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Sábado 31.out.2020

Ano IX - Nº 417

Coluna

Shakespeare

Um empreendimento também econômico - Parte 1

Postado em 08 de Agosto de 2014 - Jorge Ostemberg

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Não é incomum a relação arte e miserabilidade. Saramago, contemporâneo escritor em língua portuguesa, sempre observou sobre isso, tendo feito especial menção ao tema, quando ganhou seu prêmio Nobel, com a grande quantia em dinheiro que o acompanha: “Estão as pessoas acostumadas à miserabilidade dos escritores, e então, não se importam se jogadores de futebol ganham rios de dinheiro a cada novo contrato, mas se um escritor é premiado financeiramente, todos se interessam pelo que irá fazer com a soma”.

Chaplin é outro grande artista que se aborreceu bastante com o incômodo que causava a alguns, pelo sucesso financeiro que teve, com o cinema. É célebre sua resposta à Somerset Maughan, quando este insinuou beleza na pobreza, usando de exemplo os filmes de Chaplin. Este último respondeu que o que tem na pobreza é um grande conjunto de dificuldades e sofrimentos, nada de beleza; todos querem realmente é mudar de condições. E o homem do chapéu de coco, rei no cinema mudo, provou que sempre quis mesmo é mudar sua vida; viveu muito bem, no conforto, seus dias finais, como também fez com que sua mãe nunca mais sofresse com pobreza, quando ele enriqueceu.

Mas e Shakespeare?

Não houvesse o florescimento econômico na Inglaterra Elisabetana, Shakespeare poderia ter encontrado em si toda a grande fluência que encontrou e transformou em vazão para as melhores obras de dramaturgia da história teatral?

John Maynard Keynes, o renomado economista, afirma: “estávamos exatamente em condições econômicas de sustentar Shakespeare no momento em que ele se apresentou”.

Ele lembra que, como Newton e Darwin, Shakespeare morreu rico. Gastava na proporção de mil por ano; tinha vida abastada no começo do século XVII. E Alexander Pope, que escreveu agudamente sobre o “bardo”, insinua que a propulsão para o sucesso de Shakespeare foi o retorno financeiro que percebeu ser possível com a exploração do teatro: “Pois ganho, e não glória, deu asas a seu voo errante. E ele se tornou imortal contra sua própria vontade”.

De alguma forma, todo artista, seja de qualquer a área: escrita, pintura, dramaturgia ou outra, terá que lidar com operações financeiras; que inclusive influenciam a qualidade de resultados, como parece óbvio.

De alguma forma, todo artista, seja de qualquer a área: escrita, pintura, dramaturgia ou outra, terá que lidar com operações financeiras; que inclusive influenciam a qualidade de resultados, como parece óbvio.

Shakespeare não foi uma exceção, ao que em sua obra: “Shakespeare e a economia”, Gustavo H. B. Franco pergunta: “Há economia em Shakespeare?

Seus raciocínios de resposta iniciam pela afirmação a partir de estudos novos, com reconstituição biográfica do “bardo”, no que tange aos seus aspectos mais humanos, sociais e políticos.

Como Shakespeare pagava suas contas? Responder à tal questão, para a época do eminente dramaturgo, é tocar em momento efervescente da economia europeia, os fatores, inúmeros. Franco cita alguns: disseminação de crédito, endividamento, moeda fiduciária, inovações financeiras e institucionais e seus efeitos econômicos, jurídicos, paralelo a isso, as novas estruturações das cidades e surgimento de institutos, consumismo, organização e formação de um mercado de massa; o empreendedorismo (destaque nosso), mecenato, o negócio do teatro, indústria editorial, a “revolução dos preços”, dentre outros. Franco ainda enfatiza sobre a época: “Temas revolucionários de uma época extraordinárias, a  exercer notável influência sobre a cultura em geral e literatura, em particular.

Gustavo Franco faz uma pergunta simples e notável sobre a questão da presença econômica na obra shakespeariana; “como imaginar que as aflições ligadas à vida material, que ocupam tanto tempo e da energia de cada um de nós não estariam presente na obra central da literatura universal?”.

Se as obras de Shakespeare são pontuadas de tensões; os processos que movia em relação à contendas financeira, não faziam feio em “emoção”: “John Shakespeare, por intermédio de seu advogado, William Court, processa John Walford, proprietário rual, de Marlborough, Wiltshiere, por uma dívida de 21 libras, alegando que, em 4 de novembro de 1568, em Stratford-on-oAvon, Walford comprou 21 todos de lá dele, por 21 livras, pagáveis à vista. Walford jamais pagou, e Shakespeare exige seu dinheiro e 10 libras de indenização.

Os últimos anos de Shakespeare tem essa tonalidade; e tanto os registros de cartório quanto às suas muitas frases em tantas obras, trazem a certeza que o bardo tinha uma consciência forte de economia de sustentação de seu teatro.

Essa é uma abordagem inicial sobre o tema: “Shakespeare e Economia”. Esse tema, através da rica obra de Gustavo Franco, terá aqui mesmo, dividida em partes razoáveis para que possa se ver em Shakespeare, sobretudo grande força de superação; pois como dizia Beethoven com palavras próprias, “suor e não dons criam a arte suprema”.

Continuaremos com o livro de Gustavo Franco nos próximos artigos, nessa relação de Shakespeare e a economia. Sigamos!


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