Semana On

Quarta-Feira 18.set.2019

Ano VIII - Nº 363

Entrevista

Após viagem a Israel, presidente se reuniu com líderes árabes para tentar aliviar mal-estar

Rompimento entre países árabes e Bolsonaro custaria ao Brasil US$ 11,5 bilhões ao ano, afirma Rubens Hannun

Postado em 12 de Abril de 2019 - Juca Guimarães – Brasil de Fato

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Apesar de o Brasil ter uma excelente reputação com os países árabes, o governo de Jair Bolsonaro (PSL) abriu mão da neutralidade em relação ao conflito árabe-israelense depois da viagem que realizou à Israel e das declarações de apoio à política dos EUA. Atitudes que podem ter impacto nas boas relações comerciais vigentes até então.

A opinião é de Rubens Hannun, presidente da Câmara de Comércio Árabe Brasileira. Ele acredita que, se não houver uma política de aproximação com os países árabes, como a abertura de um escritório na Palestina, por exemplo, o Brasil pode enfrentar dificuldades. A agropecuária brasileira, principalmente os produtores de carne bovina halal – específico para o consumo de muçulmanos –, depende muito das exportações para esses países.

Na quarta-feira (10), o presidente participou de um jantar com representantes e diplomatas de países árabes, em Brasília, para tentar amenizar mal-entendidos.

Confira trechos da entrevista com o Rubens Hannun.

 

O estreitamento das relações com Israel e contra a Palestina pode ter algum impacto nas relações comerciais?

Rubens Hannun: Nada há de errado no estreitamento de relações bilaterais com qualquer país. A questão é como fazer a aproximação de maneira a não gerar ruídos, principalmente quando está em risco uma relevante e promissora relação comercial, como a que o Brasil tem com os países árabes. Durante a visita do presidente Jair Bolsonaro a Israel foi anunciada a criação de um escritório comercial para a promoção de negócios, intercâmbio tecnológico e desenvolvimento de inovação conjunta. Essa é uma iniciativa louvável, não há dúvida. Mas a diplomacia brasileira, historicamente, tem adotado uma posição de neutralidade em relação ao conflito árabe-israelense e isso, aliás, foi uma condição essencial para o Brasil ter construído boas relações comerciais tanto com Israel como com os países árabes. O benefício seria maior se, por exemplo, o governo brasileiro abrisse escritórios comerciais em países árabes, inclusive – por que não?–, na Palestina.

A visita do presidente brasileiro à Israel causou algum impacto nas relações comerciais com a Liga Árabe?

Ainda é cedo para avaliar. O que podemos dizer no momento é que o Brasil tem uma excelente reputação entre os consumidores árabes, porque é um país não-hostil e porque também fornece produtos de qualidade, como o frango e a carne bovina halal amplamente consumidas na Liga Árabe. Se essa percepção mudar, é provável que seja acompanhada de reações dos governos árabes e talvez até da população, com boicote a nossos produtos. Já aconteceu antes com a Coca-Cola e com produtos dinamarqueses. Além disso, interessa ter boas relações com os governos árabes porque, nessa região do mundo, muito do comércio entre entes privados passa pelas instâncias governamentais. Os importadores, por exemplo, atuam sob licença de seus governos, diferentemente do que ocorre no Brasil. Logo, questões políticas têm maior potencial para interferir no comércio.

Como é o histórico das relações comerciais do Brasil com o mundo árabe?

A relação é antiga e teve diferentes fases. Nos anos 1980 vendíamos muito aeronaves, carros e iniciamos o comércio de proteína de forma mais sistemática. Nos anos 2000 houve um grande impulso e nos consolidamos como o fornecedor de alimentos no bloco. Nos últimos 20 anos, as exportações brasileiras para os árabes cresceram sete vezes. Os árabes se tornaram o segundo principal destino dos produtos do agronegócio brasileiro. Graças aos árabes o Brasil se tornou especialista no fornecimento de proteína halal para países de maioria islâmica, árabes e não-árabes (Turquia, Irã, Paquistão, Índia, Malásia, Indonésia, entre eles).

E quanto isso representa em valores?

Tivemos no ano passado receitas de US$ 11,5 bilhões no comércio com a Liga Árabe. Vendemos nessa ordem: açúcar, carne de frango, minério de ferro, carne bovina e grãos. Do lado de lá, compramos combustíveis, fertilizantes, plásticos e minerais fosfatados essenciais, aliás, para o nosso agronegócio. Sem fosfato do Marrocos e da Argélia não seria possível agricultura no Cerrado, nem a pecuária nessa parte do Brasil. Os principais clientes do Brasil no momento são Egito, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

Quantos países fazem parte dessas relação comercial?

A Liga Árabe tem 22 países. Temos negócios com todos e a relação está evoluindo para além da compra e venda de produtos. É verdade que os árabes são um importante mercado para os produtos brasileiros. Mas eles têm fundos soberanos e empresas muito fortes com uma atuação global invejável. Fundos árabes são donos de participações expressivas em grandes empresas brasileiras, como o Frigorífico Minerva, a BRF. A Qtar Holdings tem participações na aérea Latam. O país também tem projetos na área de gás natural em Sergipe. Uma empresa de Dubai, a DPWorld, controla a Embraport, dona de um dos terminais mais importantes do Porto de Santos. Do lado brasileiro, a BRF tem uma planta em Abu Dhabi e anunciou recentemente a intenção de adquirir processadoras de alimentos na Arábia Saudita. A Vale tem uma unidade de pelotização de minério de ferro em Omã que atende a todo mercado asiático. Há, portanto, uma relação de reciprocidade com benefícios mútuos, que pode crescer muito além do estágio atual.

Quais as perspectivas para a relação comercial Brasil e Liga Árabe?

Nós acreditamos que em quatro anos é possível elevar as exportações brasileiras dos atuais US$ 11,5 bilhões para US$ 20 bilhões só com ações de promoção no comércio atual. Mas pode até superar essa expectativa se considerarmos que os Árabes têm interesse em construir alianças estratégicas para sanar suas necessidades, entre as quais está a produção de alimentos, uma especialidade do Brasil. Para isso, dispõe de US$ 2,3 trilhões alocados em seus fundos soberanos. Para o Brasil seria a oportunidade de acessar recursos importantes para sanar nossas lacunas de infraestrutura, por exemplo. Mas, para isso, é novamente importante que os governos se entendam.  

Os produtos agrícolas brasileiros, como soja, milho, feijão etc, competem com quais outros países na exportação para o mundo árabe?

No açúcar, a competição é com a Índia e com a Tailândia. Na carne bovina, competimos com a Índia, com a Austrália e com a Argentina. Na carne de frango, com a Turquia, com os Estados Unidos, a Dinamarca e com a França. Na soja, o mercado é relativamente pequeno, mas a competição é com os Estados Unidos e com a Argentina.


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