação interna das pastas, os constantes contrapontos de Mourão a Bolsonaro nos mais diversos assuntos e a reação do presidente de não frear especulações sobre os interesses do vice azedaram o clima.

 O estafe militar do Planalto trabalha para integrar as estruturas de comunicação da Vice e da Presidência, hoje apartadas, em uma tentativa de evitar o que consideram mal-entendidos.

Avalia-se que Mourão, desde a transição, cometeu alguns excessos, não exatamente por emitir sua opinião, que é um traço de sua personalidade, mas por insistir na visibilidade em momentos que requeriam o contrário.

A postura fez interlocutores frequentes de Mourão, como o general Heleno, recomendarem mais discrição ao vice. Outros como o general Santos Cruz, ministro da Secretaria de Governo, aconselharam Bolsonaro a não dar espaço para pautas negativas.

O problema, apontam generais que atuam como bombeiros no episódio, é que Jair Bolsonaro se recusou a incluir o filho na leve reprimenda que fez ao escritor pelo vídeo em que Mourão e os militares são criticados.

"De uma vez por todas o presidente gostaria de deixar claro o seguinte: quanto a seus filhos, em particular o Carlos, o presidente enfatiza que ele sempre estará a seu lado. O filho foi um dos grandes responsáveis pela vitória nas urnas, contra tudo e contra todos", afirmou Rêgo Barros na terça-feira (23).

Ao falar sobre Carlos, segundo o porta-voz, Bolsonaro disse que ele "é sangue do meu sangue".

O presidente fez um afago a Mourão dizendo que ele é o subcomandante do governo e que topou o desafio das eleições, acrescentando que o vice tem dele "consideração e apreço".

Segundo integrantes do governo, o presidente também manteve inalterado o acesso de Carlos às suas redes sociais.

Militares do Planalto comemoraram o que julgam uma mudança de tom de Bolsonaro no Twitter, sem criar polêmicas na rede nos últimos dias. Mas o Facebook e o YouTube ainda são canais em que o filho reina quase sozinho.

No dia 23 Carlos voltou à carga contra Mourão, somando-se aos esforços de Olavo de Carvalho e Filipe Martins, assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, de descredibilizar o vice. "Esse jogo está muito claro", escreveu Carlos ao publicar o teor do convite elogioso aceito pelo vice para palestrar no Wilson Center, nos Estados Unidos, duas semanas atrás.

"Se não visse [o convite], não acreditaria que [Mourão] aceitou com tais termos", disse o vereador. O convite, de 9 de abril, apontava o vice como "uma voz de razão e moderação, capaz de orientar a direção em assuntos nacionais e internacionais".

Em uma terceira postagem no dia sobre o vice, Carlos afirmou que, após o pai ser esfaqueado em plena campanha eleitoral em Minas, "o tal de Mourão disse que aquilo tudo era vitimização". O vice evitou rebater as críticas. "Todo mundo emite a sua opinião, tal e coisa. A minha mãe sempre dizia uma coisa: 'Quando um não quer, dois não brigam'. Está certo? Então, essa é a minha linha de ação. Vamos manter a calma", disse.

O general da reserva afirmou que Bolsonaro tem a sua "forma de pensar" sobre o assunto. "O presidente é o presidente, né? Aguarda, né? Filho é filho", concluiu.

Para oficiais generais que buscam apaziguar a explosiva crise interna, a saída ideal seria o presidente declarar que o filho tem direito à sua opinião, mas que ela não reflete o que pensa o pai.

Mas a nota lida na segunda pelo porta-voz, Otávio do Rêgo Barros, apenas tratou de dizer que Olavo, elogiado como patriota, talvez atrapalhasse o governo com suas declarações.

Bolsonaro foi intransigente, lembrando o que já disse em público: que considera Carlos um dos principais responsáveis por sua eleição, ao comandar sua estratégia digital, e que o filho mereceria uma cadeira no ministério.

