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Segunda-Feira 27.mai.2019

Ano VII - Nº 352

Mundo

O que sobreviveu dos tesouros da Notre-Dame?

História da catedral se confunde com a da França

Postado em 17 de Abril de 2019 - DW

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Após o incêndio que atingiu parte da Catedral de Notre-Dame nno último dia 15, a fachada principal e as torres dos sinos ainda continuam a impor-se na pequena Île de la Cité, entre as duas margens do rio Sena. A parte norte e o telhado, com a queda da chamada flecha em forma de agulha, foram as partes mais afetadas, e os bombeiros continuam os trabalhos de inspeção na estrutura.

O fogo na catedral – um dos edifícios mais icônicos de Paris, da França e da arte gótica – foi declarado extinto pelas autoridades francesas pouco antes das 10h (hora local) desta terça-feira. O incêndio teve início na segunda-feira por volta das 18h50 e, portanto, só foi extinto após cerca de 15 horas.

A estrutura básica exterior foi considerada salva pelos bombeiros. Sua importância para a França e a capital do país já se inicia na própria praça da catedral, porque dali são calculadas até hoje todas as distâncias francesas, a partir de um ponto definido como marco zero.

Mais antiga que o Louvre ou a Torre Eiffel, a Notre-Dame é considerada um dos monumentos mais emblemáticos de Paris,sendo visitada anualmente por 13 milhões de pessoas. Sua construção começou no século 12, mais precisamente em 1163, e durou mais de 180 anos, tendo sido inaugurada em 1345.

Dedicada à Virgem Maria (Notre-Dame ou Nossa Senhora), a construção da igreja acompanhou o próprio desenvolvimento de Paris, pois a antiga catedral era pequena demais para a futura metrópole europeia. Além dos sinos, gárgulas, vitrais e rosáceas que também adornam muitas outras catedrais, uma das principais atrações da Notre-Dame é a sua própria arquitetura, que se difere de muitas igrejas góticas da época.

Enquanto no resto da Europa, novas formas de gótico estavam em voga no século 13, Paris não aderiu a essas tendências, resgatando formas do antigo gótico, com elementos horizontais numa proporção calculada e equilibrada.

Fachada harmônica

Como exemplo, o site oficial da Catedral de Notre-Dame destaca a fachada oeste como o primeiro tesouro do edifício. Felizmente, o fogo que atingiu a torre norte conseguiu ser extinto durante a noite, preservando a fachada e seus cinco portões, construídos entre 1200 e 1250.

As proporções da fachada são baseadas num arranjo especial de quadrados que formam retângulos aproximadamente na relação de lados 2: 3.

Aqui se realizou o ideal de Santo Agostinho: uma arquitetura cujas proporções são baseadas em consonâncias musicais (harmonia de tons), que por sua vez refletem a ordem harmônica do universo.

Paris introduziu uma inovação decisiva no projeto da fachada: a galeria real acima da área do portal como um símbolo da união entre igreja e monarquia. Sobre essa fachada, 28 estátuas representam os reis de Judá e de Israel, ancestrais de Cristo.

Já no século 13 as pessoas pensavam neles como os reis da França. Esta série de estátuas reais em grande formato influenciou algumas das catedrais mais importantes, como Reims e Amiens.

Acima desses personagens, em ambos os lados da fachada, estão as estátuas de Adão e Eva. No centro, uma grande rosácea, cujo diâmetro mede quase 10 metros, forma uma auréola para a estátua da Virgem Maria com seu filho, Jesus, que é emoldurada por dois anjos.

Vitrais do século 13

A Notre-Dame de Paris abrigava três grandes vitrais, construídos no século 13, representando as flores do paraíso, como rosas com pétalas de vidros coloridos. As rosáceas norte e sul são maiores, com 13 metros de diâmetro.

Cada medalhão representa um personagem: profetas, santos, anjos, reis, cenas da vida dos santos, obras de canto, virtudes – todos girando em torno do medalhão central: duas rosáceas apresentam a Virgem e o Menino Jesus, a outra, Cristo em majestade.

Ainda há incertezas quanto aos vitrais da catedral. Com o calor do fogo e a queda da estrutura de madeira do telhado, partes dos medalhões podem ter sido destruídas, assim como o chumbo que as liga pode ter derretido. Philippe Marsset, vigário-geral da arquidiocese de Paris e um dos primeiros a entrar na catedral à noite, descreveu cenas de "bombardeio" e "vitrais explodidos".

