Semana On

Quinta-Feira 18.jul.2019

Ano VII - Nº 356

Brasil

A postura do clã Bolsonaro no caso Marielle

Presidente e filhos se dividiram entre silêncio, desprezo e em minimizar importância do crime ao longo de um ano de investigações. Após prisão de suspeitos, família adota tom mais defensivo

Postado em 14 de Março de 2019 - Thomas Milz e Jean-Philip Struck (DW), Leonardo Sakamoto (UOL)

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Brasil, 14 de março de 2018. Horas após os assassinatos da vereadora carioca Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, praticamente todos os pré-candidatos à Presidência lamentaram as mortes e cobraram investigações rigorosas. "Barbárie" e "crime grotesco" deram o tom de algumas declarações.

Apenas um pré-candidato não quis comentar, seja para cobrar apuração ou lamentar: Jair Bolsonaro. No dia seguinte, um assessor afirmou que o então deputado não pretendia comentar o caso porque sua "opinião seria polêmica demais".

Nos meses que se seguiram, o futuro presidente e seu clã político intercalariam silêncio com declarações e ações para minimizar a gravidade do crime, manifestando ainda, em algumas ocasiões, desprezo pela comoção nacional e internacional com a morte da vereadora, que atuava na cidade que há décadas é a base eleitoral de Jair Bolsonaro.

"Crime comum" e "mais uma morte no Rio de Janeiro", foram algumas das declarações que partiram inicialmente do clã. Menos de um mês depois do crime, à época da prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um dos filhos do presidente também afirmou que "se Marielle estivesse viva, provavelmente defenderia o ladrão Lula".

Enquanto Jair permanecia em silêncio na semana seguinte ao crime, seus filhos - Carlos, Eduardo e Flávio - usaram as redes sociais tanto para reforçar uma narrativa de crime comum e para demonstrar desconfiança com a hipótese de participação de policiais ou ex-policiais ligados à milícia. Flávio, então deputado estadual no Rio, chegou a publicar no Twitter inicialmente uma mensagem em que lamentava a morte de Marielle. "Apesar de profundas divergências políticas, sempre tive relação respeitosa com ela". Apagou o texto pouco depois. No lugar, publicou uma mensagem prestando solidariedade à família de um PM do Rio que morreu em um assalto.

Em outubro, ele também defenderia dois candidatos do PSL que quebraram uma placa em homenagem a Marielle afixada em uma rua do centro do Rio. Segundo ele, os correligionários "nada mais fizeram do que restaurar a ordem” e que a homenagem havia sido "ilegal".

Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), que havia sido colega de Marielle na Câmara Municipal do Rio, também não lamentou a morte e sugeriu que as Nações Unidas eram hipócritas por se manifestarem sobre o caso.  Dois dias depois da morte de Marielle, publicou no Twitter o link de uma reportagem sobre a morte de um empresário em um assalto e escreveu: "Ninguém verá a ONU se manifestar por isso". No final de março de 2018, voltou a usar o mesmo tom ao comentar a morte de um PM catarinense. "Essa realidade a Globo, a ONU, o PSOL, as feministas e toda esquerda continuarão ignorando."

No Carnaval de 2019, quase um ano após o crime, Carlos também criticou a escola samba Mangueira, que homenageou Marielle em seu desfile. "Dizem que a Mangueira, escola de samba campeã do carnaval e que homenageou Marielle, tem o presidente preso, envolvimento com tráfico, bicheiros e milícias. Esse país está de cabeça pra baixo mesmo."

Já as primeiras manifestações do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) sobre o caso atacaram a hipótese de que Marielle e Anderson teriam sido mortos por policiais. "Vão falar, refalar, bater, repetir tanto que a vereadora foi executada por um PM mesmo sem uma prova concreta disso. Daí quando surgir uma possibilidade qualquer de se ligar o crime a Policial em particular, pronto, ele já estará condenado”, escreveu no dia 15 de março. No mesmo dia, ele também reproduziu uma mensagem que dizia: "O assassino da vereadora Mirielle Franco (sic)...se for um PM guilhotina, se for um traficante é vítima da sociedade. Assim é a esquerda."