O mal que sai pela boca

Mesmo que o vereador Carlos Bolsonaro tenha acesso às contas de redes sociais do pai, o presidente havia dito que as postagens têm 100% de sua concordância. Ou seja, ele deve concordar que "os milicos têm que começar por confessar os seus erros antes de querer corrigir os erros dos outros" – uma das frases do escritor e polemista no vídeo.

Não é novidade o descontentamento de Bolsonaro com seu vice, que tem adotado uma linha mais pragmática, racional e madura do que ele, o que atrai a simpatia de parte da elite política e econômica. Isso tem gerado conflitos com a ala de extrema direita de seu governo e o seu guru, Olavo de Carvalho.

A menos que venha a público um pedido de desculpas pelo ocorrido, o que vai ficar registrado à população é que o presidente endossou uma crítica pública à ala militar do governo. Com isso, mostra-se um presidente frágil, que ora fica em silêncio diante das disputas internas de seu time, ora não tem coragem de expressar sua insatisfação diretamente e se aproveita de declarações de outras pessoas.

Olavo de Carvalho já chamou os militares do governo Bolsonaro de "bando de cagões". Além de Hamilton Mourão, ele demonstra especial afeto pelo general Santos Cruz, ministro-chefe da Secretaria de Governo. Afirmou que ele "é apenas um monstro de auto-adoração e empáfia", que "obviamente só pensa em si mesmo" e que "simplesmente não presta".

Há uma disputa entre a ala militar e a ideológica neste momento, com uma vantagem do grupo mais estridente. A primeira tenta aparar as arestas extremistas do presidente e defender os interesses das Forças Armadas. A segunda, deseja ver o circo pegando fogo, porque, da cinzas, ressurgiria um novo Brasil. Ou, ao menos, as chamas manteriam os seguidores piromaníacos alertas para defender o governo diante de sua, até agora, incompetência. Acredita que Bolsonaro teria a maioria da população a seu favor se quiser refundar a República.

Até agora, o escritor tem sido útil para a Presidência da República, pois gera os ruídos junto à esfera pública que ela precisa para governar. Mas é Jair quem decide em última instância e é dele, e não do polemista ou de Carlos Bolsonaro, a responsabilidade pela nomeação de ministros ruins, postagens agressivas em redes sociais e por um governo que não deslancha.

Com a anuência do fogo-amigo da própria Presidência da República, surpreende o sangue frio dos militares até agora, que seguem considerando Bolsonaro inimputável pelo que acontece. Mas o que acontece quando eles, de fato, se irritarem é uma incógnita.

Hidra de quatro cabeças

Os tuítes que praticamente acusam de traidor o vice, de Carlos. Mas não são uma reação destemperada do responsável pelas redes sociais da Presidência da República e sim algo que vai ao encontro da opinião de seu pai e seus irmãos, insatisfeitos com o protagonismo que o general vem assumindo ao se vender como alguém mais equilibrado e racional que o presidente.

Carlos, Eduardo, Flávio e Jair compõem juntos o mesmo animal político. Por isso é inútil qualquer tentativa de afastar o presidente da República das polêmicas levantadas pelo vereador carioca, pelo deputado federal ou pelo senador nas redes sociais. Não é que Jair tolera as estripulias deles, todos atuam em sintonia, nem sempre quanto à forma, mas certamente com relação ao conteúdo.

Cada um tem uma função nesse processo – cultivar e defender a imagem do presidente junto ao público, amealhar apoio e visibilidade internacional, garantir suporte interno de ruralistas, evangélicos e policiais, ser um grande animador de torcida. Mas, para além de implantar uma agenda conservadora e reacionária, há um projeto, que é a própria manutenção desse animal político no poder.

Não admiraria, portanto, que além de Bolsonaro tentar a reeleição em 2022 – provavelmente, sem Hamilton Mourão na chapa, esse animal político tentará calçar o caminho para algum de seus outros membros. Não logo depois, mas após as disputas que contarão com Sérgio Moro e João Doria.