No entanto, as rosáceas na fachada norte parecem ter sido poupadas, de acordo com várias testemunhas. Uma delas deve ser desmontada rapidamente para que não caia, escreveu o Le Figaro nesta terça-feira.

Torres e estátuas

Em forma de agulha, a flecha sobre o telhado da catedral foi logo consumida pelo fogo. Essa torre, com 93 metros de altura, havia sido construída em 1860 por Eugène Viollet-le-Duc, um dos arquitetos mais importantes do século 19, durante a longa restauração pela qual a igreja passou a partir de 1844.

As 16 estátuas de cobre que adornavam a torre, representando os doze apóstolos e os quatro evangelistas, escaparam das chamas. Elas haviam sido removidas de sua base há apenas alguns dias para serem restauradas.

Os sinos também são considerados um importante tesouro da catedral e fazem parte da história de Paris. São 13 no total, com nomes de santos. Três estavam na torre que desabou no incêndio, a chamada "flecha", em forma de agulha. De acordo com Le Figaro, o sino Bourdon, com 13 toneladas, e os outros sinos restaurados em 2013 escaparam intactos.

Tesouros religiosos e artísticos

Além de sua riqueza arquitetônica, a Notre-Dame de Paris abrigava tesouros religiosos e artísticos, como relíquias, esculturas e pinturas. Embora ainda haja incerteza sobre a extensão das perdas, muitos deles puderam ser salvos, como a coroa de espinhos que se acredita ter sido usada por Jesus Cristo antes da crucificação. Outros, no entanto, foram provavelmente perdidos para sempre no ardor das chamas, como as "grandes pinturas" do século 17 e 18, os chamados Mays.

Existiam 76 Mays no total. Treze deles eram rotineiramente expostos ao público na Notre-Dame, entre eles a Lapidação de Saint Etienne, do pintor Charles Le Brun. Segundo o reitor da catedral, quadros com grandes dimensões, como é o caso dos Mays, não puderam ser retirados durante o incêndio.

A preocupação também diz respeito a outro tesouro da Notre-Dame: os seus três órgãos e, em particular, ao grande órgão, com seus cinco teclados, seus 109 jogos e seus quase 8 mil tubos. Construído a partir do século 15, ele foi ampliado gradualmente, até atingir o tamanho atual no século 18.

Segundo o site da catedral, ele sobreviveu à Revolução Francesa sem danos, "graças provavelmente à interpretação da música patriótica". Seus tubos são feitos de uma liga de estanho e chumbo, que suporta mal variações de calor e umidade.

No entanto, o grande órgão ainda estaria salvo, disse à emissora France Info Vincent Dubois, organista titular do grande órgão da catedral de Notre-Dame de Paris.

Já na noite de segunda-feira, o reitor da catedral, Patrick Chauvet, afirmou que a coroa de espinhos e a túnica de São Luís, duas relíquias de valor inestimável para o catolicismo, puderam ser salvas das chamas. A coroa foi adquirida pelo rei Luís 9° em 1238, tendo sido transferida para Notre-Dame durante a regência de Napoleão em 1806.

Além da coroa e da túnica do próprio Luís 9°, a Notre Dame conserva outras duas relíquias da Paixão: um prego e um pedaço da cruz. Segundo o jornal Le Figaro, uma cena da Paixão de Cristo, que os católicos relembram justamente nesta Semana Santa, também pôde ser salva de dentro sacristia. A Notre-Dame também tem relíquias da Santa Genoveva, padroeira de Paris, e de São Denis.

Alguns dos tesouros ainda poderão ser restaurados, como os quadros que por seu tamanho não puderam ser retirados das naves. Mas, no total, calcula-se que a catedral tenha perdido de 5% a 10% das obras do seu interior, informou o diário Le Figaro.

Doações milionárias para reconstruir a Notre-Dame

As chamas que parcialmente destruíram a Catedral ainda nem estavam completamente extinguidas quando o presidente da França, Emmanuel Macron, prometeu reconstruir o monumento centenário e convocou uma campanha de arrecadação de fundos. As primeiras ofertas milionárias foram anunciadas no dia 16 e, segundo levantamento da agência de notícias AFP, já ultrapassam 600 milhões de euros.

"O pior foi evitado, mesmo se a batalha não está completamente ganha. As próximas horas serão difíceis, mas graças à coragem dos bombeiros a fachada e as duas torres principais não caíram", disse Macron, em frente à Notre-Dame, agradecendo o trabalho feito por cerca de 400 bombeiros.

