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Quarta-Feira 20.mar.2019

Ano VII - Nº 342

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Entrevista

O pior chanceler do mundo

Professor da Brown University, André Pagliarini critica condução do Itamaraty sob a batuta de Ernesto Araújo

Postado em 08 de Março de 2019 - Matheus Rocha – Época

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Um chanceler sem rumo. Os erros de Ernesto Araújo à frente do Itamaraty fizeram com que o historiador Andre Pagliarini escrevesse um texto altamente crítico às condutas do chanceler na revista americana Jacobin. O título do artigo é "O pior chanceler do mundo". Assim o historiador Andre Pagliarini define Araújo, ministro das Relações Exteriores do governo de Jair Bolsonaro. Para o professor assistente da Universidade Brown, nos Estados Unidos, os atritos entre o Brasil e o governo de Maduro expuseram a falta de traquejo diplomático de Araújo. “Na crise da Venezuela, estamos vendo ele sem rumo e sem habilidade de navegar. Independentemente de achar esse governo bom ou não, a falta de rumo na política externa está óbvia.” Pagliarini também considera arriscado o país se alinhar completamente à Casa Branca. Os ventos políticos em Washington, explicou ele, podem começar a soprar na direção contrária. “Abandonar uma política externa independente e se atrelar aos EUA é uma postura que tem muito a ver com o governo americano, ou seja, com quem está na Presidência. Se Trump perder a reeleição, o que acontece?” Em entrevista à revista ÉPOCA, Pagliarini disse que a resposta não é muito boa para o Brasil.

 

Em um artigo para a revista americana Jacobin, o senhor comenta que Trump não tem reais interesses pela América Latina e pelo Brasil. Por que então Bolsonaro e Ernesto Araújo buscam se alinhar à Casa Branca?

Acho que Ernesto Araújo e Bolsonaro não têm projetos exatamente iguais, mas o que une os dois é a ambição de ter uma relação muito próxima com os Estados Unidos. Porém Trump, mais do que qualquer presidente americano na história recente, nutre quase que uma alergia em relação a questões internacionais. Uma análise dos textos de Araújo deixa bem claro por que ele vê os Estados Unidos [como um aliado]; e mais especificamente por qual razão ele vê Donald Trump como aliado. Araújo vê os EUA como o aliado natural de um projeto maior não só de relações hemisféricas, mas também globais. Ele quer construir uma aliança entre países que se dizem cristãos, que se dizem comprometidos com os valores das civilizações ocidentais, que supostamente estariam sob ataque dos globalistas. É esse o grande adversário que ele enxerga no mundo. Algo que Olavo de Carvalho fala, e Ernesto diz também, é que o mundo está mudando, e o globalismo estaria impulsionando essas mudanças, que não seriam boas.

Para o senhor, o que pode acontecer se o Brasil abandonar uma política externa independente em favor do alinhamento com Washington?

Aí entra uma coisa que acho muito interessante: as divergências internas desse governo. Já estamos vendo, na questão da Venezuela, essas diferenças entre Mourão, o vice-presidente, e Ernesto Araújo. A meu ver, uma coisa que pode – usando uma palavra dramática – destruir Araújo é se acontecer um confronto entre Itamaraty e as Forças Armadas. Está havendo uma divergência, especialmente na questão venezuelana. As Forças Armadas estão dizendo que não vão interferir de forma explícita. No caso do ministro, acredito que ele adotaria uma postura muito mais dura. Bolsonaro está entre essas duas tendências. Entre as Forças Armadas, um pouco mais moderadas e nacionalistas, e o extremismo ideológico de Araújo. Se houver um acirramento desse embate, acho que o Bolsonaro fica com os militares. No momento, a situação parece estar sob controle, mas é uma dinâmica que a gente precisa prestar atenção. Os militares têm sido menos adeptos a se alinhar com os EUA que Araújo. Eles resistiram à ideia de uma base militar americana no Brasil, enquanto Araújo fala sobre essa cruzada civilizatória. O motivo disso é a questão ideológica. Ele vê uma questão de civilização aqui, já os militares veem uma questão de estratégia, de soberania nacional.

O senhor escreveu que a onda conservadora talvez tenha chegado ao auge e, agora, perca força aos poucos, o que pode inviabilizar a reeleição de Trump. Nesse caso, quais as consequências para o Brasil?

Uma coisa são os Estados Unidos elegerem uma pessoa como Trump. Outra coisa é o Brasil eleger uma figura dessas, porque o país não tem a mesma margem de manobra. Em minha análise, abandonar uma política externa independente e se atrelar aos EUA é uma postura que tem muito a ver com o governo americano, ou seja, com quem está na Presidência. Se Trump perder a reeleição, o que acontece? Ernesto é tão ideológico, é tão extremo, que a margem de manobra dele é pequena. Ao fazer isso, está se travando no futuro. Gostando ou não, a política externa do PT dizia ser independente, isto é, o governo se dava à liberdade de formar relações em certas coisas e, em outras, não. Lula, por exemplo, às vezes se dava bem com o governo americano, às vezes, não. Mas havia uma margem de manobra por se dizer independente. Ernesto Araújo e Bolsonaro desfizeram essa independência. Desfizeram essa margem de manobra. Em minha visão, se a situação dessa direita ascendente começar a mudar, pode travar as possibilidades do Brasil em relação ao mundo.

Os democratas, do partido de oposição a Trump, conquistaram maioria na Câmara depois das últimas eleições. Isso pode ser parte da mudança que o senhor mencionou?