O que Bolsonaro não pode falar, falam seus filhos. Se eles não podem dizer, manifesta-se sua rede de apoio ideológica dentro do governo. Quando isso não é desejável, declarações de Olavo de Carvalho preenchem o vazio. O polemista é útil pois atua como um grilo falante do governo e um porta-voz do lado B. Será mantido por perto enquanto servir ao seu propósito.

Esse processo de engenharia política que criou uma Hidra com quatro cabeças não é de agora, mas foi se construindo ao longo dos anos. Provavelmente, nem eles sabiam que se tornariam um só.

Mas quando um político que nunca teve grandes aliados, nunca fez parte de um partido político de forma orgânica, nunca desenvolveu coletivamente um projeto de país, ascende ao poder, a tendência é dividir poder real com as únicas pessoas em quem realmente confia, neste caso, a família.

O problema é que, ao contrário da história da Hidra de Lerna na mitologia grega, que ganhava uma nova cabeça cada vez que uma das suas era cortada, a morte política de qualquer um dos Bolsonaros pode ferir o animal inteiro. Não à toa, a operação abafa em cima do caso envolvendo Fabrício Queiroz e as relações de milicianos com o gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro – que seguem sem resposta.

O fato de Mourão estar bem posicionado caso sobre uma bola para ele não diria muita coisa caso o governo federal soubesse que está indo bem. O principal adversário de Bolsonaro até agora não é o Congresso Nacional, a imprensa, as feministas, o comunismo. É ele mesmo, com todas as suas golden showers.

O que mais assusta, contudo, é que o presidente da República tenha decidido junto com seus filhos adotar a estratégia de atacar Mourão on-line enquanto faz cara de paisagem off-line. Deveria ter uma boa conversa com seu vice e aparar arestas. Mais do que gerar uma crise institucional, guerrear por tuítes ou em recadinhos pela imprensa, bombados por teorias da conspiração, não demonstra muita maturidade dos envolvidos.

Talvez por ter ouvido sobre a tática do "dividir para governar", Bolsonaro esteja mantendo o governo em constante conflito. Se for assim, ninguém lhe explicou que é para dividir o inimigo, não os aliados.

Conflito

Os militares têm respondido aos ataques tentando minimizar a importância de Olavo de Carvalho, conhecido como "mentor da nova direita". "Não posso fazer nenhum comentário porque para mim (ele) não tem importância nenhuma", disse recentemente o general Santos Cruz, ministro-chefe da Secretaria-Geral de Governo, ao ser perguntado sobre a influência de Olavo de Carvalho no governo.

Radicado nos Estados Unidos desde 2005, o escritor de 71 anos se popularizou ao criticar a esquerda e defender posições conservadoras em livros e nas mídias sociais nas últimas décadas. Nos últimos dois anos, ele se aproximou dos filhos de Bolsonaro, principalmente do deputado federal Eduardo Bolsonaro e, em 2018, apoiou abertamente a candidatura do militar reformado.

Desde então, conseguiu emplacar "olavetes"- como ele próprio já se referiu a seus seguidores- em postos no Palácio do Planalto e em três ministérios: Educação, Relações Exteriores e na Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

Já os militares comandam quatro pastas de peso: Defesa, Segurança Institucional, Secretaria de Governo e Infraestrutura, além da Vice-Presidência.

O capítulo mais recente da divisão entre esses dois grupos foi a disputa pelo comando do Ministério da Educação. Militares e seguidores de Olavo de Carvalho tentavam emplacar nomes seus para substituir o colombiano naturalizado brasileiro Ricardo Vélez Rodriguez, demitido após se desgastar com uma série de medidas e declarações polêmicas, como a de que iria rever material didático das escolas sobre o golpe militar de 1964.

Bolsonaro acabou optando por Abraham Weintraub, diretor executivo do Centro de Estudos em Seguridade da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ex-aluno de Olavo de Carvalho.

A escolha de Weintraub foi vista por muitos como uma vitória da ala ideológica do governo, enquanto alguns acham que a opção por um nome não diretamente indicado pelo guru, embora ex-aluno dele, foi uma maneira que Bolsonaro encontrou para contornar a insatisfação dos militares.