No início de abril de 2018, Eduardo também reclamou no Twitter da cobertura de manifestações em homenagem a Marielle. "Jornal Nacional: 'manifestantes no Brasil e no exterior homenageiam Mariele'. Só vi imagens fechadas para não mostrar os vazios e poucas pessoas acendendo velas". Eduardo também citou a vereadora após um ato que precedeu a prisão de Lula, em abril. "Quase todo PSOL, inclusive seu presidenciável, estavam (sic) no ato em apoio ao maior corrupto da Terra, Lula. Se Mariele (sic) estivesse viva provavelmente estaria lá a defender o ladrão Lula. Não desejo a morte de ninguém, mas querer meter goela abaixo que PSOL é exemplo de algo também não dá".

Jair Bolsonaro, por sua vez, enquanto era cobrado para se manifestar nos dias seguintes ao crime, usou o Twitter para saudar a descoberta de uma proteína no "leite do ornitorrinco" que pode combater superbactérias. O futuro presidente só rompeu o silêncio no dia 20 de março, e para reclamar da cobrança da imprensa por uma manifestação. "Nos enterros dos PMs nenhum presidenciável foi e vocês não deram porrada neles como dão em mim", disse a jornalistas.

Nos meses seguintes ao crime, em entrevistas, Bolsonaro também minimizaria o caso. "Para a democracia não significa nada. Mais uma morte no Rio de Janeiro e temos que aguardar a investigação", disse ao jornal O Globo no final de abril.

Em maio, quando as investigações apontaram que a morte de Marielle poderia estar relacionada a denúncias da vereadora contra a grilagem de terras por milícias, Bolsonaro chamou de "demagogia" a possível entrada da Polícia Federal no caso. Disse ainda a um jornalista do Portal O Tempo: "qual é a diferença da minha vida e da sua com a da Marielle?". "Num primeiro momento, falaram absurdos: 'Crime político', que era uma mulher ue 'poderia ser presidente da República'. Confesso que mal conhecia a senhora Marielle. (...) É outro crime comum como outro qualquer", disse. 

No mês seguinte, Bolsonaro afirmou que a possível participação de milicianos suspeitos de grilagem de terras nas mortes demonstrava "que não foi crime político". "É econômico. É briga de milícia", disse ao jornal Correio Braziliense. "A grande mídia deu espaço enorme. [Chamou] de 'heroína', 'futura presidente', 'mulher lésbica'. Peraí... Morre gente da sociedade (...) e ninguém toma uma providência. Grande parte das redações são tomadas por gente de esquerda que faz um estardalhaço terrível."

Bolsonaro não voltaria ao tema Marielle até 12 de março de 2019, quando os ex-PMs Ronnie Lessa e Élcio Queiroz foram presos por suspeita de executarem a vereadora e o motorista. A essa altura, uma série de elos já havia associado o clã Bolsonaro ao crime. Em janeiro, uma operação contra milicianos revelou que Flávio havia empregado em seu gabinete a mulher e a mãe de outro ex-PM que chegou a ser apontado como suspeito pelos assassinatos em outra linha de investigação. O ex-PM em questão já havia sido homenageado por Flávio na Assembleia Legislativa do Rio em 2005 e havia sido defendido por Jair Bolsonaro em um discurso na Câmara meses depois, quando foi condenado por homicídio. O caso levou a imprensa a revisitar antigas declarações do clã de apoio à milícia.

A prisões de Lessa e Queiroz revelaram mais elos. Lessa foi preso em sua casa, que fica no mesmo condomínio fechado em que Jair e Carlos têm suas residências. O delegado do caso também confirmou que um dos filhos do presidente namorou a filha de Lessa. No entanto, a polícia e o Ministério Público apontaram que encaram esses episódios como coincidências. Pouco depois, a Polícia Civil revelou que encontrou 117 fuzis na casa de um comparsa de Lessa, reforçando a suspeita de que ele também era um traficante de armas. Por fim, a imprensa brasileira divulgou uma fotografia de 2011 na qual Élcio Queiroz aparece ao lado de Jair Bolsonaro.  

Quando questionado sobre as prisões, Bolsonaro adotou um tom mais brando, em contraste com a postura de 2018. "Espero que realmente a apuração tenha chegado de fato a esse, se é que foram eles os executores, e o mais importante, quem mandou matar", disse. Com uma postura defensiva, também citou o atentado que sofreu em setembro de 2018, cuja investigação não apontou um mandante. "Também estou interessado em saber quem mandou me matar." Sobre a fotografia ao lado de um dos suspeitos, disse: "Tenho foto com milhares de policiais civis e militares, com milhares no Brasil todo".

