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Domingo 16.jun.2019

Ano VII - Nº 355

Coluna

O estado é o que mesmo?

Público e privado em total promiscuidade

Postado em 20 de Março de 2019 - Emerson Merhy

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“O estado sou eu”, disse em uma época não tão remota um rei da França.

O seu corpo, privado em nosso entendimento geral, era antes de tudo a máxima expressão do que podia ser o público, em especial o público estatal. Fosse ao banheiro, tivesse um adoecimento qualquer, comendo as diferentes refeições, entre várias outras situações, estava sempre acompanhado de testemunhas admitidas pelas suas posições na hierarquia da corte.

Assim, ia se estabelecendo os lugares de príncipes e princesas, condes e condessas, marqueses e marquesas, e por aí ia andando toda escala que existia na época até o mais comum dos súditos.

Se a rainha fosse parir, ali estavam vários elementos presentes testemunhando esse fato público e estatal.

Nos jogos inscritos nas relações de poder, nesses períodos, os eixos predominantes operam pelas lógicas do poder soberano, como modos de governar os vivos.

Nesse andar do jogo privado e público, com o fim dessa monarquia com a instalação da república, parece haver uma inversão, o privado vai para uma zona oculta da dimensão pública de quem ocupa lugares nas estruturas estatais, por exemplo, dos distintos regimes republicanos. O representante máximo, por exemplo um presidente da república ou um primeiro ministro, terá uma vida pública enquanto tal e uma outra vida privada a partir de seus vínculos de familiaridades.

Em muitos desses regimes proibisse elementos de fortes vínculos privados de ocuparem cargos públicos em seus governos. Toma-se isso como promiscuidade e, mais, considera-se o representante como um corpo público anônimo, pois será trocado a cada período a partir da simbolização que o seu lugar público não lhe pertence, mas sim à república e a sociedade como um todo, entidades abstratas partilhadas sensivelmente como um comum, que dá sentido à inversão do que é o público e o lugar do privado no que se refere a construção da figura do estado.

Nos jogos inscritos nas relações de poder, nesses períodos, os eixos predominantes operam pelas lógicas do biopoder (diagramas disciplinares e biopolíticas), como modos de governar os vivos.

Por dentro dos possíveis desdobramento de que o que é público também é o lugar do privado, abre-se a possibilidade do momento que vivemos hoje de um embaralhamento que deixa tudo muito turvo, não é mais claro e óbvio. Parece que nos jogos inscritos nas relações de poder, no mundo atual, os eixos predominantes operam pelas lógicas do privado fundando o público, mas não o privado da propriedade e sim o de uma pessoalização da política, na qual certas posições do âmbito de si geram efeitos sobre os modos de governar os outros, ainda mais quando se é um governante de uma Nação.

A chegada de um TRUMP, de fato embaralha com tudo, mescla o privado como o que aciona o público, como o dispositivo de publicização dos coletivos, como um ímã que atraí para si as outras forças que o rondam. Entretanto, ao contrário do rei o estado não é ele e até marca a todo instante que não deseja nem que haja o estado, pois há um outro Deus para si: o mercado e as grandes corporações.

Apesar dessa promiscuidade de novo tipo entre o público e o privado não quer seu privado invadido, só aquilo que autoriza e lhe serve para agir em rede sobre os outros.

Tuíta para cá e Tuíta para lá. Feicebuquiza para cá e para lá. Sempre emitindo opinião sobre algo e muito sobre alguém. Como regra difamando alguém que considera um opositor, um inimigo, que julga estar atrapalhando seus interesses e projetando quem lhe “pertence”.

Difama e cria verdades da sua cabeça que espalha como verdade verdadeira, mas não sem sentido; ao contrário, opera a produção de narrativas e enunciações que para muitos opera como verdadeiros chicletes, grudam nos corpinhos e os produzem.

É uma metralhadora de fake-news, que nada mais é que uma guerra de narrativas produtoras de sentidos nos outros, que usa a exaustão do seu lugar de representante simbólico dos interesses gerais de uma Nação e de sua potência para gerar publicização a partir das suas incalculáveis redes de conexões.

O fazer a política está alargado para um terreno no qual cada um se imagina um possível trumpizinho, pois pode também gerar o mesmo. Difamar e produzir fake-news e com isso em rede produzir cadeias de agenciamentos, cadeias de estímulos sobre outros de tal modo que pode gerar nesse outro identidade, mas também, em muitos casos, repulsa. Isso pouco importa, captura sob suas opiniões o outro que passa a ser pautado pelas suas ações nas redes comunicativas, que se materializam hoje como redes sociais, nas quais vamos nos forjando como coletivos e onde privilegiadamente da materialidade a emissão pública de seus pensares ou suas falas, bem estrategicamente construídas para a produção de modos de agir em rede.

Os caminhos clássicos do que é o político e do fazer a política sofrem corrosões, ou já estão tão corroídos que negá-las como caminho chave para suas ações é até visto como atitudes acertadas. A corrupção dos alicerces da república representativa lhe dá força simbólica nessa promiscuidade do seu privado como lugar de publicizar o fazer da política.

Nem tudo, porém, está controlado e sob seu domínio. Do mesmo modo que esse processo pode ser uma poderosa arma para mobilizar corações e mentes, o não cumprimento do que promete ou a aparição de outras verdades no viver dos coletivos que contestam as dos fake-news vai também corroendo a credibilidade antes adquirida, gerando também amplas zonas de descrenças. Abre-se fissuras para que a disputa de narrativas e de produção de outros possíveis mundos penetrem no interior dessa enorme cadeia comunicativa, gerando corpos rebeldes contestadores. Os coletes amarelos franceses são a prova viva disso.

O trumpismo, como modo de fazer política e governar uma Nação, tem sido um modelo. Sua performace vem sendo adotada por vários outros governantes em vários outros lugares.

Apesar de ainda não se compreender muito bem se isso é da moda ou se de fato há uma giro importante, no que significa o lugar do público e do privado nesse fazer-se socialmente no atual contemporâneo. Mas, o que parece é que a falência da velha fórmula da separabilidade do público e do privado foi para o ralo e agora estamos diante da abertura para novas criações e invenções do que é viver algo que possa parecer, mas não é, um novo “contrato social”, ou da produção de um outro comum entre todos.

O estado claramente existe e não existe.

Textos que podem ampliar essa conversa:

Merhy, E.E. Entre aparelhos, rodas e praças (Introdução) In Aciole, G.G. A Saúde no Brasil: cartografias do público e privado. 1. ed. São Paulo: Hucitec, 2006.

Merhy, E.E. A organização não existe. A organização existe: uma conversa da micropolítica do trabalho, da educação permanente e da análise institucional In: L’Abbate, S. e alls  Análise Institucional e Saúde Coletiva.1 ed. São Paulo : Hucitec, 2013, v.1, p. 579-596.


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