Semana On

Quinta-Feira 05.dez.2019

Ano VIII - Nº 374

Poder

Imprensa estrangeira e até aliados censuram Bolsonaro por divulgação de vídeo

Não é simples quebra de decoro e desrespeito à dignidade do cargo: é estratégia, afirma filósofo

Postado em 08 de Março de 2019 - Débora Alves (Congresso em Foco) e Leonardo Sakamoto (UOL)

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As postagens do presidente Jair Bolsonaro no Twitter com conteúdo obsceno desencadearam uma sequência de críticas, até mesmo de aliados, e repercutiram também na imprensa internacional. A polêmica começou na noite do último dia 5 com a divulgação de um vídeo classificado pela própria plataforma como “conteúdo sensível”, e continuou em um novo post, no dia seguinte, com uma pergunta sobre o que é “golden shower” - nome popular, em inglês, para um fetiche de urinar na frente ou sobre o parceiro.

A gravação publicada na conta oficial de Bolsonaro na rede social mostra um homem dançando sobre um ponto de táxi. Ele introduz, aparentemente, o dedo no ânus enquanto dança. Na sequência, outro jovem urina na cabeça dele. Embora o presidente não tenha identificado o local onde foi registrada a cena, o episódio ocorreu no dia 4, em um bloco chamado Blocu, no centro de São Paulo.

“Não me sinto confortável em mostrar, mas temos que expor a verdade para a população ter conhecimento e sempre tomar suas prioridades. É isto que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro. Comentem e tirem suas conclusões”, escreveu o presidente, que foi um dos alvos preferenciais nos blocos de carnaval de rua em todo o país.

O The New York Times afirmou que o Bolsonaro “não está menos impulsivo em suas redes sociais do que quando candidato” na matéria intitulada “As guerras culturais no Brasil fazem uma aparição gráfica no feed de Twitter de Bolsonaro”, intitulou a publicação.

O também americano The Washington Post destacou o fato de que o posto do presidente “pretendia despertar indignação sobre como o feriado [de Carnaval] se tornou vulgar”.

Já o The Guardian afirmou, no título, que o capitão foi “ridicularizado” pelas postagens na sua rede social. “Bolsonaro ridicularizado após tuitar vídeo carnavalesco explícito”. Na reportagem, a publicação britânica menciona as inúmeras manifestação contrárias ao presidente durante o Carnaval e as marchinhas de protesto. “Bolsonaro, que goza de comparações com Donald Trump, aparenta não ter recebido bem as críticas”.

Incondizentes com o cargo

Aliado de Bolsonaro, o deputado Kim Kataguiri (DEM-SP), afirmou, também no Twitter, que a postagem “é incompatível com a postura de um presidente, ainda mais de direita. Bola fora”.

“Criticar a postura de Bolsonaro não significa elogiar o ato. A atitude dos foliões foi reprovável, abjeta, criminosa. Tem de ser punida com o rigor da lei. É tarefa para o Ministério Público. De todo modo, nada justifica o Presidente compartilhar pornografia no Twitter”, acrescentou o deputado Kim Kataguiri.

Líderes da oposição classificaram a divulgação do vídeo como conduta incompatível com o cargo e avaliam a possibilidade de tomar alguma providência em relação ao episódio. “Não podemos descartar a possibilidade de solicitar um teste de sanidade mental”, provocou o líder do PT na Câmara, Paulo Pimenta (RS).

O também petista Paulo Teixeira (SP) afirmou que irá representar contra o presidente com base na lei 13.718, que tipifica o crime de divulgação sem consentimento da vítima, de cena de sexo, nudez ou pornografia.

O ator José de Abreu, crítico contumaz do presidente, não perdeu a oportunidade de, mais uma vez, se manifestar. Em sua conta no Twitter disse: “Alo, @jairbolsonaro, seu meteoro chegou! Sou eu, seu fascista!”, ao que recebeu retorno quase imediato. “Estamos processando alguns e este “meteoro” será o próximo”, afirmou Bolsonaro.

