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Segunda-Feira 27.mai.2019

Ano VII - Nº 352

Coluna

'Dumbo' tem mais beleza que coração, mas é melhor de Tim Burton dos últimos anos

Elefantinho orelhudo volta aos cinemas para enfrentar desafios maiores que bullying e abandono

Postado em 27 de Março de 2019 - G1

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Tim Burton patinou nos últimos filmes. Desde 2010, as obras do diretor californiano parecem uma grande tentativa, mas nunca um acerto.

Em “Dumbo”, filme com atores e o elefantinho orelhudo eternizado na animação de 1941, Burton volta a trilhar o caminho esquisito e hipnótico que o consagrou. É o melhor filme dele (sem ser animações) desde "Sweeney Todd", de 2007.

Quais diferenças do desenho pro filme?

O Dumbo dele é deslumbrante. Tanto o elefantinho de computação gráfica quanto o filme. Mas não espere ver uma adaptação fiel ao original. Burton pede licença e leva seu Dumbo a alçar voos diferentes. Troca simplicidade por luxo e drama por aventura.

A versão com atores é mais sóbria que a animação. Belos sobrevoos sobre um parque de diversões sombrio, a imponência dos animais ferozes enjaulados, um incêndio gigantesco e uma fuga de filme de ação infanto-juvenil fazem desta uma boa fantasia.

O picadeiro modesto do desenho se transforma em um grande circo moderno e luxuoso. A icônica cena dos elefantes cor-de-rosa fruto de uma embriaguez do elefantinho - e uma das cenas mais nonsense e medonhas das animações da Disney - se transforma em um quadro bonito de dançarinas. Tudo é grandioso.

Não espere pelo Dumbo raiz...

Toda essa megalomania torna o filme incapaz de captar a emoção da animação de 78 anos. A trama é triste, mas é asfixiada pelo mundo onírico construído. Então, se você for comprar o ingresso para chorar com a jornada do herói de Dumbo, da rejeição à superação, economize os lencinhos.

A ganância e o dinheiro são os grandes vilões. O bullying com as orelhas gigantes não tem tanto destaque e dá lugar ao deslumbramento pelos voos inimagináveis - e mais ainda pela arrecadação milionária que esse pequeno milagre pode gerar.

Duas boas duplas

O elenco é bom e bem ajustado. Danny DeVito é um charlatão divertido. Michael Keaton é um aspirante a showman um pouco louco, um pouco cínico, um pouco bobão, como um Johnny Depp mais maduro e elegante. Formam uma dupla interessante na tela.

Colin Farrell é um herói decadente, bonzinho mas confuso, pai das duas crianças que descobrem a peculiaridade de Dumbo e vão lutar por sua felicidade. Ao lado dele, Eva Green é uma trapezista sedutora e perspicaz, mas incrivelmente afetuosa. A dupla também tem boa química, seja na tensão sexual sutil ou no sarcasmo trocado.

Apesar do elenco afiado, as narrativas dos personagens não são muito interessantes e você acaba não se importando tanto assim com o que vai ou não acontecer com eles.

Apesar da sucessão de pequenas tragédias e do tom melancólico de Burton, o filme se conclui inocente e bonzinho demais. Tem uma mensagem a favor dos direitos dos animais, das diferenças, do amor e contra a ganância e a exploração pela fama.

Faz sentido, mas parece deslocada do resto, colocada ali para agradar. Ou um sinal de adaptação aos novos tempos, ao politicamente correto e à tomada de consciência por parte da indústria.

"Dumbo" pode não ser a grande redenção de Burton, mas mostra que o diretor ainda sabe imprimir seu estilo em uma grande obra. E que a história do elefantinho pode ser reinventada sem perder a força.


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