Semana On

Segunda-Feira 14.out.2019

Ano VIII - Nº 367

Coluna

Mussum - um filme do cacildis

O limiar entre o respeito e a ofensa na piada politicamente incorreta

Postado em 04 de Abril de 2019 - Danilo Custódio

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O humor politicamente incorreto – hoje proibido, criminoso – foi matéria prima da comédia brasileira durante toda a história desse país desde o tal “descobrimento” lá em 1500.  E a piada ofensiva ainda hoje é encarada por muitos comediantes como uma “licença poética” da arte de fazer rir, além de frequentemente cair no argumento do “direito” à liberdade de expressão. Como resultado, temos um batalhão de artistas consagrados que continuam explorando a condição nada engraçada do outro, provocando risos através da falta de respeito.

Nesse contexto, o dito popular “seria cômico se não fosse trágico” perde qualquer significado, desencadeando uma multidão de piadistas do dia a dia que produzem e/ou compartilham, nas redes sociais e em chats de bate papo, uma infinidade de conteúdos racistas, homofóbicos, sexistas, xenofóbicos, dentre outros. São pessoas que transitam livremente pela tênue linha que separa o riso do choro, o respeito da ofensa, a harmonia da violência. E no tocante das relações humanas, nessa questão do politicamente incorreto em específico, cabe muito bem citarmos o comediante e filósofo contemporâneo Raul Chequer, que acha “muito merda usar de humor pra perpetuar preconceito”.

Mas nem toda piada politicamente incorreta pode soar ofensiva certo? Não que ela vá soar respeitosa, mas se observarmos com um pouco mais de atenção essa questão, perceberemos algumas frágeis convenções, que são na verdade pequenos detalhes que dizem respeito a linguagem utilizada pelo comediante na hora de comunicar sua piada. Por exemplo, aspectos relacionados a escolha das palavras utilizadas, a expressão física e narrativa do locutor, bem como sua empatia, são fatores determinantes na minha opinião. Claro que certos termos são ofensivos independentemente de como são ditos, mas quando falamos da arte cômica, do estereótipo do palhaço, do gênero da comédia, certas estórias politicamente incorretas podem sim soar muito engraçadas, desarmando através do riso qualquer postura mais séria.

E nesse recorte, como resultado de uma cuidadosa pesquisa de arquivo articulada através de uma montagem repleta de ritmos e harmonias, estreia no circuito comercial brasileiro o documentário Mussum — Um filme do cacildis, de Susanna Lira.  Com roteiro de Bruno Passeri e Michel Carvalho, o filme nos apresenta a trajetória de Antônio Carlos Bernardes Gomes (1941-1994), que iniciou na música antes de dar as caras na televisão como membro do quarteto fantástico tupiniquim Os Trapalhões. E uma das grandes revelações que o filme nos traz é o registro de que Mussum reagia com indignação à certas piadas encaradas como racistas.

Fazer refletir através do discurso cinematográfico a questão racial é um retrato da própria trajetória de Os Trapalhões, que por vezes foi apontado como programa racista ao mesmo tempo que foi um dos únicos programas da TV brasileira a abrir as portas para um artista preto da favela. Mussum era coisa rara, único preto figurando entre as estrelas da telinha no horário nobre e um dos primeiros a fazer sucesso, inclusive sendo imortalizado como ícone da comédia brasileira. Mussum — Um filme do cacildis chega às telonas desse brazilzão ocupando salas em muitos estados e prometendo uma verdadeira odisseia pela vida dessa personalidade histórica que vivia sempre “Em pé sem cair, deitado sem dormir, sentado sem cochilar e fazendo pose”.

Viva a Ditadura!

A empresa Cinemark realiza diversos eventos privados toda semana, através da prestação de serviços à entidades que alugam suas salas para exibir filmes, fazer palestras ou mostrar algum material corporativo. Eis que no último domingo (31), a rede norte americana exibiu o documentário “1964 – O Brasil entre Armas e Livros”, que dizem alguns se tratar de uma peça de propaganda pró ditadura, patrocinada pela direita conservadora com produção da “Brasil Paralelo”. As exibições aconteceram no Recife, em Belo Horizonte, em Curitiba e em São Paulo. No Rio de Janeiro, a sessão foi cancelada por problemas técnicos e por conta disso Eduardo Bolsonaro se manifestou no Twitter alegando censura, retuitando um post que pedia boicote ao Cinemark. De acordo com Miguel Barbieri Jr na coluna Cultura & Lazer da Veja São Paulo, a Cinemark se posicionou alegando desconhecer que a sessão seria um evento de apoio ao golpe e ficou surpresa ao saber que nas exibições foram distribuídos panfletos com agenda comemorativa ao Golpe.

