Semana On

Domingo 22.set.2019

Ano VIII - Nº 364

Mundo

Nova Zelândia vai endurecer legislação de armas

Neozelandeses entregam voluntariamente suas armas após massacre cometido por extremista de direita

Postado em 19 de Março de 2019 - Redação Semana On

Aos 38 anos, primeira-ministra da Nova Zelândia dá lição de humanidade e liderança após ataques. Aos 38 anos, primeira-ministra da Nova Zelândia dá lição de humanidade e liderança após ataques.

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A primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, afirmou que seu governo anunciará em breve leis mais rígidas para a posse de armas, dias após um atirador abrir fogo em duas mesquitas e matar 50 pessoas na cidade de Christchurch.

"Dez dias após esse terrível ato de terrorismo, já teremos anunciado reformas que vão tornar nossa comunidade mais segura", disse a primeira-ministra após seu gabinete definir os princípios da reforma da legislação. 

Ardern disse que os membros de seu gabinete e da coalizão de governo concordam com a necessidade de reduzir o acesso a armas de fogo como as utilizadas pelo atirador australiano Brenton Tarrant, de 28 anos, no massacre ocorrido na sexta-feira passada. "Tomamos a decisão como gabinete de governo, estamos unidos", disse, ao lado do vice-primeiro-ministro e parceiro de coalizão, Winston Peters.

Peters, membro do partido Nova Zelândia em Primeiro Lugar, que inicialmente se opunha a novas regulamentações sobre os armamentos no país, disse que apoia totalmente a primeira-ministra. "A realidade é que, após as 13h de sexta-feira [horário local em que ocorreu o massacre], nosso mundo mudou para sempre, e nossas leis também mudarão", afirmou.

Ardern não forneceu detalhes sobre as mudanças na lei, mas disse que apoia a proibição de armas semiautomáticas como as utilizadas pelo atirador em Christchurch. Ela encorajou os proprietários de armas que desejam entregá-las às autoridades para que o façam.

"A clara lição da história em todo o mundo é que, para tornar nossa comunidade mais segura, a hora de agir é agora", disse a primeira-ministra. "Acredito fortemente que a maioria dos proprietários de armas na Nova Zelândia irá concordar com o sentimento de que uma mudança deve ocorrer."

Estima-se que haja 1,5 milhão de armas de fogo no país de 5 milhões de habitantes. Apesar de um reforço nas leis nos anos 1990, a legislação sobre armamentos da Nova Zelândia é considerada relativamente permissiva.

Quase todas as pessoas que solicitam licença para o porte de armas a conseguem. Uma pesquisa com base em dados oficiais, divulgada pela imprensa neo-zelandesa, afirma que 99% das pessoas que se registraram para a licença de armas em 2017 conseguiram obter o documento.

A licença é obtida após uma verificação dos antecedentes criminais pela polícia. Apenas os proprietários são registrados, e não as armas, o que faz com que não exista um monitoramento sobre quantas unidades uma pessoa pode possuir. No entanto, crimes violentos são raros no país, e os policiais nem sempre andam armados.

Ardern disse que haverá um inquérito sobre o papel das agências de inteligência para verificar se elas deveriam ter dado atenção maior a eventuais sinais de alerta e, possivelmente, evitado o ataque. Ela afirmou que 250 investigadores e especialistas trabalham em todo o país nas investigações.

O papel das mídias sociais também será avaliado, uma vez que o atirador transmitiu ao vivo o massacre através do Facebook. Um adolescente foi levado aos tribunais nesta segunda-feira, acusado de divulgar a filmagem do atentado.

Tarrant, que foi levado a um tribunal no último sábado, sob a acusação de assassinato, demitiu o advogado Richard Peters, que havia sido designado pelo Estado para defendê-lo. Peters afirmou que o atirador de 28 anos quer representar a si mesmo na corte. 