"Vamos reconstruir essa catedral, todos juntos. Uma campanha nacional vai ser lançada, e para além das nossas fronteiras. Faremos um chamado aos maiores talentos, que serão muitos e virão para reconstruir nossa Notre-Dame", acrescentou. "Notre-Dame é a nossa história, a nossa literatura, a nossa imaginação [...] É o epicentro das nossas vidas."

O bilionário francês Bernard Arnault, colecionador de artes e presidente do maior conglomerado de marcas de luxo do mundo, LVMH, anunciou uma doação de 200 milhões de euros para a reconstrução da catedral.

"A família Arnault e o grupo LVMH, em solidariedade para com esta tragédia nacional, se junta à reconstrução desta catedral extraordinária, símbolo da França, sua herança e sua unidade", diz um trecho do comunicado do grupo, que detém marcas como Louis Vuitton, Dior, Moët & Chandon, Hennesy, Bvlgari, Tag Heuer, Givenchy, entre outras.

A oferta de doação veio depois que seu rival ofereceu 100 milhões de euros. O bilionário François-Henri Pinault – que preside a holding francesa Kering, grupo de artigos de luxo que detém marcas como Gucci, Yves Saint Laurent e Balenciaga, e que também é casado com a atriz Salma Hayek – disse ao diário francês Le Figaro que espera que o dinheiro, que será pago pela empresa de investimentos da família Pinault, Artemis, ajude a "reconstruir completamente a Notre-Dame".

As empresa francesa de petróleo e gás Total prometeu doar 100 milhões de euros para ajudar a reconstruir "essa joia da arquitetura". A fabricante de cosméticos L'Oreal anunciou uma doação no mesmo valor para reerguer "um símbolo da herança francesa e da nossa história comum".

Entre outros doadores estão o CEO do grupo de construção Bouygues, Martin Bouygues, e seu irmão, Olivier, que afirmaram que vão destinar 10 milhões de euros à catedral.

Valérie Pécresse, presidente do conselho regional de Île-de-France, uma das 13 regiões administrativas da França e que abriga a Grande Paris, afirmou que doará 10 milhões de euros para a reconstrução.

O presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani, pediu aos parlamentares por doações para a reconstrução da Notre-Dame "como um sinal de solidariedade" em uma caixa do lado de fora do plenário em Estrasburgo. Por fim, a agência cultural das Nações Unidas, a Unesco, também prometeu "apoiar a França" na restauração do monumento, declarado Patrimônio da Humanidade em 1991.

O presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, pediu aos alemães e outros europeus que contribuam para a reconstrução da catedral. "Não se trata apenas de uma grande construção, mas de um marco europeu, um marco da cultura europeia e um importante documento da história europeia".

O dono de uma empresa madeireira francesa afirmou à rádio FranceInfo estar disposto a oferecer as melhores vigas de carvalho disponíveis para reconstruir o complexo que formava o telhado da catedral.

"O trabalho certamente levará anos, décadas até. Mas exigirá milhares de metros cúbicos de madeira. Teremos que encontrar os melhores exemplares, com grandes diâmetros", disse Sylvain Charlois, do grupo Charlois.

Além de tempo, o trabalho de restauração será um desafio da natureza. Bertrand de Feydeau, vice-presidente do grupo de preservação Fondation du Patrimoine, afirmou à rádio FranceInfo que a França não possui mais árvores grandes o suficiente para substituir as antigas vigas de madeiras na Notre-Dame.

O especialista em patrimônio cultural francês explicou que o telhado de madeira foi, em parte, construído há mais de 800 anos, com vigas de florestas primárias. Feydeau afirmou que o telhado da catedral não poderá se reconstruído exatamente como era antes do incêndio porque "nós não temos, no momento, árvores em nosso território do tamanho das que foram cortadas no século 13". Segundo ele, o trabalho de restauração terá que usar novas tecnologias para reconstruir o telhado.

História da Notre-Dame se confunde com a da França

"Majestoso e sublime edifício", escreveu em 1831 o escritor francês Victor Hugo, referindo-se à Catedral de Notre-Dame. Um dos exemplares máximos da arquitetura medieval que conseguiu exprimir em uma construção todo o espírito da época, o templo católico transcendeu ao longo dos séculos a sua função religiosa e se tornou um dos símbolos mais emblemáticos de Paris – e consequentemente do Ocidente.

