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Sexta-Feira 15.nov.2019

Ano VIII - Nº 371

Brasil

Quem mandou matar Marielle?

A alegada elucidação do caso Marielle produziu mais dúvidas do que certezas. Considerando-se que está em curso uma investigação da investigação, resta concluir: só a Polícia Federal pode retirar esse inquérito do caminho do brejo

Postado em 14 de Março de 2019 - João Soares (DW), Bruno Boghossian (Folha de SP), Josias de Souza (UOL)

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Um passo importante foi dado no caso Marielle Franco. Uma operação da Divisão de Homicídios da Polícia Civil do Rio e do Ministério Público (MP) estadual prendeu dois suspeitos de participar da execução.

De acordo com a denúncia do MP, o policial militar reformado Ronnie Lessa, de 48 anos, seria o responsável por realizar os disparos que levaram às mortes. Já o ex-policial militar Élcio Vieira de Queiroz, de 46 anos, é apontado como motorista do carro que perseguiu Marielle na noite do crime. 

Após as prisões, pessoas ligadas à vereadora ficaram divididas entre celebrar o avanço no sentido da elucidação do caso e cobrar informações sobre quem foi o mandante da execução, algo que ainda não foi revelado pelos investigadores.

"Não deixa de ser uma vitória, mas é incompleta. Foi um ano de muita dor, de muito sofrimento. Mas a gente ainda tem esperança de saber o que realmente aconteceu", afirmou Marinete Silva, mãe de Marielle. "É lógico que aumenta muito a nossa dor saber que a morte da sua filha foi planejada. Isso torna tudo muito mais doloroso. Nunca perdi a esperança. Agora, precisamos saber o motivo dessa barbaridade toda."

A viúva de Marielle, Mônica Benício, também adotou tom crítico à falta de respostas sobre os mandantes do assassinato. "Mais importante do que prender ratos mercenários é a gente responder quem é o verdadeiro assassino disso tudo, quem mandou matar", disse, apesar de elogiar o trabalho do MP e a conversa que teve com a equipe de investigação.

"Faz um ano que a minha vida pessoal está completamente parada, imersa nessa luta de justiça por Marielle. Obviamente tivemos entraves de gente que não estava interessada em que esse assassinato seja elucidado", acrescentou.

Na mesma linha, o deputado federal Marcelo Freixo (Psol-RJ), com quem Marielle trabalhou por 11 anos, ressaltou a importância de identificar quem está por trás do crime.

"Quem matou Marielle não foi apenas quem apertou o gatilho. Quem matou Marielle foi quem planejou a sua morte, quem contratou, quem politicamente desejou eliminar Marielle. É muito importante para o país saber quem mandou matar Marielle, qual o objetivo político e qual a motivação", disse.

A Anistia Internacional também cobrou informações sobre os mandantes do crime e, para isso, destacou a importância de investigações independentes. "Agora, mais do que nunca, a Anistia Internacional reitera a necessidade de, como já foi feito em outros países, um grupo externo e independente de especialistas para acompanhar as investigações e o processo", afirmou a organização. 

"A organização reitera que ainda há muitas perguntas não respondidas e que as investigações devem continuar até que os autores e os mandantes do assassinato sejam levados à Justiça", acrescenta a nota.

Marielle, de 38 anos, e Anderson, de 39, foram assassinados em 14 de março de 2018 no bairro do Estácio, região central do Rio, quando saíam de um evento no qual a vereadora palestrou. O carro foi alvejado por vários disparos, dos quais quatro atingiram a cabeça dela.

Capítulos da investigação

As investigações do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MP do Rio revelaram que o crime foi meticulosamente planejado ao longo de três meses. Nesse período, Lessa fez buscas na internet sobre locais que a vereadora frequentava. A promotora Simone Sibilio, coordenadora do Gaeco, assegurou que a motivação do assassinato decorre da atuação política de Marielle.

"Foi a motivação torpe, decorrente de uma repulsa, de uma reação de Ronnie Lessa a uma atuação política de Marielle na defesa de suas causas. Nas causas voltadas para as minorias, para as mulheres negras, LGBT, entre outras. Isso ficou comprovado, ficou suficientemente indiciado a ponto do MP denunciar por essa motivação. Essa é uma motivação torpe, abjeta", detalhou Sibilio.

A coordenadora do Gaeco disse não ser possível descartar que se trate de um crime encomendado, embora tenha ressaltado que as pesquisas de Lessa na internet demonstram "perfil absolutamente reativo às pessoas que se dedicam às causas das minorias".

O delegado Giniton Lages, da Delegacia de Homicídios, destacou que Lessa tinha obsessão por militantes da esquerda. "O perfil dele revela uma obsessão para determinadas personalidades que militam à esquerda política. Uma obsessão por essas personalidades que nessa análise você percebe ódio, você percebe desejo de morte."

As investigações sobre o caso deverão ter continuidade. Lessa, suspeito de ser autor dos disparos contra a vereadora, tem envolvimento em outros crimes ligados à contravenção no Rio e será apurado se há ligações do PM reformado com as milícias do Rio de Janeiro.

O governador do estado, Wilson Witzel, afirmou que os dois suspeitos serão convidados a fazer delação premiada. A ideia é driblar as dificuldades dessa etapa de investigação, em que os investigadores tentarão descobrir se o crime foi encomendado.

