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Quinta-Feira 25.abr.2019

Ano VII - Nº 347

Governo

Poder

Oferta de Trump a Bolsonaro irrita aliados na Otan

Presidente americano levantou possibilidade de fazer lobby pelo Brasil na aliança, o que causou espanto entre representantes na sede da organização em Bruxelas e foi logo rechaçado por potências como França e Alemanha

Postado em 22 de Março de 2019 - Thomas Milz (DW), Leonardo Sakamoto (UOL)

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, irritou parceiros na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ao sugerir ser possível que o Brasil seja admitido na aliança. O líder americano mencionou a possibilidade durante a visita do presidente Jair Bolsonaro à Casa Branca no último dia 19.

Trump prometeu classificar o Brasil como major non-Nato ally, o que daria ao Brasil privilégios militares similares aos recebidos pelos aliados dos americanos na Otan. A Argentina é o único país latino-americano que recebeu até agora esse status, de caráter mais simbólico.

Com o status, o Brasil poderia, por exemplo, participar oficialmente do desenvolvimento de tecnologias de defesa, realizar exercícios militares conjuntos e receber ajuda financeira para a compra de equipamento militar.

Trump e Bolsonaro confirmaram que o tema foi um dos assuntos tratados numa reunião no Salão Oval. Na entrevista coletiva subsequente, Trump chegou a mencionar a possibilidade de o Brasil ser um membro de fato da Otan, mas admitiu que teria "que falar com muitas pessoas" para que isso acontecesse.

Durante um almoço fechado na Casa Branca nesta terça, Trump afirmou que vai trabalhar para fazer com que o Brasil se torne um membro pleno da Otan.

Na sede da Otan, em Bruxelas, representantes da aliança ressaltaram nesta quarta-feira que o Tratado do Atlântico Norte não prevê a admissão de mais países não europeus. Liderada por Washington, a organização tem atualmente 29 membros plenos, todos, com exceção de Canadá e Turquia, na Europa.

Além disso, a obrigação de prestar assistência no caso de ataques armados a um dos membros da organização seria dificultada pela localização geográfica do Brasil. Tal obrigatoriedade só se aplica a países acima do Trópico de Câncer, e o Brasil está bem abaixo dele, afirmaram os representantes da Otan.

O governo da Alemanha, país-membro da Otan, também afirmou que o acesso à organização está reservado a países europeus. A porta-voz do Ministério do Exterior alemão, Maria Adebahr, destacou o artigo 10 do tratado de fundação da Otan.

O documento estabelece que os países-membros podem, se houver unanimidade, convidar para entrar na aliança "qualquer Estado europeu que esteja em condições de favorecer o desenvolvimento dos princípios do presente tratado e de contribuir para a segurança da região do Atlântico Norte".

Adebahr sublinhou que isso não significa que a Alemanha não considera o Brasil um parceiro relevante. "Como maior país do continente latino-americano, o Brasil tem para nós uma especial importância", disse, citada pela agência de notícias Efe.

O governo francês também chamou atenção para as regras da Otan em reação às declarações de Trump sobre uma possível adesão do Brasil.

"A Otan é uma aliança de países vinculados por uma cláusula de defesa coletiva, cujo campo de aplicação geográfica está claramente definido do Tratado de Washington de 4 de abril de 1949", afirmou uma porta-voz do Ministério do Exterior da França, país-membro da aliança.

Uma porta-voz da Otan não quis comentar as declarações de Trump. Mas fontes da organização ouvidas pela agência de notícias alemã DPA ressaltaram que a aliança já estabeleceu parcerias com uma série de países mundo afora, como Colômbia, Japão, Austrália e Afeganistão.

Segundo as fontes, a aliança estaria disposta a cooperar mais estreitamente com o Brasil, se o país tiver interesse. No entanto, a possibilidade de alterar o Tratado do Atlântico Norte para que o Brasil possa se tornar membro da organização foi classificada de improvável, já que para tanto seria necessária uma decisão unânime de todos os aliados.

A Argentina possui esse status desde os anos 1990, mas mesmo assim, não teve grandes conquistas em termos de modernização de suas Forças Armadas. Talvez o dealmaker ("fechador de acordos") Trump estivesse esperando um acordo lucrativo de vendas de armas para o Brasil, mas, com o orçamento apertado de Brasília, isso não passa de um desejo.

Fundada quatro anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, que devastou o continente europeu, a organização tinha como objetivo original favorecer o bem-estar e a estabilidade na região. Inicialmente, 12 países faziam parte da aliança, entre eles Canadá e EUA.

A missão da Otan foi por muito tempo conter a influência da antiga União Soviética, mas desde a desintegração desta, em 1991, a Aliança Atlântica decidiu não se restringir apenas à Europa e colaborar com outros parceiros globais. Estes países podem contribuir com as operações e missões da Otan.