Mas, se o MEC se tornou palco central do racha entre militares e olavistas, nas últimas semanas, a divergência entre os dois grupos esteve longe de se concentrar nesse ministério.

Confira quatro pontos de controvérsia no governo Bolsonaro que evidenciam essas diferenças: educação, aliança com os Estados Unidos, aproximação com Israel e intervenção na Venezuela.

1) Educação

Na área da educação, tanto os expoentes das Forças Armadas quanto o grupo de seguidores de Olavo de Carvalho compartilhem da ideia de que a escola deve estimular o civismo, o patriotismo e a valorização de símbolos nacionais, como hino e bandeira.

Mas a forma como isso deve ser feito é alvo de divergências. E, embora militares e parte dos indicados por Olavo de Carvalho acreditem que a visão predominante nos materiais didáticos das escolas sobre a ditadura militar seja, na visão deles, excessivamente negativa para as Forças Armadas, a maior parte dos militares em postos no governo não encara rever essa narrativa e trocar os livros escolares como prioridade.

Antes de ser demitido do MEC, Vélez Rodrigues disse, em entrevista ao jornal Valor Econômico, que pretendia mudar a forma como o golpe de 1964 e a ditadura militar são retratados nos livros didáticos, "para dar uma visão mais ampla da história".

Ainda que essa decisão pudesse parecer de interesse dos militares, ela foi mal recebida pelo alto escalão das Forças Armadas, para quem este não seria o melhor momento para discutir um tema tão polêmico.

"Se o ponto é 1964 ou não é, acho que estamos perdendo tempo em discutir uma coisa de 55 anos atrás quando temos um monte de coisas mais importantes para discutir", disse o general Santos Cruz, ao ser perguntado sobre o que achava da proposta de rever materiais didáticos.

Outra diferença entre olavistas e militares, segundo a professora de ciência política da PUC-RJ Vera Lúcia Chaia, é a visão sobre a ciência. Enquanto, Olavo de Carvalho e alguns de seus seguidores rejeitam ideias praticamente consensuais na comunidade científica - como a do papel da ação humana no aquecimento global -, os militares parecem apresentar uma visão mais "pragmática" e voltada à defesa de um ensino pautado na visão científica predominante.

"Os olavistas, de certa forma, rejeitam a ciência quando centram esforços na defesa do projeto Escola Sem Partido, nas críticas ao educador Paulo Freire, que é citado em publicações científicas do mundo todo, e quando negam as mudanças climáticas provocadas pelos homens", afirmou Chaia.

"Já os militares pensam o Brasil como integrante de uma ordem internacional, uma ordem global. Na visão dos militares, existe sim uma ciência a ser preservada."

Para a professora de ciência política Maria do Socorro Braga, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), militares e olavistas também divergem quanto à abrangência das reformas necessárias no sistema de ensino. Os seguidores de Olavo de Carvalho defendem uma mudança ampla na metodologia de ensino das escolas brasileiras.

Eles são particularmente contrários ao método construtivista, que entende que o aluno deve ser "ensinado a aprender". Por essa metodologia, o aluno está no centro do processo de aprendizado e deve chegar ao conhecimento por si, tendo o professor como mediador. O objetivo é estimular não só o acúmulo de conteúdos, mas também uma reflexão crítica sobre o que é aprendido.

Esse método se tornou alvo de ataques virulentos de Olavo de Carvalho e seus seguidores. Em seu blog, o guru do governo Bolsonaro escreveu que o "socioconstrutivismo" retarda a alfabetização dos alunos no Brasil e é instrumento do "marxismo" para transformar os alunos em "agentes da transformação social".

Bolsonaro, que compartilha de muitas das visões de Olavo de Carvalho, já defendeu que o ensino brasileiro deve focar na transmissão de conteúdos tradicionais, como "português e matemática".

