Semana On

Terça-Feira 23.jul.2019

Ano VII - Nº 356

Entrevista

O Twitter combina com líderes autoritários, diz pesquisador

Professor da Universidade de Westminster, no Reino Unido, Christian Fuchs fala sobre como políticos estão construindo palanques digitais

Postado em 11 de Março de 2019 - Ruan de Sousa Gabriel – O Globo

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Ao compartilhar um vídeo obsceno no Twitter, o presidente Jair Bolsonaro recorreu a um expediente cada vez mais comum nas redes sociais. Segundo o pesquisador austríaco Christian Fuchs, professor da Universidade de Westminster, no Reino Unido, populistas de direita costumam generalizar casos individuais para atacar comunidades inteiras. Autor do livro “Digital Demagogue: Authoritarian Capitalism in the Age of Trump and Twitter” (Demagogo digital: capitalismo autoritário na era de Trump e do Twitter), Fuchs falou sobre como políticos estão construindo palanques digitais.

 

Bolsonaro tuitou um vídeo obsceno. Essa é uma tática comum?

Políticos de extrema-direita generalizam casos individuais para criar bodes expiatórios e difamar comunidades inteiras. Isso não é inédito. Nos anos 1950, o macarthismo (patrulha anticomunista liderada pelo senador americano Joseph McCarthy) tentou rotular Hollywood de comunista. Hoje, a extrema-direita usa o Twitter e o Facebook para criar novos “espectros do comunismo”.

Como as redes sociais se tornaram palanques?

Donald Trump não foi o primeiro a usar o Twitter para se comunicar com seus seguidores. O primeiro-ministro indiano Narendra Modi e o presidente turco Recep Tayyip Erdogan têm, respectivamente, 46,2 milhões e 13,5 milhões de seguidores. Bolsonaro tem 3,6 milhões. O Twitter combina com líderes autoritários, pois favorece o narcisismo e o individualismo. As redes sociais são como grandes agências publicitárias em busca de lucro, não se importam com o conteúdo que fazem circular. O triunfo da lógica individualista e publicitária das redes sociais coincidiu, em muitos países, com a ascensão de novos nacionalismos e direitas autoritárias que são reações à crise global. A ocupação das redes sociais pela extrema-direita é um sintoma desta nova fase do capitalismo, que chamo de capitalismo autoritário.

O que é capitalismo autoritário?

O capitalismo autoritário se baseia em uma combinação de liderança autoritária, nacionalismo, criação de bodes expiatórios, política de tolerância zero, militarismo, reforço da ordem patriarcal e negação dos conflitos de classe. Difere de experiências autoritárias passadas porque espalha propaganda por meio das redes sociais e aproveita o conteúdo gerado pelos próprios internautas.

Por que políticos hoje preferem se comunicar com seus apoiadores pelas redes sociais?

A extrema-direita se comunica com pessoas de origens sociais diferentes por meio de um discurso nacionalista que transforma minorias e adversários políticos em bodes expiatórios. Eles querem distrair as pessoas daquilo que realmente as separa uma das outras, que é a desigualdade de renda. No Twitter, eles tentam distrair quanto mais gente for possível das contradições sociais.

Como impedir que as redes sociais se transformem em armas contra a democracia?

O uso das redes sociais por políticos é comum em todo o mundo e em todo o espectro político. Os problemas das democracias têm causas político-econômicas profundas que devem ser enfrentadas. Mudar como as redes se organizam política e economicamente é importante, mas não basta. Precisamos de mídias não comerciais, sem fins lucrativos, que deem aos cidadãos tempo e espaço para um debate político de verdade. O populismo acelera e simplifica a informação. Nós precisamos de redes sociais que não sejam tabloides digitais, mas que engajem os cidadãos em conversas baseadas em um conteúdo que estimule o pensamento e o debate. Quando demagogos dominam a esfera pública, precisamos de imprensa de qualidade e da colaboração de mídias alternativas e cidadãs para estabelecer uma esfera pública crítica.


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