Muito afago, pouco resultado

Eles trocaram camisas de futebol, elogiaram as relações entre os dois países como "melhores do que nunca" e se deram tapinhas nos ombros de maneira amistosa. Mesmo assim, pouca coisa de concreto saiu do primeiro encontro entre Bolsonaro e Trump.

Os dois populistas de direita, supostamente semelhantes, não conseguiram encontrar terreno comum nem mesmo na questão de como chegar a uma mudança de regime na Venezuela.

Em vez disso, Bolsonaro se desmanchou em elogios ao seu ídolo declarado. No Jardim das Rosas da Casa Branca, ele disse torcer pela reeleição de Trump em 2020.

E até afirmou que acredita firmemente que os socialistas e comunistas mais e mais se tornam cientes de que estão no caminho errado. Tal golpe verbal contra a oposição democrata nos Estados Unidos ainda não tinha ainda sido desferido por um convidado do governo. "Thank you", agradeceu Trump, com alguma surpresa.

"Nunca se viu nada igual na história das relações internacionais," afirmou o sociólogo e especialista em relações internacionais Demétrio Magnoli.

Já na véspera do encontro, a declaração de Bolsonaro de que o muro de Trump na fronteira com o México era necessário, uma vez que a maioria dos imigrantes teria "más intenções", comprovara sua lealdade cega. "Bolsonaro chegou a defender o muro de Trump, um assunto alheio ao Brasil, e defendeu com argumentos de comício de Trump", observa o sociólogo.

Mas os resultados concretos do encontro ainda são incertos. O tão sonhado, por parte dos brasileiros, acordo de livre-comércio com os EUA já havia caído por terra antes mesmo da reunião. As esperanças do Brasil de chegar a acordos na área da agricultura também se frustraram.

Apenas a parceria sobre a base de lançamentos de Alcântara, que já havia sido negociada pelo governo do antecessor de Bolsonaro, Michel Temer, se concretizou. O objetivo é obter recursos com o aluguel da base.

Um pequeno prêmio de consolação poderia ter sido um compromisso claro por parte de Trump de incluir o Brasil na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o clube dos países industrializados. "Mas houve apenas um aceno pessoal de Trump", avalia Magnoli. O americano disse que não vai mais vetar a entrada brasileira, o que não é garantia de ingresso.

Os Estados Unidos deixaram claro que, em troca, o Brasil deve abrir mão do status de país em desenvolvimento na Organização Mundial do Comércio (OMC). Para Trump, isso funcionaria como uma alavanca para acabar com esse status para todos os países em desenvolvimento. "O Brasil só faria isso se tivesse enlouquecido completamente", observa Magnoli.

A declaração conjunta divulgada na noite do encontro confirma, porém, que o Brasil irá, de fato, abrir mão de seu status especial. Agora é esperar para ver até que ponto isso vai se concretizar.

Também em relação à Venezuela não houve grandes avanços. Trump repetiu seu já conhecido mantra de que "todas as opções estão sobre a mesa", inclusive uma intervenção militar. Ainda assim, segundo o presidente americano, o aperto das sanções contra o regime de Nicolás Maduro "chegou apenas ao ponto médio".

No dia anterior, Bolsonaro defendeu, num jantar com investidores americanos, uma intervenção militar dos EUA na Venezuela. Entretanto, os militares brasileiros já afirmaram repetidas vezes que o envolvimento das Forças Armadas do Brasil é algo impensável.

Dessa forma, o Brasil nada tem a oferecer a Trump no que diz respeito à Venezuela. "O Brasil não pode prometer nada, uma vez que não tem praticamente nenhuma relação comercial com a Venezuela. Além disso, o país não pode apoiar uma intervenção militar", afirma Oliver Stuenkel, da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. "Assim, o Brasil não pode fazer nada de concreto."

O Brasil nada pode fazer também quanto à preocupação de Trump de limitar a expansão da China. "Os EUA querem limitar a influência chinesa na região, mas, uma vez que o Brasil depende da China, há pouco espaço para manobra", diz Stuenkel.

O próprio Bolsonaro se calou sobre o assunto e deixou para seu ministro da Economia, Paulo Guedes, a tarefa de lidar com o tema. No evento com os investidores americanos, na véspera, o ministro afirmara que o Brasil tem o direito de negociar livremente com Pequim.

Para Magnoli, o claro vencedor dos três dias da visita de Bolsonaro aos EUA foi o movimento internacional de extrema direita The Movement, cujo fundador, Steve Bannon, foi convidado por Bolsonaro para um evento na noite de domingo na embaixada brasileira em Washington.

Eduardo Bolsonaro, que atuou como uma espécie de "ministro do Exterior em exercício" e participou da "conversa a dois" entre Trump e Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca, foi recentemente nomeado, por Bannon, representante do movimento na América do Sul.

"Os interesses que foram avançados nessa visita foram os de Steve Bannon e de Eduardo Bolsonaro, que são interesses faccionais ligados ao movimento de Bannon e dos partidos nacionalistas da direita", observa Magnoli.

