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Sábado 16.nov.2019

Ano VIII - Nº 372

Coluna

Foi uma fatalidade. Isso ocorre, faz parte da vida, não é?

Não, não é...

Postado em 10 de Abril de 2019 - Emerson Merhy

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Esses dias, um músico estava guiando seu carro em uma região do Estado do Rio de Janeiro, quando foi atingido por um fuzilamento violento por uma barreira formada por soldados do exército, que patrulhavam a região. O carro levou 80 tiros. O músico morreu imediatamente após receber alguns tiros. No mesmo instante, parte dos que estavam no carro abriram a porta e fugiram dos tiros. Era a esposa e o filho do músico, além de outros familiares que estavam no automóvel.

A cena não foi uma fatalidade como muitos pensam. O músico, negro, estava guiando seu próprio carro e não dava nenhum sinal de ameaça para a barreira de soldados, ao contrário guiava dentro das regras e tranquilamente.

A cena denotou uma violência desmedida de um grupo fortemente armado diante de um cidadão que não lhe gerava medo e nem risco, como alguns procuram justificar a violência de forças do estado perante cidadãos, em nome de uma segurança que só a violência policial poderia conter.

Mesmo argumentos tão inconsistentes, nesse caso não se aplicavam.

A cena não revelava nada similar.

Mas, a violência dos soldados do exército sim, revelava uma violência que se pratica sistematicamente contra pessoas que não são criminosas e nem ameaçadoras. Porém, nesse caso eram negros e isso, infelizmente em nosso país, já é um componente de ameaça para as forças policiais, também paradoxalmente formada por homens negros.

Estamos em um imbróglio sem fim quanto as violências que as forças do estado praticam. Todo dia temos notícias das arbitrariedades dessa violências e ficamos esperando ações dos governantes para contê-las, quando na verdade a maioria deles as estimulam.

O próprio governador do Rio de Janeiro é um estimulador de práticas assassinas pelas forças policiais. O do Estado de São Paulo, homenageia policiais que fuzilaram onze pessoas, sem se perguntar quem de fato eram e porque tinham que ser fuzilados.

Será que em todo lugar é assim. Imagina-se uma suspeita e se sai por aí fuzilando?

Vejo policiais armados em cidades europeias como Barcelona, por exemplo, mas não vejo notícias de fuzilamentos como esses do nosso país.

Algo está fora do lugar.

Os valores estão invertidos. Mata-se antes e pergunta-se, para os cadáveres, depois.

Entretanto, para mim, o que mais me indigna é que os representantes máximos da governança do país, hoje, quando se manifestam não são enfáticos em ver nisso um crime cometido pelas forças de segurança do estado brasileiro, ao contrário, ou se isentam de dar opinião, ou dizem: isso é uma fatalidade, a pessoa errada no lugar errado; isso acontece, a vida é assim mesmo, sempre haverá isso na nossa vida.

E muitos acham isso também, sem pensarem que em vários outros países isso seria inconcebível, a não ser em países que estejam em guerra contra sua própria gente, como aqui no nosso país.

E nessas histórias fica oculto que a guerra é desigual, há da nossa gente alguns que são mais eliminados que outros e por várias razões.


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