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Terça-Feira 17.set.2019

Ano VIII - Nº 363

Brasil

Atiradores pediram dicas para atacar escola em fórum de extrema direita

Luiz Henrique e Guilherme Taucci eram frequentadores do Dogolachan e pediram ajuda para conseguir armas

Postado em 14 de Março de 2019 - Filipe Siqueira e Caíque Guimarães (R7), Leonardo Coelho e Maria Teresa Cruz (Ponte)

Os assassinos e, ao lado, Marcelo Valle da Silveira Melo, criador do Dogolochan. Os assassinos e, ao lado, Marcelo Valle da Silveira Melo, criador do Dogolochan.

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Os atiradores que mataram 10 pessoas e depois se suicidaram em uma escola em Suzano, a 50 km de São Paulo, na última quarta-feira (13), utilizaram uma das comunidades mais extremistas do Brasil para juntar dicas e fazer planos para o ataque. No fórum chamado Dogolochan, os jovens agradeceram a ajuda, e deixaram rastros para avisar seus colegas virtuais do massacre que estava por vir.

O fórum é conhecido como um local onde são discutidos abertamente a prática de crimes, violação de direitos humanos, além de racismo e misoginia.

Tópicos do fórum mostram que Luiz Henrique de Castro, 26 anos; e Guilherme Taucci Monteiro, 17, pediram dicas de como realizar o massacre. Um print datado do último dia 7 mostra o que parece ser um dos atiradores agradecendo DPR, o administrador do Dogolachan pelos conselhos recebidos.

"Muito obrigado pelos conselhos e orientações, DPR. Esperamos do fundo dos nossos corações não cometer esse ato em vão. (...) Nascemos falhos, mas partiremos como heróis. (...) Ficamos espantados com a qualidade, digna de filmes de Hollywood", diz a mensagem.

Em outras mensagens no Dogolachan, usuários se questionam se os atiradores eram integrantes do fórum e a resposta dada por um dos administradores foi positiva.

"Eles eram daqui do fórum, não?", pergunta um deles, no que DPR (o administrador) responde: Não fiquem citando, mas era confrades daqui, sim. Logo vão encontrar algo em poder deles (...)".

Segundo as mensagens, o sinal de que os preparativos para o ataque estavam prontos envolviam a publicação de um tópico com a letra de uma música conhecida dos integrantes do Dogolachan, aproximadamente três dias antes do crime. A publicação foi feita no último dia 11, às 4h31, segundo registros do próprio fórum.

Um tópico com as dicas pedidas pelos atiradores enquanto planejavam o massacre foi classificado como secreto por DPR, que mudou sua URL para não ser achado em futuras investigações de autoridades.

O próprio administrador, posteriormente, deu alguns detalhes de como ajudou os dois atiradores a conseguirem armas, além de descrever Guilherme como um "um bom garoto que acabou descobrindo da pior forma possível que brincadeiras podem ser tornar pesadelos reais".

Segundo o mesmo texto de DPR, o "Luiz entrou em contato para buscar um canal onde ele obtivesse fácil acesso a um revolver calibre 22", e logo depois lhe apresentou Guilherme. Ele encerra a publicação afirmando que as conversas foram deletadas e jamais irá revelar o teor exato delas.

Mais tarde, DPR, o administrador, descreveu trocas de e-mails com Luiz, que teria interesse em comprar uma arma com facilidade, e que também foi apresentado à Guilherme por Luiz. Segundo o administrador, Luiz era conhecido no fórum como "luhkrcher666", e Guilherme como "1guY-55chaN". DPR diz ainda que cortou o contato com Luiz por e-mail pois ele deixava muitos "rastros" digitais, que facilitariam a identificação de todos os membros.

Por fim, DPR diz que Luiz era um "rapaz injustiçado", enquanto Guilherme, de apenas 17 anos, era "inocente a ponto de transparecer sua natureza completamente infantil". Ele afirma que todas as conversas foram deletadas e jamais irá revelar o teor exato delas.