"Nós queremos uma garotada que comece... Não a se interessar por política, como é atualmente dentro das escolas, mas que comece a aprender coisas que possam levar a conquistar espaço no futuro", disse o presidente, na cerimônia de posse do novo ministro da Educação.

Segundo a professora Maria do Socorro Braga, diferentemente dos olavistas, os militares não manifestaram o interesse de reformar o sistema de educacional para promover o método tradicional de ensino - baseado no conteúdo, na disciplina e tendo o professor como único transmissor do conhecimento.

"Os militares não compartilham dessa visão mais conservadora da educação. São favoráveis à disciplina e ao uso de símbolos nacionais, mas não estão fazendo um movimento para mudar as diretrizes da educação no país", afirmou.

O general da reserva Eduardo Schneider, que já atuou no Gabinete de Segurança Institucional da Presidência em governos anteriores, avalia que o problema da educação brasileira, para os militares, não está na metodologia de ensino em si.

Segundo ele, os próprios colégios militares priorizam um formato de ensino focado em levar o aluno a aprender por si, que estimula trabalhos em grupos e uma "construção coletiva" do conhecimento - técnicas do modelo construtivista.

"Desde os 90 que mudou-se a orientação nas escolas militares para colocar o aluno no centro do processo de aprendizagem, seguindo a tese de que ele precisa aprender a aprender. Pesquisas apontam que esse método leva a um aprendizado com profundidade", disse.

"O problema é que alguns porta-vozes dessa metodologia, em algumas instituições do país, agregavam a essa construção mensagens políticas", opina o general da reserva, cujos dois filhos estudaram em colégios militares.

"Temos que voltar a um ponto de equilíbrio, mas sem rejeitar o método científico."

2) Relação com os EUA

Apesar do destaque na mídia, nas últimas semanas, dado à disputa entre militares e olavistas pelo controle do MEC, é na área de relações exteriores que fica mais clara a diferença de pensamento entre os dois grupos, segundo cientistas políticos ouvidos.

Indicado por Olavo de Carvalho, o ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, tem defendido, entre outros pontos, um alinhamento do Brasil com os Estados Unidos, distanciamento da China, aliança com Israel, e maior interferência brasileira na resolução da crise da Venezuela.

Todos esses pontos são vistos com reserva pela ala militar, para quem a soberania do Brasil e os interesses comerciais e políticos do país devem preponderar nas decisões de impacto internacional.

Especificamente no caso da aliança com os Estados Unidos - Bolsonaro tem se aproximado fortemente do presidente Donald Trump e aderido a críticas do governo americano à China, que enfrenta uma guerra comercial com os EUA.

A questão é que os chineses são os principais parceiros comerciais do Brasil, comprando 30% das nossas commodities, como alimentos e matérias-primas.

Embora os militares também optem por alianças com governos de direita e centro-direita, eles defendem que o Brasil adote uma postura de neutralidade em questões controversas, que permita ao país manter boas relações com "gregos e troianos".

"A defesa dos militares é em relação à soberania nacional, sem alinhamento automático com os Estados Unidos e o governo Trump. Não é à toa que Mourão está circulando em várias partes do Brasil e visitando alguns países, como os Estados Unidos. Ele está manifestando essas posições divergentes do seu grupo em relação a Olavo de Carvalho", afirma a professora de ciência política da PUC-RJ Vera Lúcia Chaia.

"Os militares incorporaram o globalismo e defendem que as relações diplomáticas do Brasil com diferentes países devem ser preservadas."

O general da reserva Eduardo Schneider diz que é natural que o Brasil busque uma relação mais próxima com os Estados Unidos, mas critica a possibilidade de um alinhamento automático (que pressupõe um apoio irrestrito).

Segundo ele, quando um posicionamento americano não se enquadrar nos interesses brasileiros, o Brasil deve assumir uma postura de "neutralidade".

"Todos os países, mais do que amizades, eles têm interesses. O alinhamento acontece quando os interesses estão alinhados. Quando eles não se alinham, cada país tem que preservar os interesses que lhe são vitais", disse.

