Semana On

Quinta-Feira 25.abr.2019

Ano VII - Nº 347

Coluna

China aumenta importação de soja dos EUA em fevereiro

Produtores do Brasil temem sobra de grãos com acordo entre China e EUA

Postado em 27 de Março de 2019 - Redação Semana On

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As importações chinesas de soja dos Estados Unidos em fevereiro subiram ante janeiro, com as cargas reservadas após uma trégua na guerra comercial entre os dois países chegando aos portos do gigante asiático, de acordo com dados da alfândega publicados no último dia 25.

A China importou 907.754 toneladas de soja dos EUA em fevereiro, ante 135.814 toneladas em janeiro, informou a Administração Geral das Alfândegas.

No entanto, isso ainda foi apenas uma fração perto dos 3,35 milhões de toneladas importados em fevereiro de 2018, já que as pesadas tarifas de Pequim sobre os embarques norte-americanos ainda restringiram as compras.

A China, maior importadora de soja do mundo, concordou em retomar algumas compras da commodity dos EUA depois que o presidente norte-americano, Donald Trump, e o presidente chinês Xi Jinping concordaram, em 1º de dezembro, com uma trégua de 90 dias na disputa comercial entre os países.

O país normalmente compra soja dos EUA no último trimestre e nos primeiros dois meses do ano, quando a colheita americana domina o mercado. Mas os compradores chineses evitaram aquele mercado em meio à disputa comercial, buscando grãos brasileiros.

Segundo os dados da alfândega, a China comprou 1,986 milhão de toneladas de soja brasileira em fevereiro, 13% acima do 1,75 milhão de toneladas em igual mês do ano passado.

Efeito Colateral

Um eventual acordo entre China e EUA colocando fim à guerra comercial já causa tensão no setor agrícola brasileiro. “E a preocupação é grande, não é pequena, não”, diz o diretor-geral da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), Sergio Mendes.

O receio é que Pequim passe a priorizar os produtos agrícolas americanos em detrimento dos brasileiros. Desde a trégua anunciada pelos dois países em dezembro, as vendas de soja dos EUA para a China subiram.

Em 2018, o Brasil foi um dos maiores beneficiados pela guerra travada entre os dois países. O país exportou 82,8 milhões de toneladas de soja, alta de 21% ante 2017. “Os números de 2018 são completamente fora da curva. Vendemos sem concorrência e a guerra comercial foi preponderante”, afirma Mendes.

A Anec estima exportar 70 milhões de toneladas neste ano, volume que pode diminuir se o acordo entre China e EUA for muito favorável aos americanos. Os EUA estão com estoque alto de soja e poderiam vender para a China já neste primeiro semestre, concorrendo com Brasil e Argentina – a safra dos países da América do Sul é no começo do ano, enquanto a americana é no segundo semestre.

Da soja exportada pelo Brasil, 82% foram para a China, quase dez pontos percentuais a mais que em 2017. Segundo Mendes, como a China compra quase a totalidade da produção brasileira, o país não terá para onde destinar seus grãos caso os orientais reduzam suas importações.

O produtor Valdir Edemar Fries, de Itambé (PR), calcula que vai exportar 21% a menos neste ano. Ele ainda não estimou a perda em receita, mas acredita que superará esse percentual. “Além de ter produzido menos por causa da estiagem, o acordo branco (informal) entre China e EUA já afeta a cotação. Há dez dias a soja estava a R$ 71 a saca. Hoje, não passa de R$ 67,50”. Na safra 2017/2018, Fries conseguiu média de R$ 72,50 por saca.

A estiagem que afetou a produção de soja no Paraná, segundo maior produtor brasileiro, atingiu também as lavouras de Fries. A produtividade por hectare, que havia sido de 75 sacas, em média, na safra passada, caiu para 58,8. Ele conta que havia a possibilidade de compensar parte da perda com preços melhores, o que não ocorreu. “Quando fiz as vendas no mercado futuro, em novembro, vendi apenas o necessário para cobrir os custos, pois achava que, em razão da guerra comercial, os preços iriam subir. Não foi uma boa aposta”.

O produtor Emílio Kenji Okamura, presidente da Cooperativa Agrícola de Capão Bonito (SP), teme pelo escoamento mais lento da soja para o porto. “Nossa cooperativa tem capacidade para 600 mil sacas e os silos estão lotados. Muitos não quiseram vender acreditando que a briga dos EUA com os chineses ia longe, mas Donald Trump amenizou e já tem soja de lá sendo levada para a China.”

“Quem vendeu antecipado conseguiu até R$ 80 a saca, mas muito produtor preferiu esperar e agora o preço oscila entre R$ 71 e R$ 72. Ninguém sabe como o mercado vai ficar nos próximos meses, o que torna difícil um planejamento”, diz Okamura.


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