"O modo como ele se apresentou foi racional, como alguém que não sofre quaisquer distúrbios mentais. Ele parecia entender o que estava acontecendo", disse o advogado. Segundo as leis neo-zelandesas, se Tarrant se declarar inocente, seu caso deverá ir a julgamento, aumentando a possibilidade de ele ficar frente a frente com sobreviventes e familiares das vítimas.

As vítimas do ataque eram de gerações diferentes, de idade entre 3 e 77 anos, segundo uma lista que circulou entre os parentes. Alguns eram da vizinhança e outros de países mais distantes, como o Egito.

O governo da Índia afirmou que cinco pessoas do país morreram. O Paquistão confirmou que nove de seus cidadãos também estavam entre os mortos, incluindo um homem que tentou deter o atirador. Segundo as autoridades, 31 pessoas ainda estão internadas nos hospitais, nove delas em estado crítico.

Neozelandeses entregam voluntariamente suas armas

Muitos donos de armas na Nova Zelândia estão entregando seus armamentos após o ataque. A polícia tem pedido que a população entre em contato com a delegacia mais próxima e se informe sobre como transportar suas armas com segurança. Estima-se que existam 1,1 milhão de armas de fogo no país, uma proporção de uma arma para cada quatro habitantes, incluindo armamentos para caça.

Os heróis do massacre na Nova Zelândia

Após o pior ataque a tiros da história da Nova Zelândia, histórias de heroísmo vieram à tona, incluindo a de um fiel que, munido apenas de uma máquina de cartão de crédito, perseguiu o atirador.

No local do segundo ataque, a mesquita de Linwood, Abdul Aziz, de 48 anos, ajudou a evitar mais vítimas do que as ao menos sete deixadas pelo atirador, segundo a polícia e testemunhas.

Nascido no Afeganistão, Aziz afirmou que atacou Tarrant do lado de fora da mesquita após alguém gritar que um homem havia aberto fogo no templo.

"Ele vestia roupas militares. Eu não tinha certeza se ele era o mocinho ou o bandido. Quando ele me xingou, tive certeza de que não era o mocinho", contou.

Ao se dar conta que a mesquita estava sendo alvo de um ataque, Aziz correu em direção ao atirador, fazendo de uma máquina de cartão de crédito uma arma improvisada. Sua intenção era distrair o atirador.

Tarrant correu para seu carro para buscar outra arma. Aziz jogou a máquina de cartão na direção do agressor, se abaixando entre os carros quando o australiano abriu fogo.

A seguir, o afegão pegou uma arma largada por Tarrant e puxou o gatilho, mas ela estava descarregada. O atirador voltou para a mesquita, e Aziz o seguiu, confrontando-o.

"Quando ele me viu com uma arma na mão, largou a arma dele e saiu correndo para o carro. Eu o persegui", disse. "Ele entrou no carro e eu peguei a arma e a joguei contra a janela dele, como uma flecha." Assustado com o vidro do carro quebrado, o atirador teria dado a partida.

Aziz afirmou que quatro de seus filhos estavam com ele na mesquita no momento do ataque. O imã da mesquita de Linwood, Latef Alabi, afirmou que o número de mortos teria sido muito maior se não fosse por Aziz. Cerca de cem fiéis muçulmanos conseguiram se salvar.

Abdul Aziz disse que não sentiu medo ao enfrentar o atirador

"Quando voltei para dentro da mesquita, todo mundo estava muito assustado e tentando se esconder", disse Aziz. "Eu falei: 'Vocês estão a salvo agora. Levantem-se, ele foi embora.' E então todo mundo começou a chorar."

Aziz é natural de Cabul, a capital do Afeganistão, e deixou o país quando criança. Ele viveu na Austrália por 25 anos antes de se mudar para Christchurch, há dois anos e meio, onde tem uma loja de móveis.

Ele disse que não sentiu medo quando enfrentou o atirador. Foi que como se estivesse no piloto automático. E ele acredita que Alá não tenha achado que aquele era o momento de ele morrer.