"Talvez uma potência global como os Estados Unidos enxergue a China como um competidor global. Nós analisamos que é importante para o Brasil manter uma relação com a China, porque é um ator importante. Um conflito com a China não nos interessa de jeito nenhum", afirma Schneider, que já atuou em missões do Exército com Mourão e o general Santos Cruz, ministro-chefe da Secretaria de Governo.

Essa visão é divergente da manifestada por Ernesto Araújo. No mês passado, em aula magna para alunos do Instituto Rio Branco, que forma novos diplomatas, o ministro de Relações Exteriores argumentou que o Brasil "estagnou" tendo a China como principal parceiro comercial.

"O Brasil foi o país que mais cresceu no mundo quando seu principal parceiro de desenvolvimento eram os EUA, e depois estagnou, quando desprezou essa parceria com os EUA e passou a buscar Europa, integração latino-americana, e, mais recentemente, o mundo pós-americano dos Brics", disse.

"De fato, a China passou a ser o grande parceiro comercial do Brasil e, coincidência ou não, tem sido um período de estagnação do nosso país."

3) Proximidade com Israel

O movimento do governo brasileiro de aproximação com Israel também foi, até certo ponto, freado pelos militares. Inicialmente, Jair Bolsonaro manifestou a intenção de transferir a embaixada do Brasil de Tel Aviv para Jerusalém, seguindo os passos de Trump.

Um dos filhos dele, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, que é muito próximo de Olavo de Carvalho, chegou a publicar nas redes sociais que a transferência não era uma questão de "se", mas de "quando".

Os israelenses reivindicam Jerusalém como capital do Estado de Israel. Mas a comunidade internacional e as Nações Unidas defendem que o status desse território seja definido em negociações de paz com os palestinos, que veem a parte oriental de Jerusalém como capital de um futuro Estado Palestino.

Por isso, os países, com exceção dos EUA e da Guatemala, mantém suas embaixadas em Tel Aviv, capital financeira de Israel. Durante a campanha eleitoral, Bolsonaro prometeu transferir a embaixada brasileira e defendeu uma forte aliança com o governo israelense.

Nas redes sociais, Olavo de Carvalho disse que "a coisa mais óbvia do mundo é que os judeus, não só por herança histórica e divina, mas por tudo o que passaram na 2ª Guerra Mundial, têm o direito ao território de Israel, pequenininho mas só deles, um abrigo contra os inimigos que os cercam por todos os lados" e condenou as críticas feitas a Trump por ter transferido a embaixada americana para Jerusalém, cumprindo uma promessa que, segundo ele, teria sido feita "por todos os presidentes americanos desde Bill Clinton".

Mas os militares lançaram uma ofensiva para dissuadir Bolsonaro de transferir a embaixada. A preocupação deles era de ordem econômica e de segurança.

Por um lado, temiam uma reação dos países árabes, que importam cerca de 10% dos produtos agropecuários do Brasil. Por outro, queriam evitar eventuais problemas de segurança, já que o Brasil e tropas brasileiras em missões da ONU no exterior poderiam vir a se tornar alvos de radicais islâmicos atuando em retaliação pela aliança com Israel.

Mourão chegou a fazer reuniões com o embaixador da Palestina no Brasil, Ibrahim Alzeben, para assegurar que o governo não pretendia, pelo menos no momento, efetivar essa transferência de embaixada.

No final, Bolsonaro acabou optando, por enquanto, por abrir um escritório diplomático em Jerusalém - decisão que ainda assim gerou reações negativas de palestinos e do mundo árabe em geral. Setores do governo dizem que a transferência da embaixada ainda vai ocorrer, mas de "maneira gradual".

4) Intervenção militar na Venezuela

Outra diferença clara entre militares e olavistas diz respeito ao papel do Brasil na crise da Venezuela.