Fórum anônimo

O Dogolachan foi criado em 2013 pelo hacker Marcelo Valle Silveira Mello, também conhecido como Psy ou Batoré. Mello é conhecido por crimes de ódio e foi a primeira pessoa condenada pela Justiça do Brasil por crime de racismo na internet, em 2009. Ele se posicionou contra as cotas raciais de maneira preconceituosa e foi condenado a um ano e dois meses de prisão.

Rastrear as atividades do fórum é difícil, após ele ter sido movido para a Deep Web, onde só é possível acessá-lo através do aplicativo TOR, que confere anonimato para seus usuários.

Até maio de 2018 o site era comandado por Marcelo Valle, preso no dia 10 na Operação Bravata, da Polícia Federal. Desde então, DPR se tornou o administrador principal e tornou o fórum ainda mais rodeado de sigilo.

O fórum está ligado também ao Massacre de Realengo, onde Wellington Menezes de Oliveira — considerado um herói no Dogolachan — matou 12 crianças, antes de se matar.

Perfil

O perfil dos frequentadores do Dogolachan é o dos “incels”, os celibatários involuntários, homens que não conseguem fazer sexo e culpam as mulheres e o mundo por isso: são racistas, misóginos, homofóbicos e compartilham conteúdo pornográficos com predileção a pedofilia, além de incitarem o estupro, conforme o site Ponte mostrou numa série de reportagens no ano passado.

A comemoração anônima se seguiu de outras tantas, capazes de embrulhar o estômago de qualquer um, nesse mesmo local virtual na deep web, poucas horas após o massacre de Suzano

Postagens dos participantes do fórum começaram a dar conta de que os atiradores seriam frequentadores do grupo e que, inclusive, teriam informado a pretensão de realizar o ataque. Identificado como DPR, o moderador do fórum faz uma espécie de texto-manifesto com supostas explicações para o ataque.

“Luiz era um rapaz injustiçado, não somente pelo sistema mas por questões culturais, aonde ser branco demais, ter nariz grande ou espinhas são motivos suficientes para sofrer uma especie de terrorismo psicológico durante anos e dessa forma, cultivou seu ‘Mr.Hyde’ a ponto de deixar aflorar. Guilherme era um bom garoto que acabou descobrindo da pior forma possível que brincadeiras podem ser tornar pesadelos reais”, escreve o moderador.

Na sequência, afirma que “O sangue desses garotos não está nas mãos da esquerda, direita, pt, psl, psdb, bolsonaro, haddad ou dória, muito menos nas mãos do Dogolachan. O sangue dessas vidas foram e continuaram sendo derramados enquanto permitirmos que esse sistema opressor continue agindo e perpetuando seus ideais socioculturais anos a fio. Um sistema onde o indivíduo é intruido, mesmo que de forma indireta, a odiar e destruir seus semelhantes. Um sistema onde o somos capados fisicamente e mentalmente nôs punindo somente por pensar ou adquirir informações que desejamos”. E conclui com o trecho printado abaixo.

Há um detalhe: o anônimo escreve antes da mensagem “enviem para a Lola”, uma referência à Lola Aronovich, uma das mais antigas vítimas do grupo extremista. Blogueira feminista e professora da Universidade Federal do Ceará, Lola passou a ser perseguida virtualmente há quase dez anos justamente por causa de sua militância. Os extremistas já fizeram de tudo com ela: desde ameaçar de morte até criar conteúdos criminosos na internet em seu nome. Toda a luta de Lola foi inspiração para a criação da lei federal 13.642/18, conhecida como Lei Lola, que dá à Polícia Federal atribuição para investigar crimes de misoginia praticados na internet. Lola se manifestou no Twitter.

Além das mensagens de elogio à barbárie, uma delas, datada de 7 de março e endereçada ao DPR – que seria o moderador do fórum -, é atribuída a um dos atiradores, que agradece as dicas para a realização do plano.