Elegendo fantasmas

Bolsonaro trouxe os alvos de sua cruzada ideológica para o discurso oficial, ao lado de Trump, nos jardins da Casa Branca.

Afirmou que o Foro de São Paulo "esteve próximo de conquistar o poder em toda América Latina", reforçando as teorias da conspiração sobre esse fórum de partidos de esquerda latino-americanos. E disse que ambos os países estão irmanados contra a "ideologia de gênero", o "politicamente correto" e as "fake news".

Melhor se fosse contra o desemprego, a pobreza, a corrupção, a guerra, a violência urbana. Mas aí seria trabalhar de verdade, articulando, dialogando, compondo, correndo atrás de recursos. A verdade é que combater fantasmas de um comunismo que nunca existiu de fato por aqui é mais fácil do que enfrentar problemas reais.

O presidente poderia dizer que o Brasil busca ajuda para reduzir as 64 mil mortes violentas todos os anos ou os 12,7 milhões de desempregados. Preferiu dizer que o Brasil está irmanado aos EUA com o objetivo de enfrentar a Guerra Fria e a mamadeira de piroca.

Se essa inversão de prioridades de Bolsonaro ocorresse apenas em Washington, tudo bem, seria apenas mais uma questão de vergonha alheia que teríamos que lidar. Mas, não. Quando ele pisar os pés em Brasília, as prioridades continuarão sendo essas mesmas. Para desespero daqueles que o apoiam e acreditam que está atuando firmemente para montar uma base parlamentar a fim de aprovar a Reforma da Previdência.

Contudo, combater fantasmas serve para transformar algo insignificante em um inimigo terrível. Anima, dessa forma, a batalha da extrema direita ruidosa, aliada de primeira hora de ambos os presidentes, cujo engajamento é peça-chave para governos que pretendem manter as campanhas eleitorais acesas até o seu último dia.

Nesse sentido, o discurso na Casa Branca ecoa os discursos de posse de Bolsonaro e da fatia de seus ministros mais estridentes, que reforçaram que o novo governo foi eleito para uma cruzada (na acepção medieval na palavra) a fim de livrar o Brasil de posicionamentos e pautas progressistas, que seriam – segundo eles – a fonte do mal.

Como já disse aqui, é papel de Bolsonaro e assessores convencerem a opinião pública que a população brasileira lhes deu mandato para liberá-la do socialismo, do marxismo, do "globalismo", do "gayzismo", do "coitadismo", do "abortismo", do "mimimismo" e qualquer outra fantasia que viralize nas redes sociais a partir de sua ilimitada criatividade e a de seus parceiros da extrema direita internacional – por mais que isso não seja a realidade. Enquanto isso, é papel da imprensa e da sociedade fiscalizá-lo, pressioná-lo e denunciá-lo quando ele extrapolar seu mandato constitucionalmente atribuído.

Liberar o Brasil de algo que não existe, como uma hegemonia socialista, é igual a tentar aterrorizar uma população para os riscos do Homem do Saco ou da Mulher de Branco. Por outro lado, fomentar um estado de apreensão constante é fundamental para que a base do bolsonarismo mantenha-se coesa na guerra política.

Bolsonaro sabe que terá mais liberdade para sua pauta de costumes e comportamentos se conseguir reduzir significativamente o desemprego e a violência, temas sob o comando de Paulo Guedes e Sérgio Moro. Afinal, a parte da população que votou por mudança e não por fiscalizar o sexo alheio aceitaria mais facilmente a excentricidade temática por ele proposta desde que o Estado garanta segurança econômica e o direito de ir e vir sem ser molestado. Deveria, portanto, se preocupar em seus discursos em explicar como irá fazer isso, de preferência sem jogar a conta nas costas dos mais vulneráveis e sem cortar mais direitos.

Por fim, faz sentido que Bolsonaro tenha dito, no pronunciamento oficial, que acredita na reeleição de Trump em 2020, atuando como cabo eleitoral de luxo. Não é uma questão apenas de torcida pessoal, mas de necessidade. Se um presidente mais à esquerda, escolhido entre os democratas, substituir o atual mandatário, o brasileiro perderá um importante suporte onde, hoje, amarra sua narrativa ideológica.

Em tempo: Bolsonaro chama de "ideologia de gênero" o esforço de desconstrução da ideia de que os homens valem mais do que mulheres, ideia que tem justificado muita violência. "Politicamente correto" deixou de significar apenas o cuidado com a linguagem que marginaliza minorias e passou a ser usado para criticar a luta pelos direitos humanos – que, ao impedir que se use a liberdade contra a liberdade de terceiros, estaria deixando o mundo chato. 

E "fake news", para ele, não é o significado acadêmico desse fenômeno – publicações que viralizam em redes sociais a partir de informações comprovadamente falsas, com um formato que simula o estilo jornalístico para enganar o público, ocultando sua autoria. Mas toda e qualquer notícia que lhe causa constrangimento ou lhe desagrada. A disputa que ele trava não é apenas de ideias, mas do significado das palavras.


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