Exatamente. Isso já é um sinal de que talvez, no ano que vem, pode haver uma mudança. Outra coisa que acho importante lembrar é que Trump ganhou as eleições com uma margem muito pequena. Não foi como Bolsonaro, cuja vitória teve uma margem impressionante que não deixou dúvidas sobre seu apoio popular. Acho que os bolsonaristas mais ferrenhos esquecem essa diferença. Eles acham que Trump é um aliado quase que permanente, uma força que vai ajudar a impulsionar o Brasil. Mas ele é muito fraco nos EUA. Está havendo uma análise equivocada nas alas mais extremas e ideológicas do Brasil, na qual incluo Ernesto Araújo. Ele está fazendo uma aposta com a política externa brasileira que pode ser um tiro no pé.

O modo como Ernesto Araújo enxerga a política externa é bastante influenciado pelas crenças de Olavo de Carvalho. O que explica tanta influência?

Acredito ser difícil explicar completamente o motivo, mas tento esboçar algumas teorias. Primeiro, Olavo está falando essas coisas há muitos anos. Então o que mudou? Acho que houve uma radicalização das pessoas que se diziam mais conservadoras no Brasil durante os governos do PT. Durante essa radicalização, passaram a desejar um novo norte, com novas ideias. Então a radicalização impulsionou algumas pessoas na direção de Olavo. Além disso, ele virou um sucesso no Youtube, com milhares de visualizações. A socióloga Zeynep Tufekci, inclusive, fez uma pesquisa inteira sobre como o Youtube radicaliza as pessoas, normalmente em direção à extrema-direita. Acho que aconteceu isto – uma radicalização do eleitorado e da juventude, que consome esses conteúdos. A outra teoria que esboço é que, durante o governo petista, houve um crescimento na educação superior. Isso criou uma necessidade de querer ouvir argumentos pseudointelectuais, algo que Olavo tem de mais impressionante: a habilidade de falar sobre Aristóteles, sobre a Grécia, de modo a parecer algo sério. Mas, se escutar com atenção, são teorias da conspiração, algo bem simplório.

No discurso de posse, Araújo reproduziu uma passagem bíblica dita frequentemente por Bolsonaro: Conheceis a verdade, e a verdade vos libertará. No que se refere à política externa, o que o presidente e o seu ministro entendem por verdade?

Uma coisa que caracteriza o pensamento de Araújo e de Bolsonaro é que a onda de progressismo nas culturas ocidentais é algo não só negativo, como está destruindo uma cultura gloriosa, que seria a cultura ocidental. Por motivos diferentes, Bolsonaro e Araújo compartilham essa crença. Bolsonaro porque tem essa visão simplória, machista e homofóbica. No caso dele, é algo mais simples de entender, é o senso comum. Já no caso de Araújo, por causa de Olavo de Carvalho, essa crítica ao globalismo é mais desenvolvida. Então a verdade que eles enxergam é que a mudança na sociedade no que se refere a mais aceitação não é necessariamente algo positivo.

Em 2009, a revista Foreign Policy divulgou um artigo intitulado “O melhor ministro das relações exteriores do mundo”, em referência ao Celso Amorim. Em janeiro deste ano, a mesma revista publicou um texto sob o título “O amor entre a diplomacia e o Brasil está morto”. O que motivou essa mudança brusca de percepção?

Para mim, essa é uma questão fundamental. Primeiro, quero ressaltar que, independentemente da pessoa gostar ou não dos governos petistas, houve esse reconhecimento da política externa brasileira feita pelo Celso Amorim. Não tem o que debater. A Foreign Policy não é uma revista de esquerda, ela é técnica. Para mim, o problema da escolha de Araújo é a falta de critério na seleção. Por tudo o que sabemos, o critério de escolha dele foi o apoio de Olavo, o que não qualifica ninguém para nada, muito menos para chefiar a política externa de um país como o Brasil. Se a gente enxergar essa duas personalidades — o Ernesto Araújo e o Celso Amorim — e analisar as carreiras dos dois, é possível notar que Araújo teve uma carreira boa, mas nunca chegou a ser embaixador fora do Brasil. Isso explica a derrocada da visão do mundo sobre o Brasil. O país é muito importante e precisa de uma mão hábil para conduzir a política externa. Então, mesmo se a pessoa achar que Lula e Amorim erraram ao abrir embaixadas na África e no Caribe, essa era uma visão de como o Brasil deveria se colocar no mundo. Como disse antes, dava longa margem de manobra ao país. Araújo até agora não mostrou nenhuma habilidade de conduzir a política externa brasileira e de improvisar de forma inteligente quando necessário. Repito: Celso Amorim tinha um rumo e uma ideia de Brasil desenvolvida há muitos anos. Acho que, no caso de Araújo, é algo muito mais improvisado e agressivo. Na crise da Venezuela, estamos vendo Araújo sem rumo. É um chanceler sem rumo e sem habilidade de navegar. Independentemente de eu achar bom ou não esse governo, a falta de rumo na política externa está óbvia.

O que a troca de afagos entre Viktor Orban, presidente da Hungria visto como autoritário, e Bolsonaro sinaliza sobre os rumos de nossas relações exteriores?

O Orban segue exatamente a mesma linha dessa cruzada de civilizações que o Olavo já falou, que o Araújo fala e que se espalha pelo mundo. O Orban é uma figura muito interessante porque tem uma visão sobre a Europa e sobre ela participar dessa guerra de civilizações. Ele é um cara muito ágil, muito inteligente politicamente e, junto com a ameaça que Putin representa, está conseguindo impor uma agenda reacionária para a Europa continental. É mais uma estrela que está emergindo nessa constelação de direita reacionária. No momento, o Brasil está entre países como os Estados Unidos, Hungria, Itália, Filipinas. Mas, voltando àquela questão: E se começar a mudar? E se esses governos começarem a cair. O que sustenta Araújo no cargo é o fato de existirem outros. Mas, se começar a diminuir essa rede de aliados, acho que o emprego dele está em risco.


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