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Segunda-Feira 27.mai.2019

Ano VII - Nº 352

Brasil

A cada hora, uma criança ou adolescente morre por arma de fogo no Brasil

Dados obtidos pela Sociedade Brasileira de Pediatria indicam que a prevenção de mortes por armas de fogo se baseia principalmente na redução do acesso a elas

Postado em 21 de Março de 2019 - O Globo

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A cada uma hora, uma criança ou adolescente morre em decorrência de ferimentos por arma de fogo no Brasil, segundo um levantamento divulgado nesta quarta-feira pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), usando dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde.

Em 2016 (ano mais recente disponível), foram registradas 9.517 mortes. Esse número é quase o dobro dos 4.846 casos de 1997. No entanto, de acordo com o secretário do Departamento de Segurança da SBP, Danilo Blank, a série histórica mostra uma desaceleração no total de mortes e internações por armas de fogo após o Estatuto do Desarmamento ter entrado em vigor, em 2003.

"Isso quer dizer que, se admitirmos que a redução das mortes e ferimentos se deve efetivamente ao Estatuto do Desarmamento – já que não parece ter havido outra variável em jogo – quaisquer causas sociais que tenham posteriormente determinado uma nova onda de aumento nos números de homicídios simplesmente não parecem ter afetado as mortes e traumas não intencionais, que são um problema extremamente pertinente à defesa da saúde da criança", disse.

Dados obtidos pelo Departamento de Segurança da SBP indicam ainda que a prevenção de mortes por armas de fogo se baseia principalmente na redução do acesso a elas. Um dos mais recentes trabalhos nesta linha partiu da organização americana American College of Physicians (ACP), que encoraja os médicos a aconselharem seus pacientes sobre o risco de ter armas de fogo em casa.

"Quanto mais disponíveis as armas de fogo, maior o número de mortes. Todos os esforços têm que ser empreendidos para fortalecer o Estatuto do Desarmamento no Brasil e limitar ao máximo a posse o porte de armas de fogo", destacou Blank.

Essa suspeita da SBP encontra respaldo no estudo Most Children Surveyed Couldn't Tell Real Guns from Toy Guns, da Academia Americana de Pediatria (AAP), divulgado em novembro de 2018. No trabalho, que fez uma comparação dos padrões de armazenamento de armas de fogo e o acesso das crianças a elas, o risco de desfecho fatal é muito alto.

Para o presidente do Departamento de Segurança, dr. Mário Hirschheimer, a proximidade com a arma de fogo aumenta o risco de violência doméstica e acidentes envolvendo crianças e adolescentes sem, necessariamente, dar maior segurança às famílias.

Nas últimas duas décadas, mais de 145 mil jovens, com idades entre zero e 19 anos, morreram em consequência de disparos, acidentais (1%) ou intencionais, como em casos de homicídio (94%) ou suicídio (2%). Neste mesmo período, as despesas diretas do Sistema Único de Saúde (SUS) com tais pacientes ficaram em torno de R$ 210 milhões.

"Os custos diretos decorrentes desses atendimentos estão atingindo níveis recordes. Obviamente, que foi um investimento para salvar vidas, o que é justificável. Porém, se esses casos tivessem sido evitados, esses recursos poderiam ter tido outro destino no SUS. O pior, no entanto, não é a conta, mas as sequelas físicas e emocionais – muitas vezes irreversíveis – que cada um destes episódios de agressão deixa na vida das crianças e dos adolescentes envolvidos, bem como em suas famílias e na comunidade", afirmou a presidente da entidade.

Segundo a análise, a cada duas horas, em média, uma criança ou adolescente dá entrada em um hospital da rede pública de saúde com ferimento por disparo de algum tipo de arma, sendo 82% de vítimas com idade entre 15 e 19 anos, 11% (10 a 14 anos), 4% (5 a 9 anos), e 3% (menores de 4 anos). Além disso, quase 90% eram do sexo masculino.

Os dados indicam que 45% do volume total de óbitos em 2016 ficou concentrado na região Nordeste. A Bahia ocupa o primeiro lugar do ranking nacional desde 2009. Em 2016, 14%dos casos foram registrados lá. Outros 26% das mortes ficaram no Sudeste, 8% no Centro-Oeste e 10% no Norte e no Sul.

Entre 1997 e 2004, São Paulo ocupava o primeiro lugar nas estatísticas. Em 2016, registrou 6% dos casos. Já o Rio de Janeiro, que ficou na frente entre 2005 e 2008, contabilizou 9% das mortes entre os mais jovens.


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