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Sábado 24.ago.2019

Ano VII - Nº 360

Artigo da semana

Bolsonaro tem 1.360 dias para afastar sua administração do caminho do brejo

Considerando-se que as chances de Bolsonaro virar um ex-Bolsonaro são exíguas, o melhor é ‘jair se acostumando’ com a possibilidade de suportar um ocaso lento e exasperante

Postado em 10 de Abril de 2019 - Josias de Souza

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Os primeiros 100 dias de Jair Bolsonaro à frente do governo acionaram uma contagem regressiva: o presidente dispõe de 1.360 dias para retirar o seu governo do caminho do brejo. Tomou o rumo errado ao desperdiçar sua lua de mel com polêmicas frívolas e brigas inúteis. Para modificar o itinerário, Bolsonaro terá de adotar providências que farão dele uma espécie de ex-Bolsonaro. Do contrário, arrisca-se a transformar o resto do seu mandato numa espécie de ocaso hipertrofiado de um dos piores presidentes que o Brasil já teve.

Ao tomar posse, Bolsonaro cavalgava expectativas esplendorosas. Dizia-se que a reforma da Previdência reativaria rapidamente a economia, produzindo taxas de crescimento que roçariam os 3% anuais. Onyx Lorenzoni, o chefe da Casa Civil, estimava que o Planalto formaria uma tropa de cerca de 350 deputados, 42 acima dos 308 necessários para aprovar emendas constitucionais. Deu errado.

No momento, o único empreendimento que prospera em Brasília é a usina de intrigas e crises fundada por Bolsonaro. Captadas pelo Banco Central, as previsões do mercado para o PIB caem há seis semanas consecutivas. Teme-se que o crescimento de 2019 seja pífio, ao redor de 1%. Coisa muito parecida com os fiascos de 2017 e 2018. O executivo de um banco de investimento disse: "Hoje, nosso melhor cenário seria estabilizar a economia na mediocridade."

Na Câmara, onde se encontra a reforma previdenciária, o governo tem dificuldades para manter em sua trincheira os 54 votos do PSL, partido de Bolsonaro. Levantamento divulgado dia 9 pela XP Investimentos ajuda a entender a dimensão da encrenca. Foram ouvidos 201 dos 513 deputados. As entrevistas foram feitas entre 26 de março e 4 de abril.

A maioria (55%) afirma que a relação da Câmara com o governo é ruim ou péssima. Esse índice era inexpressivo (12%) em fevereiro. Naquela ocasião, 57% dos deputados avaliavam como ótimo ou bom o relacionamento com o Planalto. Entre um índice e outro, um curto-circuito eletrificou o convívio do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), com o Planalto. No auge do choque, Maia declarou que o governo de Bolsonaro é "um deserto de ideias".

De fato, a dispersão de iniciativas dá ao governo a aparência de um Saara com dois oásis. Num, o ministro Paulo Guedes (Economia) molha o paletó para obter pelo menos R$ 1 trilhão de economia na reforma da Previdência. Noutro, o ministro Sergio Moro (Justiça) instala roldanas de político na cintura dura de ex-juiz, para tentar empinar o seu pacote anticrime e anticorrupção. A reforma de Guedes move-se com velocidade de lesma. O pacote de Moro sofre uma lipoaspiração sem sair do lugar. Resta a impressão de que o Saara de Bolsonaro logo estará importando areia.

A reforma da Previdência deve ser aprovada. A questão é saber quando e como. Segundo o levantamento da XP Investimentos, 76% dos deputados entrevistados apoiam a mexida nas regras previdenciárias. O índice mantém-se estável, pois era de 77% em fevereiro. A porca começa a torcer o rabo quando os deputados são indagados sobre as alterações que planejam fazer na proposta do governo.

A grossa maioria deseja alterar a emenda constitucional da equipe de Paulo Guedes nos trechos que tratam da idade mínima (72%), da regra de transição (80%), da aposentadoria rural (80%) e do benefício para idosos (82%). Deseja-se modificar também a proposta de previdência dos militares (83%). Quer dizer: é grande, muito grande, enorme a possibilidade de Paulo Guedes não obter a economia que deseja, na casa do trilhão. Algo que faz piscar no letreiro de Brasília uma pergunta incômoda: o que faria Bolsonaro se o Posto Ipiranga deixasse o governo?

