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Segunda-Feira 19.ago.2019

Ano VII - Nº 359

Poder

Vélez no MEC virou um crime de lesa-educação

Desgaste do0 ministro da Educação aumenta após entrevista de Bolsonaro

Postado em 29 de Março de 2019 - Talita Fernandes , Paulo Saldaña e Gustavo Uribe (Folha de SP), Josias de Souza (UOL)

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O processo de desgaste de Ricardo Vélez Rodríguez à frente do Ministério da Educação ganhou força após o presidente Jair Bolsonaro admitir que as coisas “não estão dando certo” no MEC.

“Temos que resolver a questão da educação. Realmente não estão dando certo as coisas lá, é um ministério muito importante. Na minha volta da viagem de Israel eu vou conversar com o Vélez”, afirmou o presidente em entrevista à TV Bandeirantes.

Indicado pelo escritor e guru da direita Olavo de Carvalho, o ministro da Educação sofre desgaste desde o primeiro mês de governo.

Em janeiro, o ministro recuou sobre mudanças em edital de compra de livros que suprimia o compromisso com a agenda da não violência contra mulheres e permitia obras sem referências e com erros. Em fevereiro, o MEC enviou carta a escolas com slogan da campanha de Bolsonaro e pedido de filmagem de alunos cantando o hino. O episódio provocou novo recuo. 

Novo capítulo da crise começou neste mês com uma dança de cadeiras e críticas de Olavo em redes sociais ao ministro e a integrantes do MEC.

Nos bastidores do governo, a saída de Vélez é vista como certa, mas auxiliares ponderam que isso não deve acontecer nesta semana. Após a veiculação de notícias na noite desta quarta de que o presidente havia decidido demitir o titular da Educação, o próprio presidente foi às redes sociais para negar.

“Sofro fake news diárias como esse caso da ‘demissão’ do ministro Vélez. A mídia cria narrativas de que não governo, sou atrapalhado etc. Você sabe quem quer nos desgastar para se criar uma ação definitiva contra meu mandato no futuro. Nosso compromisso é com você, com o Brasil”, escreveu Bolsonaro.

Na sequência, Vélez também fez uma publicação, mas não mencionou a possibilidade de ser demitido; apenas dirigiu críticas à imprensa.

“O jornalismo brasileiro se põe raivoso por estar, pela primeira vez, sem poder barganhar às custas de trocas de favores. Meu compromisso é com os brasileiros e seus representantes. Os veículos que busquem outras fontes de financiamento”, escreveu.

O desgaste do ministro aumentou depois de sua participação em uma comissão na Câmara nesta quarta. Seu desempenho foi mal avaliado, em especial depois de ele ter sido criticado pela deputada Tabata Amaral (PDT-SP).

“Não é possível que o senhor apresente um PowerPoint com dois, três desejos para cada área da educação”, disse a deputada. Tabata disse que o ministro não se preparou para responder aos questionamentos e que não sabia como um gestor poderia não saber de dados importantes da pasta que comanda. 

À comissão, Vélez disse que as 15 exonerações neste mês foram motivadas por critérios técnicos. A sessão foi marcada por bate-bocas e ataques ao ministro, que mostrou nervosismo e voz embargada em alguns momentos.

“Muitos pediram que eu me exonerasse. Bobagem, não vou sair. Por que estou gostando muito do cargo. É um passeio nas ilhas gregas? Não. É um abacaxi do tamanho de um bonde. Mas topei”, disse.

Até antes desta quarta, o governo trabalhava com o plano de manter o ministro pelo menos até a primeira quinzena de abril. O governo apostava que um secretário-executivo escolhido pela ala militar poderia colocar a casa em ordem. Definir a saída esbarrava em dois pontos: o impacto para a imagem do governo ao demitir mais um ministro e a indefinição de um novo nome.

Os militares querem o ex-reitor da UnB, Ivan Camargo, para a secretaria executiva ou mesmo como ministro.

Entre os cotados para a pasta desde que os primeiros indícios da permanente crise, o senador Izalci Lucas (PSDB-DF) e o secretário de Alfabetização, Carlos Nadalin, aluno de Olavo de Carvalho, despontaram.

Esses nomes tiveram reforço de aliados que defendem as nomeações. O ex-ministro Mendonça Filho (DEM-PE) também foi ventilado.

Lesa educação

Em três meses de governo, Bolsonaro ofereceu muito pouco aos brasileiros em matéria de discernimento. Eis que, de repente, numa entrevista do tipo quebra-queixo, dessas em que os repórteres enfiam gravadores e microfones na goela do entrevistado, baixou sobre o presidente uma revelação do óbvio. Bolsonaro reconheceu diante das câmeras que há "problemas" no Ministério da Educação.

Embora fale em "problemas", assim, no plural, a encrenca é singular. Atende pelo nome de Ricardo Vélez. "Ele é novo no assunto", disse Bolsonaro sobre o ministro da Educação, "não tem tato político, vou conversar com ele." Na noite da véspera, Bolsonaro havia desmentido no Twitter uma notícia sobre a demissão do ministro. Na entrevista, disse que o Ministério da Educação "tem que dar certo", pois é "um dos mais importantes" da Esplanada.

Eis aqui um paradoxo desconcertante: Bolsonaro nomeou para "um dos ministérios mais importantes" um sujeito que ele considera "novo no assunto". E não foi por falta de alternativa. Havia na praça gente com experiência e qualificação. Mas essa gente não tinha o aval do autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho, o guru de Bolsonaro.

Vélez produziu no ministério apenas fumaça ideológica. Afastaram-se 16 assessores recém-nomeados. Se houvesse um caos semelhante no Ministério da Economia, o país viria abaixo. Mas o MEC só é prioridade no gogó.

Num país como o Brasil, onde 2,8 milhões de seres de 4 a 17 anos estão fora da escola, onde apenas 9% dos estudantes terminam o ensino médio com um aprendizado adequado em matemática, onde três em cada dez pessoas convivem com o analfabetismo funcional… num Brasil assim, a permanência de Vélez no MEC é um crime de lesa-educação.


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