Diretor-presidente da Aliança Nacional LGBTI, o ativista Toni Reis criticou a divulgação do vídeo por Bolsonaro. Para ele, o presidente deveria estar empenhado em buscar votos para aprovação da reforma da Previdência e trabalhar pela melhoria da educação, da saúde e da cultura.

“Não cabe ao presidente da República expor isso de forma tão vergonhosa no Twitter. Agora ele é presidente da República, não mais um deputado federal do baixo clero”, afirmou. Toni também considera equivocada a generalização feita por Bolsonaro para questionar os blocos de Carnaval. “Generalizações não convêm a ninguém. O que se passou entre essas duas pessoas é uma exceção e não pode ser colocado como regra”, defendeu.

A oposição também defende a exclusão da conta de Bolsonaro no Twitter, usada diariamente pelo presidente para se comunicar diretamente com a população. A plataforma estabelece uma série de diretrizes sobre a publicação de conteúdo adulto.

De acordo com as normas da plataforma, mídias com conteúdo adulto devem ser classificadas como sensíveis, uma espécie de filtro para saber se o usuário concorda em ver as imagens ou não. Isso não foi feito pelo presidente no primeiro momento. A advertência só foi publicada duas horas após a publicação do conteúdo.

Defesa de Bolsonaro

Aliados do presidente recorreram também ao Twitter para defendê-lo. “A esquerda pirou com a divulgação do vídeo por @jairbolsonaro, mas NÃO deu um pio sobre a situação promiscua, sobre o ato libidinoso – portanto criminoso – feito a céu aberto”, disse a líder do governo no Congresso, deputada Joice Hasselmann (PSL-PR).

Continuou: “Essa esquerda que mostra bundas e peitos nas ruas, q usa símbolos religiosos pra cometer atos profanos em praça pública, q apoia exposições com adultos pelados para crianças tocarem, agora está “chocada” com o vídeo compartilhado pelo presidente @jairbolsonaro. Faz-me rir!”

“E quanto aos oportunistas de plantão que falam que a divulgação do vídeo pode gerar processo de impeachment de @jairbolsonaro, eu lamento avisar: mas NÃO PODE NÃO! Melhor tirarem o cavalinho da chuva. VÃO TRABALHAR, LACRADORES!”

Um dos filhos do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ) também se manifestou na sua conta na plataforma: “A esquerda é doente... Aplaudem “professora” que defeca em público e depois pedem impeachment do presidente por ter denunciado essa bizarrice em público”.

No fim da noite desta quarta, o Palácio do Planalto divulgou uma nota à imprensa em que minimiza as críticas recebidas, alegando que as cenas constantes no vídeo divulgado “escandalizaram” não apenas o capitão, mas a sociedade. Alegam ainda que Bolsonaro não pretendeu “criticar o carnaval de forma genérica, mas sim caracterizar uma distorção clara do espírito momesco”.

Estratégia

Especialista em mídias sociais, o filósofo Pablo Ortellado considera que o presidente Jair Bolsonaro adotou uma estratégia ao divulgar vídeo. Para o professor da Universidade de São Paulo (USP), Bolsonaro precisa de um público em "estado de agitação permanente" para compartilhar suas mensagens, já que não dispõe do apoio da maioria dos meios de comunicação.

"A publicação do vídeo não é simples quebra de decoro e desrespeito à dignidade do cargo: é estratégia. Sem apoio dos meios de comunicação, Bolsonaro precisa de um público em estado de agitação permanente para seguir compartilhando, sem o que, as mensagens não se difundem", afirmou.

Em análise publicada no Twitter, Ortellado disse que, para entender o polêmico tuíte do presidente, é necessário entender três pontos: além da necessidade de mobilização permanente, a dinâmica da polarização política e seu enraizamento em temas da campanha eleitoral. "Bolsonaro reage a um carnaval politizado no qual seu governo foi atacado de todos os lados. Seguindo a dinâmica da polarização, de generalização e alinhamento automático, concluiu: se o carnaval é contra Bolsonaro, então Bolsonaro é contra o carnaval", disse.