A equipe ministerial de Bolsonaro é heterogênea como um Frankenstein. Divide-se em quatro partes. Além do grupo em que se encontram os dois "superpoderosos", há o bloco circense, o núcleo militar e o resto. Para complicar, Bolsonaro encostou no seu governo o puxadinho dos filhos. Esse puxadinho produz polêmicas com a mesma naturalidade com que a bananeira dá bananas.

O ministro palaciano Gustavo Bebianno teve a cabeça levada à bandeja depois de escorregar numa das cascas lançadas sob seus pés por Carlos Bolsonaro, o 'Zero Dois'. Outro ministro, Ricardo Vélez, caiu de maduro. Acaba de despencar da corda bamba em que se converteu o Ministério da Educação. Bolsonaro acomodou no lugar dele o economista Abraham Weintraub. Tem a mesma obsessão anti-marxista e o mesmo domador: Olavo de Carvalho. Sinal da ineficácia das tentativas do núcleo militar de trazer as extravagâncias de Bolsonaro na coleira.

O derretimento da equipe ministerial ajuda a envelhecer precocemente o governo recém-nascido. Embora Bolsonaro relute em admitir, há na Esplanada outros ex-ministros esperando para acontecer. O primeiro da fila é Marcelo Álvaro Antonio, o comandante da pasta do Turismo. Quem folheou o inquérito que a Polícia Federal toca contra o ministro teve saudades do tempo em que laranja era apenas uma fruta cítrica.

Para retirar o governo do caminho do brejo, Bolsonaro precisaria adotar pelo menos cinco providências capazes de anestesiar as crises, em vez de magnificá-las:

1. Reconhecer que seu governo caiu em algo bastante parecido com um buraco. O reconhecimento não resolve todo o problema. Mas evita que o presidente continue jogando terra em cima de si mesmo.

2. Interromper a simulação de diálogo em que o Planalto finge que se comunica com os partidos e os dirigentes partidários fingem que dialogam com o capitão. Habituado a virar a mesa, o ex-deputado Bolsonaro precisa entender que sentar-se ao redor da mesa não é crime. Do contrário, arrisca-se a virar uma Dilma com o sinal trocado.

3. Completar a reforma ministerial, substituindo ministros precários e anedóticos por gente séria, que goste de acordar cedo e trabalhar até tarde.

4. Parar de confundir imprensa com inimigo. No dia em que se der conta de que a imprensa não cria as crises que divulga, Bolsonaro diminuirá a dosagem do sonífero. Quando perceber que as manchetes mudam de assunto sempre que o governo resolve suas encrencas, o capitão dormirá sem remédios.

5. Desintoxicar a agenda, atualizando-a. Inabaláveis, as ideias de Bolsonaro não se movem um milímetro. Estão petrificadas. Seu coquetel programático é 100% feito de resíduos verbais herdados das décadas de 1960 e 1970. Inclui: moralismo bisonho, idolatria à ditadura militar (mandou comemorar o aniversário do golpe!!!), ódio à diversidade, desapreço à liturgia democrática e desprezo pela liberdade de expressão. Ou Bolsonaro retira a fuligem de sua retórica ou jamais chegará perto de algo que possa ser chamado de unificação do país.

Considerando-se que as chances de Bolsonaro virar um ex-Bolsonaro são exíguas, o melhor é "jair se acostumando" com a possibilidade de suportar mais 1.360 dias de um ocaso lento e exasperante, potencializado pelo mesmo sentimento de decepção que levou 61% dos entrevistados da mais recente pesquisa do Datafolha a concordar com a afirmativa segundo a qual Bolsonaro fez menos do que se esperava dele no alvorecer de sua Presidência. Teve mais sorte quem não esperava nada.

Josias de Souza - Jornalista


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