Semana On

Domingo 21.jul.2019

Ano VII - Nº 356

Poder

Chefe da delegação brasileira na ONU mostra que autoritarismo domina o Itamaraty

Diplomata Maria Nazareth Farani Azevêdo deixa sala para não ouvir resposta de Jean Wyllys

Postado em 15 de Março de 2019 - Redação Semana On

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Um debate sobre autoritarismo e direitos humanos na sede europeia da ONU terminou nesta sexta (15) uma demonstração de autoritarismo por parte da chefe da delegação brasileira junto às Nações Unidas, Maria Nazareth Farani Azevêdo.

Um vídeo realizado na sala em que ocorreu o evento mostra a embaixadora, que está na plateia, se levantando para deixar o recinto depois de ter feito uma pergunta ao ex-deputado Jean Wyllys, que renunciou ao terceiro mandato e saiu do Brasil após receber ameaças de morte. 

"O presidente Bolsonaro não fugiu do Brasil após a tentativa real - e muito televisionada - de tirar sua vida", disse a embaixadora. O discurso foi publicado na conta oficial da delegação brasileira em Genebra no Twitter, e republicado pelo Itamaraty na mesma rede social. "O governo Bolsonaro não é uma organização criminosa. Nem o presidente Bolsonaro é fascista ou autoritário. Ele não cuspiu na cara da democracia."  Sem mencionar Wyllys, o texto faz referência à votação do impeachment de Dilma Rousseff, quando o então deputado do PSOL cuspiu em direção a Bolsonaro no plenário da Câmara dos Deputados.

O discurso da embaixadora também diz que o governo Bolsonaro está comprometido com a proteção de grupos vulneráveis, inclusive a comunidade LGBT. "Eles (LGBT) estão sendo incluídos e não estão sendo discriminados por qualquer instituição oficial de forma alguma", diz o texto. 

O mediador então pergunta: "A senhora não quer ouvir a resposta dele?". Farani diz: "Desde que eu possa fazer uma tréplica". E ouve: "Desculpe, não é assim que as coisas funcionam".

"Por favor, embaixadora, ouça a minha resposta", pede Wyllys. "Se a senhora gosta de debate, deveria ouvir a minha resposta." E continua: "O fato de a senhora ter saído do seu lugar e vir com um discurso pronto para essa sala é um sintoma mesmo de que a minha presença aqui amedronta a senhora e o seu governo, que não tem compromisso com a democracia, sobretudo em um momento em que a imprensa revela relações entre organizações criminosas, os assassinos de Marielle Franco e a família do presidente da República, que ocupa o Palácio do Planalto".

Nesse momento, de pé, Farani diz: "A sua presença aqui envergonha o Brasil".

Wyllys prossegue: "Agora é a minha vez de falar, embaixadora. Por favor, respeite a democracia". E repete: "Por favor, respeite a democracia, embaixadora".

Farani reage, mas não é possível ouvir com clareza no vídeo o que ela diz. Por fim, a embaixadora começa a caminhar em direção à saída.   

"É importante que cada pessoa sempre cuspa na cara de quem faz elogio à tortura", afirma nesse momento Wyllys. "A tortura é um crime de lesa-humanidade. Nós não deveríamos tolerá-la em hipótese alguma, sobretudo envolvendo os que se autoproclamam democráticos. Muito obrigado." 

A plateia aplaude o fim da intervenção do ex-deputado.

O deputado federal David Miranda (PSOL), que assumiu uma cadeira na Câmara no lugar de Jean Wyllys, protocolará na segunda-feira (18) requerimento na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, da qual faz parte, para convidar a embaixadora a prestar esclarecimentos sobre o caso. O requerimento também convocará o chanceler Ernesto Araújo. 


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