A primeira linha de investigação sobre o caso, levantada em maio do ano passado, trabalhava com a hipótese de o assassinato ter sido encomendado por milicianos da Zona Oeste da cidade. A tese se baseava no depoimento de uma testemunha que integrou um grupo paramilitar na área, onde a atuação da vereadora teria entrado em conflito com interesses dos grupos locais. 

Como a vereadora não tinha atuação direta na região, a versão perdeu força. Outra linha de investigação trata de uma possível vingança política contra Freixo, presidente da CPI das Milícias na Assembleia Legislativa do Rio em 2008, quando era deputado estadual. Na época, Marielle trabalhava em seu gabinete como assessora parlamentar.

Além disso, Freixo moveu uma ação judicial que impediu a participação do deputado Edson Albertassi (MDB-RJ) na disputa por uma cadeira no conselho do Tribunal de Contas do Estado, o que impediu que um processo judicial contra ele e outros dois caciques do MDB, Jorge Picciani e Paulo Melo, fosse levado para o Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília. Este seria um outro possível motivo de vingança contra o deputado do Psol.

Durante a investigação do caso, a Polícia Civil do Rio descobriu, em agosto do ano passado, a atuação de um grupo conhecido como Escritório do Crime, formado por policiais e ex-policiais altamente especializados em execuções por encomenda. De acordo com o miliciano Orlando de Curicica, apontado inicialmente como suspeito principal no caso, a quadrilha teria pagado 200 mil reais pela morte da vereadora.

Em meio aos questionamentos sobre a demora na elucidação do crime, foi aberta uma investigação da Polícia Federal em novembro passado, a pedido da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, para apurar uma suposta obstrução da investigação do caso. O então ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, afirmou que a organização criminosa envolvida no processo incluía "a participação de agentes públicos, milicianos e a contravenção".

Rede de proteção

Em fevereiro, quando policiais chegaram aos endereços de 13 integrantes do Escritório do Crime, 8 deles já haviam fugido. A operação Os Intocáveis fora preparada com sigilo, mas os investigadores perceberam que alguém havia alertado a quadrilha de matadores de aluguel suspeita de assassinar Marielle Franco e Anderson Gomes.

A apuração das mortes da vereadora do PSOL e de seu motorista são uma aula sobre a blindagem que milícias e o crime organizado em geral recebem da máquina política e institucional do Rio. Por um ano, os autores do assassinato foram acobertados por uma estrutura que funciona até hoje dentro do poder público.

Autoridades federais que atuaram na intervenção na segurança do estado em 2018 encontraram uma rede para proteger milicianos e contraventores. O complô usava a força política para se perpetuar. Raul Jungmann, então ministro da Segurança, dizia que o mecanismo transformava o Rio no “coração das trevas”.

Até a prisão do PM e do ex-PM acusados diretamente pelas mortes de Marielle e Anderson, a quadrilha de assassinos foi favorecida por uma trama de depoimentos falsos, vazamentos e atrasos na apuração. A Polícia Federal precisou entrar no caso para fazer a “investigação da investigação”.

Um dos integrantes da intervenção diz, em caráter reservado, que os mandantes do crime não serão encontrados enquanto não houver mudanças profundas. Segundo ele, a teia de proteção continua estendida.

Nos meses em que esteve à frente da segurança do Rio, o governo federal não conseguiu desmantelar os esquemas que dão guarida aos criminosos. As transformações ainda dependerão de vontade política.

Durante a campanha, o governador Wilson Witzel participou do ato em que um candidato quebrou uma placa com o nome de Marielle, quando milicianos já eram suspeitos do crime. Por décadas, Jair Bolsonaro enalteceu e homenageou esses bandos. Os dois precisam se empenhar para redimir os erros do passado.

Só a PF

Um dia depois de afirmar que a polícia civil ofereceu "uma resposta importante" à sociedade na "elucidação de um crime bárbaro" como a execução da vereadora Marielle Fanco e seu motorista Anderson Gomes, o governador Wilson Witzel afastou do caso o delegado Giniton Lages. “Ou seja: a ‘resposta’ era cenográfica e a ‘elucidação’ era ficcional”, afirma o jornalista Josias de Souza.

Quando fez suas declarações categóricas, Witzel já sabia que as prisões dos supostos assassinos —os ex-PMs Ronnie Lessa e Élcio Queiroz— representavam uma vírgula numa investigação que já dura um ano. Ao afastar o delegado titular do caso, o governador sinaliza que não enxerga no doutor Giniton a capacidade para conduzir a encrenca a um ponto final.

Armou-se uma pantomima para justificar a saída do delegado. Na versão de Witzel o tira Giniton foi convidado a estudar no estrangeiro. "Como ele está com a experiência adquirida e estamos com intercâmbio com a Itália exatamente para estudar máfia, os movimentos criminosos, ele vai fazer essa troca de experiência com a polícia italiana."

Em privado, o delegado dá a entender que não pediu para trocar o caso Marielle pelo intercâmbio com a Itália. Em português claro: Giniton não trocou, foi trocado. A alegada "elucidação" do caso Marielle produziu mais dúvidas do que certezas. Considerando-se que está em curso uma investigação da investigação, resta concluir: só a Polícia Federal pode retirar esse inquérito do caminho do brejo.


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