A catedral sobreviveu a uma série de revoluções e duas guerras mundiais. Sua trajetória também sempre esteve intimamente ligada aos altos e baixos da história da França.

Sua construção foi ordenada pelo rei Louis 7º, um dos líderes da Segunda Cruzada, no século 12, como a intenção de ser um símbolo da crescente importância de Paris como centro econômico e social da França.

O local escolhido, na Île de la Cité, uma pequena ilha rodeada pelas águas do rio Sena e o centro da antiga cidade medieval de Paris, já tinha uma longa história religiosa, tendo abrigado um templo pagão na época dos romanos. Em 1163, a construção foi iniciada. Só seria completada em 1345, mais de 180 anos depois. Seu estilo fundiu elementos da arquitetura românica e do gótico primitivo.

Ela logo se tornou um dos símbolos mais conhecidos da França. A catedral também passou a ser o quilômetro zero do país, ponto inicial de todas as estradas que saíam de Paris.

Nos séculos seguintes, o monumento passou por várias reformas que alteraram a sua forma. A mais famosa dessas reformas ocorreu a partir de 1845 e foi liderada pelo arquiteto Eugène Viollet-le-Duc, que deu a forma definitiva da catedral que persistia até hoje.

Ao longo de 25 anos de trabalho, foram instalados novos sinos na catedral (os anteriores foram derretidos para a fabricação de canhões durante a Revolução Francesa) e uma nova e mais resistente flecha (uma torre situada sobre a parte central da nave) foi construída após a antiga mostrar sinais de desgaste. Uma série de novas estátuas também foi instalada. Os trabalhos dessa fase foram iniciados durante o reinado do rei Luís Felipe e só terminaram quando o país já havia passado por um curta república e voltado a ser um Império sob a liderança de Napoleão 3º. 

Um pouco antes dessa reforma, o próprio Victor Hugo havia feito um alerta sobre o estado da catedral, que apresentava sinais de degradação, em seu célebre livro "Notre-Dame de Paris”. O "majestoso e sublime" não era apenas um elogio, mas um apelo pela sua preservação.

"Sem dúvida, a igreja de Notre-Dame de Paris é ainda hoje um majestoso e sublime edifício. Mas por mais bela que seja conservada enquanto envelhece, é difícil não suspirar, e não nos indignarmos perante as degradações, as mutilações sem nome que em simultâneo o tempo e os homens provocaram no venerável monumento, sem respeito por Carlos Magno que colocou a primeira pedra, por Filipe-Augusto que colocou a última", escreveu.

A flecha instalada por Viollet-le-Duc no século 19 foi um dos principais elementos da catedral a desaparecer em meio ao incêndio, tendo desabado após ser engolida pelas chamas.

Mas para além da arquitetura e da religião, a catedral também conquistou ao longo de séculos um importante papel político na história da França.

Foi em seu interior que Napoleão foi coroado imperador em 1804. O local também foi palco de uma missa em 1944 para celebrar a libertação de Paris das tropas nazistas, com a presença do general Charles de Gaulle. Mais de duas décadas depois, o próprio de Gaulle foi velado no edifício. Nos anos seguintes, seria também o local de velório dos ex-presidentes Georges Pompidou e François Mitterand.

A catedral também é o monumento mais visitado da Europa. Recebeu 13 milhões de visitantes em 2017 – para efeito de comparação, pouco mais de 6 milhões de turistas estrangeiros passaram pelo Brasil no mesmo ano.

No ano passado, a catedral começou a apresentar os mesmos problemas de degradação que foram apontados por Victor Hugo no século 19. Rachaduras foram detectadas e especialistas avaliaram problemas na estrutura. A Igreja Católica logo passou a pedir verbas para preservar o edifício. O programa de restauração foi lançado em meados de 2018, e estava previsto para durar duas décadas. Na semana passada, 16 estátuas haviam sido retiradas da construção e enviadas para ateliês de restauração.

As causas do incêndio ainda vão ser alvo de uma investigação, mas as autoridades já apontam – numa ironia trágica – que elas podem ter como origem justamente os trabalhos para salvar a catedral, que haviam transformado parte do monumento em um canteiro de obras.

Ao falar do incêndio, a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, afirmou que não havia "uma palavra forte o suficiente para expressar a sua dor” frente à Notre-Dame devastada pelas chamas. Mas ela também afirmou que os parisienses podem encontrar força no lema da cidade: Fluctuat nec mergitur. Latim para "É sacudida pelas ondas, mas não afunda”.


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