Na avaliação do professor da USP, a forma com que Bolsonaro atacou o Carnaval tem raízes na eleição, na qual ele adotou o discurso de crítica aos partidos políticos e de defesa da família, em antagonismo aos movimentos feminista e LGBT. "A crítica a chocantes 'excessos' que caracterizariam o carnaval cumpre o duplo papel de atribuir à comunidade LGBT a destruição da civilidade e da decência e de antagonizar um carnaval que foi marcadamente anti-Bolsonaro", afirmou.

Agenda medieval

Por trás de toda polêmica levantada pelos tuítes presidenciais que se tornaram chacota em escala global, há uma discussão de fundo: Bolsonaro bombou o "golden shower" para cumprir sua agenda medieval em costumes e direitos ou desejava encobrir algo? No caso da segunda hipótese, seu objetivo seria lançar fumaça sobre alguma medida impopular que vem sendo tomada por seu governo ou esconder que seu governo carece de medidas, mesmo impopulares? Isso, claro, considerando favas contadas a clara intenção de manter as fileiras bolsonaristas em estado eleitoral de excitação.

A ala ultraconservadora de seu eleitorado votou com a esperança que ele colocasse em prática uma de suas promessas, de outubro, durante a campanha: fazer "o Brasil semelhante àquele que tínhamos há 40, 50 anos atrás". Alerta de spoiler: vivíamos uma ditadura militar. Se dependesse dele, creio que se dedicaria apenas a isso porque, inegavelmente, é o que sabe fazer de melhor.

Nesse sentido, é papel de Bolsonaro e de seus ministros da ala estridente convencerem a opinião pública que as eleições lhes deram mandato para liberá-la a sociedade do "marxismo", do "globalismo", do "gayzismo", do "coitadismo", do "abortismo", do "mimimismo" e qualquer outra fantasia que viralize nas redes sociais a partir de sua ilimitada criatividade.

Liberar a sociedade de algo que não existe é igual a tentar aterrorizar uma população para os riscos do Homem do Saco ou da Mulher de Branco. Ou equivalente a um presidente da República mentir nas redes sociais, dizendo que o Carnaval está se transformando em uma horda de foliões programados para urinar na cabeça de "cidadãos de bem", jogando a população contra grupos LGBTT. 

Por outro lado, fomentar um estado de apreensão constante é fundamental para que a base do bolsonarismo, que esteve com o presidente desde que ele perdeu a guelras e saiu da água, mantenha-se coesa e orientada a ficar firme nas guerras cultural e política. Ou seja, que lute contra Moinhos de Vento enquanto Dom Quixote aumenta em 16% os gastos com o cartão corporativo na Presidência da República.

Mas é papel de todos que não estiveram presos em uma caverna sem acesso a wi-fi durante as eleições lembrar que uma parte significativa dos eleitores não é ultraconservadora e não vê sentido nos surtos presidenciais. A vontade de renovação para resolver as quase 64 mil mortes violentas por ano, os 12,7 milhões de desempregados e a corrupção como instrumento de governo foi a razão principal do voto no eleito e não a implantação de uma sharia cristã no país.

E o que Bolsonaro vem fazendo para atender a essa expectativa fora da área de costumes e comportamento? Nada visível a olho nu.

Daí vem a segunda parte da história. Até agora, não foram anunciados planos para redução da violência urbana e rural – o que incluiria combater as mortes de jovens negros, indígenas e trabalhadores rurais. Se não sabe do que estou falando, ouça o samba da mangueira com atenção. Veja as alegorias. Reflita sobre os estandartes com o rosto de Marielle Franco.