No dia seguinte, ainda disse a jornalistas que não mantinha qualquer relação com seu vizinho suspeito pelo crime. "Não lembro desse cara. Meu condomínio tem 150 casas", afirmou. "O que tenho a ver com ele? Não tem vida social no meu condomínio", disse o presidente.

Eduardo, por sua vez, voltou a afirmar que a morte de Marielle e de Anderson não se distingue de outros homicídios e que há "um desespero" para relacionar o crime ao seu pai. "É um desespero para tentar dizer que Bolsonaro tem culpa no cartório. Pelo amor de Deus, tentar fazer essa relação é mais do que absurda, é repugnante", disse ao jornal O Globo. "Esse caso de assassinato é como vários outros casos de assassinato", concluiu.

Seu irmão Flávio também adotou a mesma postura defensiva. "Forçação total de barra. Agora virou fator importante para o crime o cara [Lessa] coincidentemente morar no condomínio dele? Essa narrativa não vai colar, não", disse o senador.

O que é coincidência?

O que pensar de todas essas curiosas ligações entre o assassinato de Marielle Franco e o clã Bolsonaro?, questiona o jornalista alemão Thomas Milz.  "Tentar fazer essa relação é mais do que absurdo, é repugnante." Com essas palavras reagiu o deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente da República, aos relatos da imprensa sugerindo uma relação do clã com Ronnie Lessa.

Estaria a imprensa brasileira insinuando que a família presidencial está envolvida no caso? Não sei. Mas a história é, no mínimo, curiosa.

Lessa, que segundo os investigadores foi o executor de Marielle, mora no mesmo condomínio de Jair Bolsonaro no Rio. Segundo o jornal O Globo, três casas mais à frente. Além disso, o delegado Giniton Lages, da Delegacia de Homicídios do Rio de Janeiro, deu a entender que a filha de Lessa namorou um dos filhos de Bolsonaro.

Isso leva então à pergunta sobre como um assassino profissional conhecido da polícia pode morar ao lado do presidente da República sem que o aparato de segurança tenha feito nada ao longo de meses.

Acima de tudo: não chamou a atenção que um simples policial possa morar numa mansão no mesmo condomínio do presidente? E não deveria Bolsonaro estar incrivelmente aliviado agora, que um vizinho perigoso como esse tenha saído do caminho dele? Nesse sentido, não ouviu-se nada do presidente.

Em vez disso, Bolsonaro preferiu atacar pelo Twitter a filha do jornalista Chico Otávio, que é responsável no jornal O Globo por cobrir as atividades das milícias no Rio, assim como o caso Marielle Franco.

"Constança Rezende, do 'O Estado de SP' diz querer arruinar a vida de Flávio Bolsonaro e buscar o impeachment do Presidente Jair Bolsonaro. Ela é filha de Chico Otávio, profissional do 'O Globo'. Querem derrubar o Governo, com chantagens, desinformações e vazamentos", escreveu Bolsonaro no Twitter.

O tuíte do presidente se baseou num fake news sobre Constança Rezende.

Claro que tudo isso pode ser coincidência. Mas fato é que Jair Bolsonaro nunca fez segredo de sua simpatia por milícias e grupos de extermínio.

Seu filho mais velho, o hoje senador Flávio Bolsonaro, empregou durante anos a mulher e a mãe do capitão Adriano Magalhães da Nóbrega em seu gabinete. Nóbrega é um dos líderes do chamado Escritório do Crime, um grupo de extermínio que comete assassinatos por encomenda.

Membros do grupo chegaram a ser homenageados por Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio. Na terça-feira, a polícia não descartou que o assassino de Marielle faça parte do "Escritório".

Claro que tudo isso pode ser coincidência.

O próprio Flávio Bolsonaro declarou que seu amigo e motorista Fabrício Queiroz era responsável por todas as coisas estranhas, por assim dizer – inclusive a transferência feita para a hoje primeira-dama Michelle Bolsonaro.

O motorista do carro usado no assassinato de Marielle se chama, também, Queiroz. Mas isso é certamente só uma coincidência.

