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Domingo 25.ago.2019

Ano VII - Nº 360

Poder

Empresário diz que bancou vídeo sobre golpe divulgado pelo Planalto

Vídeo traz série de distorções históricas

Postado em 05 de Abril de 2019 - Folha de SP, Edson Sardinha (Congresso em Foco), Bruno Fávero (Aos Fatos)

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O empresário Osmar Stábile, ex-vice-presidente do Corinthians, assumiu a autoria do vídeo divulgado pelo Palácio do Planalto que celebra o golpe de 1964. A produção foi repassada por meio de canal oficial da Presidência no último dia 31, aniversário de 55 anos do golpe que levou o Brasil a 21 anos de ditadura militar.

Dizendo ser eleitor de Bolsonaro, Stábile afirmou por meio da nota que criou a publicidade porque é "patriota e entusiasta do contragolpe preventivo".

Ele não explica porque o vídeo foi distribuído pelo Planalto sem que fosse revelada a sua autoria, apenas informa que bancou os custos do material. "Fi-lo (o vídeo) de moto próprio e às minhas expensas."

Presidente da Bendsteel, indústria de estampados de metal, ele diz que seu vídeo se restringia a "a falar de um momento pré-regime militar".

"Não tenho e nem tive a intenção de mexer com os brios, dores e sentimentos daqueles que se dizem perseguidos pelas Forças do Estado naquele importante período da nossa história", afirmou Stábile em seu texto.

"Mas acredito plenamente nos esforços de nossas Forças Armadas que evitaram males políticos maiores para a nação. E esse lado da história precisa ser conhecido pelas novas gerações."

O empresário ainda diz que não pretende fazer revisionismo histórico, apenas teve "a intenção de mostrar a outra face da moeda". 

"O povo brasileiro pode e deve conhecer outros argumentos, que não aqueles repetidos compulsoriamente, sem respeito aos fatos como eles, de fato, ocorreram.

Sem logomarca do Planalto ou de outro órgão do governo, o vídeo foi divulgado por meio de uma lista de transmissão destinada a jornalistas. 

Nele, um ator afirma que o Exército salvou os brasileiros em 1964 e que "não dá para mudar a história".

O número que enviou o vídeo não é o utilizado pela assessoria de imprensa do Planalto para divulgação de agenda do presidente, mas sim um para envio de comunicados para o público externo —e pode ser encontrado no site do Planalto. 

Procurada no dia da divulgação, a assessoria de imprensa do Planalto confirmou o envio do vídeo e não fez mais comentários. 

Sob sigilo

O artista que encarna o ardoroso defensor do golpe militar de 1964 ficou impedido, segundo ele mesmo, de se pronunciar sobre o assunto até que os responsáveis pela gravação se manifestessem. “Estou sob sigilo. Não posso falar nada. O meu negócio era gravar um texto”, disse o ator Paulo Amaral.

Especializado em propaganda, Paulo Amaral mostra em seu perfil no Facebook vídeos de outros comerciais em que trabalhou. Um deles é sobre investimentos no Banco do Brasil gravado em 2011, no primeiro governo de Dilma Rousseff. Ele também protagonizou uma peça para o portal Mix Brasil contra a homofobia.

O ator disse que só ficou sabendo da divulgação do vídeo pró-golpe militar domingo à noite após receber uma ligação do filho e que, até então, não tinha a mínima da ideia do que seria feito com a gravação. No vídeo não há qualquer identificação do responsável pela leitura do texto, nem mesmo que se trata de um ator.

“Um produtor me chamou, falou ‘Paulo, eu preciso que você faça um texto pra mim, te pago tanto, você faz?’. Eu falei ‘faço’. Mas morreu aí, não sei qual é a produtora, pra te dizer a verdade. Foi só isso. Não tinha nenhuma ideia. Só gravei. O rapaz arquivou e não falou se ia ser um comercial, não falou nada”, afirmou Paulo ao jornal.

A divulgação do vídeo foi considerada por muitos uma apologia ao golpe militar. As bancadas do PT na Câmara e no Senado entraram com representações na Procuradoria-Geral da República, na Controladoria Geral da União (CGU) e na Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão pedindo investigação sobre as circunstâncias da gravação e da divulgação do vídeo em defesa da ditadura militar. Os petistas também acionaram o Conselho de Ética da Câmara contra Eduardo Bolsonaro por ter compartilhado o vídeo em suas redes sociais.

O presidente Jair Bolsonaro é defensor do regime militar. De acordo com o presidente, não houve ditadura nem golpe no Brasil. Ele também minimiza os casos de tortura, assassinato e desaparecimento de homens e mulheres no período, que se estendeu de 1964 a 1985. Estima-se que quase 500 brasileiros foram mortos durante a ditadura por discordarem do regime.

Desde seu primeiro mandato como deputado federal, iniciado em 1991, Jair Bolsonaro coleciona frases e atos em defesa dos governos militares. Agora na Presidência, Bolsonaro recolocou o debate em pauta ao orientar as Forças Armadas a fazerem "as devidas comemorações" à tomada do poder em 31 de março de 1964, data que completou 55 anos no último domingo. Diante da repercussão negativa da sugestão, o governo passou a falar em "rememoração". O episódio suscitou manifestações em várias partes do país contra o golpe.

O vice-presidente Hamilton Mourão atribuiu a Bolsonaro a decisão de divulgar o vídeo por um canal do governo. "Decisão do presidente. Foi divulgado pelo Planalto, é decisão do presidente", afirmou Mourão.

Distorções históricas

O site Aos Fatos checou a veracidade das afirmações feitas pelo narrador da gravação.

