Semana On

Terça-Feira 23.jul.2019

Ano VII - Nº 356

Coluna

Quem é o verdadeiro guru do Governo?

Liberalismo, desmantelamento e chacota

Postado em 17 de Abril de 2019 - Rodrigo Amém

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Falar que Olavo de Carvalho é o guru do governo Bolsonaro é mais ou menos como dizer que Whinderson Nunes fez filme porque é um grande ator. Nunes estrelou películas de cinema porque é popular com uma parcela desejável do mercado cinematográfico brasileiro. Bolsonaro não fez sua primeira "live" depois de eleito com um livro do astrólogo decorando o cenário por se tratar de sua obra de cabeceira. Bolsonaro não lê livro algum. Ele não tem "tempo".

Mas chama o velhinho youtuber para posar de papagaio de pirata porque Olavo tem apelo na base reaça do eleitorado. Mas nada, ou muito pouco, do que Carvalho diz acaba impactando as atuais políticas de governo.

Para sinalizar boa vontade com os olavetes, Bolsonaro acena com um ministério que julga desimportante, como o da educação. Para o presidente, a academia e o magistério são núcleos de aparelhamento petista. Precisa de alguém para cortar investimento e tirar foto na reunião de ministros. Se Olavo indicar um dos irmãos Piologo, tá de bom tamanho para Bolsonaro.

Mas isso cria um problema: Se Olavo é o "pensador figurativo" deste governo, uma espécie de "filósofo simpatia", quem é a verdadeira referência intelectual desta administração?

A única pista de vida pensante influenciando os caminhos da nação vem justamente do plano de governo publicado durante a campanha eleitoral. Há um solitário nome de referência acadêmica na publicação: o economista liberal Milton Friedman.

Mas quem diabos é Milton Friedman?

Prêmio Nobel de Economia em 1976, esse norte-americano é considerado um dos teóricos mais influentes da segunda metade do Século XX. Ele é um dos fundadores da famosa "Escola de Chicago", grupo de professores e alunos motivados pela defesa do livre mercado.

Ele foi um dos responsáveis pea criação da bolsa de estudos, patrocinada pelo governo americano, que levou jovens acadêmicos da América Latina para fazerem doutorado na Universidade de Chicago, com o compromisso de, após o curso, voltarem aos seus países de origem para "aplicar o que aprenderam".

Assim surgiram os "Chicago Boys". Rolf Luders, professor de Economia da Universidade Católica do Chile, fui um deles. Na verdade, Friedman foi seu orientador no curso. Em entrevista à NPR, Luders conta que, ao terminar sua dissertação, entregou o documento a Milton e aguardou seus comentários por meses. Finalmente, tomou coragem e perguntou ao orientador se ele havia lido seu trabalho. Friedman respondeu: "Rolf, tem dois tipos de economistas no mundo - os que lêem e os que escrevem. Eu sou do segunto tipo."

De volta ao Chile, Luders e os outros Chicago Boys começaram a se reunir para pensar em como colocar em prática as teorias de Friedman na economia chilena. Depois de muitas noites infurnados no segundo andar de uma mansão, os Chicago Boys apareceram com "El Ladrillo", ou o "Tijolo". Um calhamaço de medidas econômicas para transformar o Chile num paraíso liberal.

E este é o documento que, subitamente, chegou às mãos do general Pinochet, poucos dias antes de 11 de setembro de 1973, quando um golpe militar depôs o presidente Salvador Allende.

El Ladrillo deu aos militares um mapa, um curso de ação. A desculpa que faltava para que entrassem em ação.  Apoiadores de Allende foram presos e executados no meio da rua. Encontrar corpos boiando nos rios se tornou comum. As histórias de horror são ainda hoje muito vivas na cultura chilena (Não foi por acaso que os elogios de Bolsonaro a Pinochet e à tortura não foram bem recebidas em sua visita ao país).

Mas nosso foco aqui é a economia. As medidas de "austeridade" do Tijolo levaram a um longo período de penúria.

Mas havia uma parte da população extremamente satisfeita com o novo regime econômico: quem tinha dinheiro estava satisfeito com o aumento da oferta de produtos importados. Já a indústria nacional foi reduzida à cinzas, o desemprego era insano. Os mais pobres riam da própria desgraça. Chamavam às medidas de Caminho de Chicago para o Socialismo.

Outra providência do Tijolo: fim do bem-estar social. As faculdades públicas deixaram de ser gratuitas. A previdência passou a ser "capitalizada".

Na TV, Milton Friedman em pessoa estrelava um seriado explicando porque, a longo prazo, isso tudo seria bom para o povo chileno.

A situação se tornou de tal forma insustentável que Pinochet decidiu convocar eleições presidenciais, como uma forma de plebiscito sobre as medidas econômicas adotadas. E assim acabaram-se os anos de Tijolo no Chile.

Ainda hoje, se você perguntar a um chileno de classe média alta, a estabilidade econômica do país se deu graças à abertura comercial dos anos Pinochet. Aos menos afortunados, resta apenas a lembrança de desemprego e opressão.

Guedes fez seu doutorado em Chicago nos anos 80. Poucos anos depois, viveu no Chile e se deparou com o "milagre econômico" de lá. E tudo indica que seu projeto seja a criação do Tijolo brasileiro, voltado para o aumento do PIB às custas do crescimento da desigualdade social, tal qual no Chile de Pinochet, onde velhinhos sem aposentadoria se matam nas praças. Essas são as demandas que parecem ditar o andar da carruagem do nosso governo: A pasta do Guedes e a pasta de tudo que Bolsonaro despreza. A primeira tem apoio total e irrestrito. A segunda, desmantelamento e chacota.


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