Tanto o suspeito de ter puxado o gatilho, Ronnie Lessa, como o motorista, Élcio Vieira de Queiroz, teriam sido avisados de que seriam presos na madrugada de terça-feira.

Eles devem ter, portanto, cúmplices – ou pelo menos bons amigos – em postos-chave no aparato de segurança do estado. Isso ajudaria a explicar por que todas as câmeras de segurança na noite daquele 14 de março foram desligadas.

Mas, é claro, isso pode ser também nada mais que uma coincidência.

Análise

"O governo Jair Bolsonaro vai acabar sendo acusado de cúmplice de milícias", afdirma o jornalista e cientista social Leonardo Sakamoto.

E a razão não é a defesa apaixonada que o presidente, quando deputado federal, fazia desses grupos de bandidos oriundos das forças de segurança sob a justificativa de garantirem a ordem. Tampouco as homenagens prestadas a milicianos assassinos por seu filho 01, o senador Flávio Bolsonaro, quando este era deputado estadual. Nem a contratação para o gabinete deste, na Assembleia Legislativa do Rio, da mãe e da esposa do chefe de uma temida milícia. Ou a coincidência de sua casa ficar a poucos passos da residência do executor de Marielle Franco e a coincidência maior ainda de seu filho 04 ter, segundo a polícia, namorado a filha do miliciano – que também pode estar envolvido na maior apreensão de fuzis da história do Rio.

A cumplicidade se deverá ao fato do presidente da República parecer fazer de conta que essas organizações não são um problema real, quando elas já controlam um território maior que o do tráfico de drogas no Rio de Janeiro e atuam por todo o país.

A informação sobre a extensão desse poder vem do deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ). Ele defendeu a criação de uma CPI das Milícias na Câmara dos Deputados para identificar como elas interferem na política. Isso acontece na esteira da prisão do policial militar reformado Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio Queiroz.

A despeito da pífia citação das milícias no pacote legislativo contra o crime organizado e a corrupção, encaminhado pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, ao Congresso Nacional, sugerindo inclui-las no rol de organizações criminosas, não há um plano para lidar com esses grupos – cujas relações e tentáculos infestam o Estado.

"O problema é que, ao contrário do que ocorre com uma facção criminosa, uma milícia raramente vai para a porrada aberta com a polícia por razões óbvias. Não se combate milícia com ocupação de território e grandes operações policiais. O enfrentamento, portanto, envolve retirar seu poder econômico, o que inclui o uso intensivo de serviços de inteligência integrados, que possam identificar quem das forças de segurança está dentro dessas organizações", afirma Sakamoto.

Prova de como precisamos dessa integração é a imagem com 117 novos fuzis encontrados na periferia da capital carioca que teriam relação com o acusado de matar Marielle. Como chegaram ao Rio, ninguém sabe, ninguém viu.

Milícia e tráfico já vivem uma simbiose de métodos e territórios, tanto que – não raro – é difícil diferenciá-los. Mas tudo é tão escrachado e visível que vemos apoiadores de milicianos aparecerem nas redes sociais e na política, chamando esses bandidos de heróis e pedindo a morte dos outros bandidos, os traficantes. O escracho é tão grande que se defende os métodos aplicados pelas milícias, de tortura e morte, de qualquer pessoa que seja contra a ocupação mafiosa dos bairros pobres. Ocupação que usa a torpe justificativa de estar garantindo "segurança" contra os criminosos quando são eles próprios representantes do crime.

Não à toa a milícia está onde o Estado não está presente na garantia de direitos fundamentais e de fiscalização, ela ocupa esse vácuo. O debate de segurança pública passa, portanto, por discutir para quem a cidade vai funcionar, com quem a cidade vai funcionar e pela radicalização de um processo de democracia. Chamando as próprias comunidades a participar das decisões sobre seu futuro e não impondo soluções de cima para baixo que não geram mudanças no longo prazo.

Com uma política corrupta no Rio de Janeiro seria estranho se parte da estrutura de policiamento também não fosse. Diante de indagações de como reduzir essa corrupção e atacar milícias formadas por policiais e militares, além de proteger os agentes de segurança honestos, garantindo sua integridade física e a de suas famílias, muitos políticos calam-se, mostrando que falta vontade, conhecimento e coragem. Ou sobra rabo preso.


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