Além do afegão, outros heróis foram revelados à medida que investigadores buscavam informações sobre o ataque. Um deles é Naeem Rashid, de 50 anos, que foi visto atacando Tarrant no vídeo que o atirador fez na mesquita Al Noor e transmitiu ao vivo pelo Facebook. Rashid, natural do Paquistão e que vivia na Nova Zelândia há nove anos, e o filho de 21 anos morreram no ataque.

Safi Rizwan, sobrinho de Rashid, afirmou que, com sua atitude, o tio transmitiu uma mensagem. "Se você vir algo acontecendo que não é bom para outras pessoas, ou que esteja ferindo outras pessoas, você deve fazer de tudo para salvá-las, mesmo que isso significa entregar a sua própria vida."

Dois policiais que estavam nos arredores da mesquita de Linwood, um deles munido apenas de uma pistola, também estão entre os que enfrentaram o atirador com coragem.

Eles perseguiram o atirador, bloquearam seu carro e conseguiram capturá-lo, 36 minutos após as autoridades receberem o primeiro alerta sobre o ataque. Uma testemunha filmou o momento da detenção e postou as imagens nas redes sociais.

"Eles [os policiais] puseram a Nova Zelândia em primeiro lugar", afirmou a primeira-ministra neozelandesa, Jacinda Ardern, que classificou o atentado de um ato de terrorismo.

Ela disse que se não fosse pelos dois policiais, Tarrant teria feito mais vítimas ainda. "Ele estava de carro, tinha outras duas armas no veículo e era sua intenção prosseguir com o ataque", afirmou. Segundo a polícia, Tarrant também transportava duas bombas caseiras.

O comissário da polícia Mike Bush também elogiou os policiais que contiveram o massacre. "Estou extremamente orgulhoso do que eles fizeram. Eles atuaram com coragem absoluta", disse. "Ele evitaram mais mortes e arriscaram as próprias vidas para fazê-lo."

Primeira-ministra da Nova Zelândia dá lição de humanidade e liderança após ataques

A primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, tem dado um show de humanidade e sido elogiada por sua conduta após os ataques a mesquitas no último dia 15, que deixaram 50 mortos. Ardern condenou o ataque lembrando palavras ditas no julgamento do nazista Adolf Eichman, em 1961. “Visões extremistas que não têm espaço na Nova Zelândia e, na verdade, não têm lugar no mundo”. Após o massacre, ela fez um pronunciamento em cadeia nacional informando que vai mudar a as leis com o intuito de limitar o acesso às armas de fogo no país. “Agora é a hora de mudar”, disse.

Mas não foram só discursos, Ardern vestiu um véu e foi a mesquitas e visitou familiares dos mortos, abraçando e dando apoio a eles. Afirmou que os muçulmanos fazem parte da comunidade neo-zelandesa, “vocês são nós”. “Minha missão é garantir a segurança de vocês, sua liberdade de culto, sua liberdade de expressar sua cultura e sua religião. A Nova Zelândia é essa que vocês veem (apontando para a reunião com a comunidade islâmica). Nada do que aconteceu nos representa.”

Nas redes sociais, vídeos da primeira-ministra viralizaram no último final de semana, inclusive por muçulmanos, que ressaltam que ela é uma verdadeira estadista. No Brasil, Ardern também tem chamado atenção.”Uma aula de compaixão, empatia e exercício amoroso do poder. O exemplo vem da mulher que comanda a Nova Zelândia”, disse o jornalista André Trigueiro.

Aos 38 anos, Ardern é a primeira-ministra mais jovem da Nova Zelândia. É do Partido Trabalhista, define-se como social-democrata e progressista, defende impostos para pessoas de rendas altas e um Estado de bem-estar social. Em 2008, foi eleita presidente da União Internacional da Juventude Socialista. Anunciou sua gravidez em janeiro de 2018, conciliando a gestação com o cargo. A primeira-ministra deu à luz uma menina no dia 21 de junho de 2018.

 


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