Enquanto isso, em Brasília

Corre a notícia de que o Tribunal de Contas da União (TCU) determinou um prazo de 60 dias para que a Agência Nacional do Cinema (Ancine) proponha novas formas de controle da prestação de contas dos projetos audiovisuais submetidos a ela. Até lá, recomendou o congelamento dos repasses aos atuais projetos em andamento, provocando um terremoto que abalou as estruturas do mercado cinematográfico brasileiro. Oficialmente, a Ancine se posicionou diante dos rumores sobre uma possível interrupção dos repasses do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) ao setor, informando que a instituição ainda não recebeu formalmente nenhum documento sobre essa questão.

Na mesma nota, a Ancine relata que o mesmo aconteceu em 2018, quando o TCU avaliou um pedido de medida cautelar para paralisar imediatamente o FSA. Na ocasião, a medida foi indeferida e o órgão de controle solicitou a apresentação de um Plano de Ação, que foi entregue no dia 04 de setembro de 2018 com complementação em 03 de dezembro de 2018 após debates com o próprio TCU. De acordo com a nota da Ancine, o Plano de Ação ainda aguarda avaliação pelo órgão.

O FSA é um fundo bilionário alimentado hoje principalmente pelas companhias telefônicas que passaram a explorar o mercado de TV por assinatura no país. Em acordo firmado em meados de 2011, empresas como a Claro, GVT, Vivo, etc., aceitaram pagar o Condecine - Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional, em troca da concessão para exploração do mercado de exibição audiovisual no país. Trata-se de um imposto que incide diretamente na movimentação financeira gerada pelo mercado audiovisual, criado com finalidade exclusiva de se investir para impulsionar o próprio setor.

A Ancine, através do FSA, investe em toda cadeia do audiovisual, desde a reforma e modernização de salas de cinema públicas e privadas, passando pela distribuição do produto nacional dentro e fora do país, até o financiamento de startups de novos conteúdos e de tecnologia. A receita do Fundo gira na casa de R$25 bilhões por ano e os repasses empregam cerca de 335 mil pessoas. De acordo com a folha, um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica da USP aponta o setor responda por 0,44% do PIB nacional.

Em nota, a Ancine ressalta que essa situação com o TCU é fruto de uma auditoria realizada em 2017 que identificou diversas irregularidades e as indicações se concentram em três vertentes principais:

1- Condenação da metodologia Ancine+Simples:

O órgão de controle condenou a metodologia Ancine+Simples, estabelecida por decreto em 2014 e regulamentada em 2015 com as Instruções Normativas 124 e 125. Nesta metodologia, as análises são realizadas em duas profundidades diferentes - 95% dos projetos a partir de um determinado método e 5%, definido através de plano amostral, com análise em escopo mais profundo. Neste sentido, a gestão atual da Ancine concorda com o TCU.  É possível utilizar uma metodologia mais apropriada para análise das contas dos projetos. Essa metodologia foi elaborada entre maio e dezembro de 2018, e está em vias de ser implementada, com a revisão da Instrução Normativa 124/2015, provavelmente em abril.

2 - Necessidade de alterações de regramentos:

Junto à alteração da metodologia central, o TCU entende que diversas alterações de regras sobre a execução de recursos são necessárias. Neste ponto, a Ancine concorda parcialmente com o TCU. Algumas dessas regras já estão sendo alteradas na revisão das Instruções Normativas 124 e 125, ambas publicadas originalmente em 2015. Entendemos que alguns pontos ainda merecem um maior debate, tendo em vista as especificidades do modelo de negócios audiovisual. Esse debate com o órgão será desenvolvido enquanto for possível, como foi feito ao longo de todo o ano de 2018, quando o relatório de auditoria chegou ao conhecimento da Ancine.

3 - Superação do passivo de prestação de contas e necessidade de celebrar novas avenças de forma proporcional à capacidade operacional:

O terceiro eixo de indicações, que consideramos mais sensível, é a necessidade de superar o passivo de projetos em situação de prestação de contas em um prazo exíguo e ainda somente celebrar avenças (aprovar, acompanhar e fiscalizar projetos) na medida da capacidade operacional. Não há, novamente, como discordar do órgão de controle neste ponto. É bastante óbvio que uma empresa só pode produzir na medida de sua capacidade. A Ancine só deveria gerir projetos dentro de sua capacidade. No entanto, ao longo dos últimos 10 anos, a movimentação de projetos na autarquia foi alavancada de forma muito superior à capacidade operacional da Agência. Foram anos e anos aprovando e liberando recursos para projetos em limite acima do possível de ser operacionalizado, principalmente no tocante à análise das contas.


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