A música a que o anônimo se refere na mensagem é Pumped Up Kicks, do Foster The People, que já tem até versão gravada no Youtube em português pela The Kira Justice. A canção é uma espécie de hino do Dogolachan e foi postada no dia 11, seguida de uma mensagem de incentivo.

A suposição não está confirmada, mas tem seu sentido. O atirador do massacre do Realengo, Wellington de Menezes, que em 2011 matou 12 pessoas, era um incel e frequentava fóruns desse tipo.

De outros carnavais

Os chamados “dogoleiros” já foram alvo de diversas operações da Polícia Federal, mas, mesmo assim, como se evidencia agora, estão longe de acabar. Uma delas culminou na identificação e prisão de Marcelo Valle da Silveira Melo, que acabou condenado no final do ano passado a mais de 40 anos de prisão. A atividade criminosa do grupo também for responsável por uma ameaça de bomba na Universidade de São Paulo, que na verdade era uma trollagem (brincadeira na linguagem virtual) que um dos integrantes tinha feito a um desafeto.

Na sequência, veio o site racista Rio de Nojeira. O roteiro era o mesmo: atingir um desafeto de um dos “homens sanctus” ou “confrades” do Dogolachan, como eles costumam se referir um ao outro. O rapaz, chamado Ricardo Wagner, era estudante da UniCarioca e havia se envolvido em uma discussão boba no Cartola FC, um jogo de fantasia sobre futebol. Isso foi o estopim para a trollagem.

Para extravasar a frustração, os dogoleiros exercitam o ódio. E gostam de aparecer: gerar “lulz”, como eles mesmos dizem. Os ataques que eles fazem, caso cheguem à mídia, são muito comemorados e os autores respeitados. A mais recente vítima do grupo foi o ex-deputado Jean Wyllys, que saiu do país por causa das crescentes ameaças de morte. O exílio de Jean foi muito comemorado e, mesmo fora do país, há cerca de um mês, um dos integrantes do Dogolachan compartilhou um e-mail que teria enviado ao político dizendo que sabia que ele estava na Espanha e que iria matá-lo. A assinatura da mensagem é de Emerson Eduardo Rodrigues Setim, preso ao lado de Marcelo na Operação Bravata, em março do ano passado e que está foragido. Nas redes sociais, ele se diz vítima de um complô e nega a autoria dos ataques.

Outros desafetos do grupo são: David Miranda, suplente de Wyllys no Congresso, a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) e estudantes da UFRJ (Universidade Federal do RJ). Até mesmo Nilson Izaias Papinho, o idoso youtuber, acabou virando tema de conversas. Nesse caso, os anônimos estavam comemorando as fake news que ligavam o idoso a denúncias de pedofilia.

Recentemente, o grupo criou um novo blog batizado de Astolfo Blog, também no nome de Emerson, onde publicam uma série de absurdos nos nomes dos desafetos e fazem, livremente, incitação a crimes.

Com frases de efeito como “nós somos a resistência entre os mundos”, os participantes desses fóruns oscilam entre projeções lunáticas e cometimento de crimes virtuais, bastante focados no assassinato de reputações. O principal objetivo desse novo momento do Dogolachan é provar ao juiz Marcos Josegrei, responsável pela condenação de Marcelo, que ele não é o único responsável pelas ameaças a figuras públicas. O e-mail pessoal do magistrado, inclusive, foi compartilhado há algumas semanas junto a uma orientação de atormentá-lo com mensagens.

Com uma certa fixação – que só Freud explicaria – por Marcelo, a quem chamam de Psy, os confrades citam bastante o nome dele e seus “feitos” nas conversas e chegaram a homenageá-lo em um brainstorm que chegou a dois nomes para batizar o grupo: o PCC-MV (Primeiro Comando Cibernético – Marcelo Valle) e o CV-MV (Comando Virtual – Marcelo Valle). No final das contas, a analogia com a facção criminosa paulista venceu e eles também anunciaram o lema: “Confrades, o lema maçônico do PCC é Paz, Justiça, Liberdade e Igualdade, estou pensando que o nosso poderia ser: Terror, Impunidade, Liberdade e Santidade”.


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