Confira abaixo, em detalhes.

FALSO

Era sim um tempo de medo e ameaças. Ameaça daquilo que os comunistas faziam onde era imposto sem exceção: prendiam e matavam seus próprios compatriotas.

No início do vídeo, o narrador fala do período anterior ao golpe e do clima de medo do comunismo que teria contribuído para intervenção militar. De fato, existiam grupos comunistasque pregavam a luta armada antes de 1964, mas eram uma minoria. O PCB (Partido Comunista Brasileiro), maior agremiação comunista na época, defendia chegar ao poder pacificamente.

Está documentado que sua estratégia era se utilizar dos mecanismos institucionais democráticos, como as eleições diretas, para chegar à revolução. Conforme consta dos arquivos do CPDOC/FGV, "a partir de 1958, o partido começou a considerar de máxima importância sua participação nas eleições através de coligações eleitorais, a fim de eleger candidatos comunistas ao Congresso. Por meio das eleições, o PCB poderia, de acordo com suas análises, aprofundar a polarização entre 'nacionalistas' e 'entreguistas', fortalecer a 'frente única' e também firmar sua posição dentro do Parlamento e junto do governo".

Também segundo os arquivos, "o programa [do V Congresso do partido] admitia a atuação do PCB dentro dos quadros legais do sistema constitucional" e que "a revolução se faria por um caminho pacífico".

Entre as facções minoritárias discordantes da via pacífica estavam, por exemplo, as Ligas Camponesas, um movimento pró-reforma agrária "que a partir de 1961 defende a guerra de guerrilhas como forma de chegar ao socialismo", segundo a pesquisadora Lucineli Siqueira. Entretanto, mesmo esses grupos mais extremados não realizaram ações violentas antes de 1964. Segundo pesquisa do historiador Vitor Amorim de Angelo, foi só depois do golpe militar que a ideia de luta armada ganhou força entre movimentos de esquerda.

"A luta armada não esteve entre as razões do golpe, embora já existissem projetos guerrilheiros antes de 1964. O contrário, porém, é parcialmente verdadeiro, uma vez que o golpe passaria a ser visto por setores da esquerda brasileira como a confirmação de suas posições críticas ao 'caminho pacífico da revolução' defendido pelo PCB", escreve De Angelo.

IMPRECISO

Foi aí que conclamado (...) principalmente, pelo povo na rua, povo de verdade, pais, mães, igreja, que o Brasil lembrou que possuía um Exército Nacional e apelou a ele.

É verdade que importantes setores da sociedade civil apoiaram o golpe e que houve uma série demonstrações de apoio à destituição do presidente João Goulart antes e depois do golpe de 1964, mas pesquisas de opinião feitas à época levantam dúvidas sobre quanto essas manifestações eram representativas da população.

Os protestos mais célebres de apoio ao golpe foram as Marchas da Família com Deus e pela Liberdade, que levaram centenas de milhares às ruas. Em 19 de março, estima-se que 300 mil pessoasandaram da praça da República até a Praça da Sé, em São Paulo, para se manifestarem contra um conjunto de reformas anunciado seis dias antes por Jango. Marchas da Família com Deus e pela Liberdade se repetiria em 2 de abril, no Rio de Janeiro, já depois do golpe.

Por outro lado, pesquisas de opiniãofeitas à época e reveladas décadas depois contradizem a tese de que o golpe tinha amplo apoio popular. Um levantamento do Ibope na cidade de São Paulo entre 20 e 30 de março de 1964, por exemplo, aponta que 42% dos entrevistados avaliavam o governo João Goulart como "ótimo" ou "bom" e apenas 19% como "mau" ou "péssimo". No mesmo levantamento, uma maioria expressiva, 79%, também disse considerar "necessárias" as reformas promovidas por Jango.

VERDADEIRO

Foi aí que conclamado por jornais, rádios, TVs (...) que o Brasil lembrou que possuía um Exército Nacional e apelou a ele.

Grande parte imprensa brasileiraapoiou abertamente o golpe de 1964. O jornal O Globopublicou em 2 de abril de 1964 o editorial "Ressurge a democracia!"; no mesmo dia, o jornal O Estado de S. Paulodeclarou em sua manchete "Vitorioso o movimento democrático". Outros veículoscomo Folha de S.Paulo, Jornal do Brasile O Diatambém declararam apoio à deposição do presidente João Goulart.

Posteriormente, os jornais Folha de S.Paulo, Estadãoe O Globoadmitiram, em comunicados e editoriais, ter sido um erro apoiar o golpe.

VERDADEIRO

Havia, sim, (...) greve nas fábricas.

Movimentos grevistas foram frequentesno período que antecedeu o golpe de 1964: a CGT (Comando Geral dos Trabalhadores) fez uma paralisação em 1961 para defender a posse de João Goulart depois da renúncia de Jânio Quadros; em setembro de 1962, fez uma greve geral para pressionar o Congresso a votar pela volta do presidencialismo; em 1963, pilotos comerciais pararam por mais de um mês para protestar contra a demissão de uma liderança sindical da Varig; em 1964 o CGT ameaçou, mas desistiu, de fazer uma nova paralisação, desta vez em oposição ao golpe militar.

Segundo relatório da Comissão Nacional da Verdade, as greves foram um dos "antecedentes imediatos" do regime militar. "A manifestação de movimentos sociais ou grevistas, a balbúrdia política e as manifestações do suboficialato eram recebidas com suspeição por muitos setores, notadamente por militares, que em tudo viam uma porta de acesso para a infiltração de comunistas e a expansão de atividades subversivas", diz o documento.


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