Enquanto o ministro de Relações Exteriores do Brasil defende uma postura mais enfática contra o regime de Nicolás Maduro, sem descartar eventual apoio a uma intervenção liderada pelos Estados Unidos, os militares brasileiros vêm repetido que o governo deve se fiar em pressão diplomática e não em usar a força contra o país vizinho.

Um episódio que gerou grande desconforto entre a ala militar e a olavista foi a decisão de Ernesto Araújo de cessar a cooperação militar entre Brasil e Venezuela. Para as Forças Armadas, a medida ignorou importantes ações de cooperação entre os dois países no combate ao tráfico de drogas, de mercadorias e ao desmatamento ilegal da Amazônia.

"Apesar das divergências ideológicas, a relação entre militares brasileiros e venezuelanos na fronteira era boa. E havia ações importantes em andamento que de uma hora para outra foram interrompidas", disse uma fonte do Itamaraty, que acompanhou a reação dos militares.

Durante visita aos Estados Unidos, no mês passado, Bolsonaro afirmou que o Brasil poderia "dar apoio logístico" aos americanos, caso decidam intervir militarmente na Venezuela para retirar Maduro do poder. A hipótese é vista com cautela pelos militares.

Uma semana depois da declaração de Bolsonaro, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, se reuniu com o secretário de Defesa dos EUA, Patrick Shanahan, e disse que intervenção militar "não é uma hipótese" que o Brasil "esteja considerando".

"O Brasil procura uma solução pacífica e rápida à crise na Venezuela", afirmou.

Como resolver as divergências?

Segundo o professor da Universidade de Harvard Scott Mainwaring, que estuda política brasileira há mais de 30 anos, quase todos os governos apresentam divisões na própria coalizão.

No entanto, para ele, as divergências no governo Bolsonaro parecem ter se manifestado cedo e ser profundas.

"Claro que todos os governo em democracias são, em alguma medida, heterogêneos. O que é diferente no caso Bolsonaro é que existem divisões profundas em questões fundamentais, inclusive na política externa."

Segundo ele, em governos comandados por setores que discordam fortemente entre si, o que costuma acontecer é que, com o tempo, uma ala acabe "derrotando" a outra.

"O que normalmente ocorre é que, ao longo do tempo, há vencedores e derrotados. Ou seja, uma ala ganha maior controle sobre o governo que a outra", diz.

Outra possibilidade é que haja uma divisão mais clara de prerrogativas, com um setor intervindo menos ou nada na seara do outro.

O problema é que nem militares nem olavistas parecem se contentar em se ater às atribuições específicas dos respectivos ministérios.

Capa 8 Scott Mainwaring

Departamento de mexericos

O governo tem mil inimigos, mas o pior deles é a intriga. Sob Jair Bolsonaro, o departamento do mexerico cresce como nenhum outro. É chefiado por Carlos Bolsonaro, que dá expediente em tempo integral nas redes sociais. Afora os insultos que fabrica por conta própria, o Zero Dois importa ofensas produzidas nos Estados Unidos pelo polemista Olavo de Carvalho. O presidente da República estimula as atividades desenvolvidas pelo filho Carluxo e pelo guru Olavo.

Olavo de Carvalho desqualificou as escolas militares e avacalhou o funcionalismo de farda: "Os milicos só fizeram cagada."  Entregaram "o país aos comunistas". Agora, "vêm dizer que salvaram o país do comunismo".

Se um adversário declarasse coisa parecida, o capitão chamaria para a briga. Mas Olavo de Carvalho, autoproclamado filósofo, tornou-se uma espécie de 007 do bolsonarismo. Recebeu de Jair Bolsonaro uma licença tácita para achincalhar.

Num instante em que o Planalto se esforça para reunir uma tropa qualquer em torno da reforma da Previdência, Olavo insinua que os apoiadores de Bolsonaro no Congresso são trânsfugas, pessoas que "largaram o povão" para ingressar na elite. "Tudo o que querem é ficar em Brasília, brilhar e embolsar o dinheiro do governo."