Muito menos políticas para a geração de postos de trabalho formais – pelo contrário, uma das únicas propostas anunciadas sobre o tema foi um balão de ensaio sobre a viabilidade da carteira de trabalho "verde e amarela", que não precisaria seguir as proteções à saúde e segurança previstas na CLT para os jovens que estão começando no mercado. Ou seja, "Reforma Trabalhista 2 – A Missão". Mas, desta vez, disfarçada de bandeirinha do Brasil.

E no quesito "corrupção", o governo nem bem começou e já perdeu um ministro envolvido no cultivo de laranjais (Gustavo Bebianno) e conta com outro na berlinda (Marcelo Álvaro Antônio), sendo que o filho mais velho do presidente, hoje um senador da República, é acusado de produzir cítricos com a ajuda de um ex-assessor e de ter, ele próprio, relações com milicianos. Sem contar a mal explicada "devolução de empréstimo", no valor de R$ 24 mil, na conta da esposa do presidente feita por Fabrício Queiroz.

Além da falta de ações que coloquem em prática promessas de campanha que interessam a maioria da população, o governo tem demonstrado toda sua inabilidade política na relação com o Congresso Nacional; causado arrepios com seu comportamento de elefante em sala de cristais nas relações exteriores; gerado indignação pelas repetidas bobagens feitas pelo ministro da Educação, como a demanda pela gravação de crianças nas escolas, sem a autorização dos pais, e a leitura do slogan de campanha do presidente; permitido o aumento do desmatamento na Amazônia, enquanto o ministro do Meio Ambiente reclama de Chico Mendes e fala do nazismo para criticar jornal alemão.

Paulo Guedes e Sérgio Moro, ministros fiadores do governo diante do poder econômico e de setores da opinião pública, começaram a colocar seus blocos na rua com a Reforma da Previdência e a proposta de alterações legislativas contra o crime organizado e a corrupção. São projetos importantes e que devem ser debatidos pela sociedade, mas que começaram mal: prometeram atacar apenas os privilegiados e chegaram com pé no peito dos mais vulneráveis.

A proposta da Reforma da Previdência prevê que idosos abaixo da linha da pobreza só possam receber um salário mínimo de assistência aos 70 e não mais aos 65 anos – em troca concede 400 mangos entre os 60 e os 69 anos. Também quer trabalhadores rurais da agricultura familiar, catadores de babaçu, pescadores artesanais pagando contribuições por 20 anos, quando, em muitas safras, eles não produzem o suficiente nem para se manter. Sem falar na possibilidade de viúvas e órfãos receberem menos de um salário mínimo de pensão.

Da mesma forma, qualquer política de combate ao crime digna deveria ser pensada visando, em primeiro lugar, à proteção da vida dos mais vulneráveis. Mas entre as apresentadas no pacote de Moro, o item sobre o excludente de ilicitude e a legítima defesa relaxa a punição a agentes de segurança que "em conflito armado ou em risco iminente de conflito armado, previne injusta e iminente agressão a direito seu ou de outrem". Com isso, a medida coloca em risco a vida de moradores inocentes e facilita a execução sumária, sem reduzir a criminalidade.

“No final das contas, acredito que as três opções podem estar corretas. Todas de uma vez, simultaneamente. Ou seja, Bolsonaro alegrou uma parte dos eleitores radicais, renovando as promessas de apoio. Mas também jogou fumaça naquilo que é impopular em seu governo, disfarçando a letargia em outras áreas importantes. Levando ao êxtase o grupo de seus eleitores incapazes de sentir empatia pelo outro. Tendo em vista que tudo isso está por trás de um videozinho mequetrefe, ficarei especialmente preocupado com a saúde da República se o presidente postar um vídeo de sexo grupal”, afirma o jornalista e cientista social Leonardo Sakamoto.

Em tempo: brigar com o Carnaval e achar que pode vencer demanda uma autoestima muito grande. Como diria Eclesiastes capítulo 1, versículo 2 – "Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade". 


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