Em vez de repúdio, Olavo de Carvalho recebe o aval dos Bolsonaro. O vídeo foi postado no canal do próprio presidente, no Youtube. Foi replicado também na conta de Carluxo, no Twitter. Depois que as "cagadas" dos militares e a vocação dos apoiadores de Bolsonaro para "embolsar dinheiro do governo" proliferaram nas redes e ganharam as manchetes, o Zero Dois excluiu a peça dos recantos virtuais da família.

Mourão, um general que Olavo detesta e que Carlos observa com desconfiança, insinuou que a difusão do vídeo no canal de Bolsonaro é coisa do filho: "Alguém deve ter postado lá na rede dele." E afirmou que o guru do presidente deveria retomar sua antiga profissão: "Acho que ele, Olavo de Carvalho, deve se limitar à função que ele desempenha bem, que é de astrólogo. Ele pode continuar a prever as coisas que ele é bom nisso.

A boa notícia é que o índice das intrigas que envenenam o governo de Jair Bolsonaro não aumentou no último final de semana. Continua nos mesmos 100%. A má notícia é que o mexerico não entra no cálculo do PIB. Se intriga fosse indústria, a economia já estaria bombando na gestão de Jair Bolsonaro. Infelizmente, o crescimento depende do trabalho. E não há coisa mais difícil do que fazer trabalhar um governo vocacionado para a intriga.

Pretendente ao trono

Bolsonaro dança com Mourão a coreografia da enganação. O capitão passou a enxergar no seu vice o comportamento de um candidato ao trono. Esforça-se cada vez menos para disfarçar sua convicção. O general atribui as balas perdidas que lhe chegam à insegurança do titular do mandato. Mas finge acreditar na tese segundo a qual o presidente não endossa os disparos feitos por Carlos e Olavo.

Mourão costuma medir as pessoas pelas dimensões de seus assentos. Ainda estava na ativa quando uma declaração de conteúdo político lhe rendeu, sob Dilma Rousseff, o afastamento do cobiçado posto de comandante militar da região Sul. Reconheceu que falara demais. E resignou-se com a punição: "Cada um tem que saber o tamanho da sua cadeira." Não imaginava que fosse virar para a família Bolsonaro a assombração que Michel Temer foi para Dilma.

Quando uma intriga de Carlos Bolsonaro produziu a crise que levou à demissão do ministro palaciano Gustavo Bebianno, Mourão aplicou a teoria do assento aos filhos do presidente: "Eles vão entender o tamanho da cadeira de cada um. Vão se limitar a ela." Pois bem. Carluxo, o filho Zero Dois do presidente, revelou-se um elefante em poltrona de vereador. A diferença é que Mourão é um estorvo com mandato. Não está ao alcance da Bic do capitão.

Em agosto do ano passado, outro filho do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, o Zero Três, parecia entusiasmado com a decisão do pai de converter Mourão em seu companheiro de chapa. "Sempre aconselhei o meu pai: tem que botar um cara faca na caveira pra ser vice. Tem que ser alguém que não compense correr atrás de um impeachment." Decorridos apenas oito meses, os Bolsonaro exalam arrependimento.

Enquanto o porta-voz Otávio Rêgo Barros lia uma nota com ressalvas acanhadas do presidente às "recentes declarações" de Olavo de Carvalho contra os militares, o filho Carlos Bolsonaro postava nas redes sociais uma defesa enfática do guru da família. "Desprezar" as opiniões de Olavo, ele anotou, seria comportamento de quem estivesse "se lixando para os reais problemas do Brasil."

Bolsonaro e sua prole imaginaram que a companhia de Hamilton Mourão transformaria Jair Bolsonaro, por contraste, num estadista instantâneo. Deu-se o oposto. De tanto fabricar crises do nada, o capitão atribuiu ao mandato do general um conteúdo moderador, ampliando o tamanho da cadeira do vice.

Mourão não hesita em assumir o papel de contraponto de Bolsonaro. A comparação do seu comportamento com a movimentação do titular fornece combustível para uma crise longeva. Os ministros fardados do governo observam a cena com apreensão.


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