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Segunda-Feira 14.out.2019

Ano VIII - Nº 367

Coluna

O resistir será acumulativo na busca de um viver na diferença

A capacidade de mentir e disseminar é a força que a direita profundamente racista, paranoica e violenta detém hoje

Postado em 06 de Março de 2019 - Emerson Merhy

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A resistência será a acumulação, no tempo, de cada uma de nossas lutas contra as atuais arbitrariedades governamentais que se praticam, hoje, em nome da luta contra as ideologias socializantes, mesmo que não se tenha claro o que isso possa significar.

Não haverá um ato único que nos libertará dessas ações autoritárias e antidemocráticas que ocupam o imaginário governamental e social no Brasil de hoje. Pois não são poucos os brasileiros que acreditam que vivíamos em uma sociedade de esquerda e socialista, caminhando para o comunismo, como se as políticas do período lulista fossem anticapitalistas.

A capacidade de inventar mentiras como se fossem verdades e disseminá-las é a força que a direita profundamente racista, paranoica e violenta detém, hoje em dia.

Não nasceu do nada, é o fruto dessas décadas todas do trabalho cotidiano que as igrejas, católicas e messiânicas, vêm praticando. É o fruto do trabalho diário que a mídia dos países capitalistas vem fazendo, demonizando qualquer tipo de pensamento que não lhe interessa. Não é simplesmente fruto de fake-news.

Os atuais fake-news só grudam nos corpinhos porque estes já estavam preparados para isso, e esse não foi o trabalho só de agora da extrema-direita, dos bolsonaros e trumps e duquerques do mundo, aqui entre nós foi o trabalho dos democratas-cristãos, dos pe-esse-debistas, dos globos, dos estadões, dos gilmares mendes e joaquins barbosas, dos faustões, dos jornais nacionais, dos radialistas, dos taxistas, das várias igrejas com suas crenças preconceituosas.

É fruto da sociedade racista que se construiu por aqui contra os índios e os negros, convencendo esses mesmos sobre isso. Não são poucos os índios que odeiam índios, que lamentam terem nascidos de “raças” tão inferiores. Não são poucos os negros que odeiam negros. Foram produzidos dentro de uma história escravocrata que idolatra o patrão branco e por ele dão a vida.

A aliança entre o escravagismo e a igreja foi fatal para formar um povo paranoico, que vê no outro qualquer, não idêntico a si, sempre ameaça. Que vê nesse outro não só uma ameaça mas alguém pactuado com o demônio, que precisa ser domado ou eliminado.

Limpeza racial e social é uma marca da nossa história, nesses quinhentos anos.

Hoje, ter produtores de fake news que sabem tirar proveito dessas paranoias e preconceitos, sacralizando todo processo imaginário, amplia demais o êxito daqueles fakes e na criação de uma imensidão de brasileiros que acreditam que tudo que dizem é verdade.

Assim como muitos acreditam nas maiores bobagens religiosas, manipuladas pelas diferentes igrejas que existem, acreditam também nas novas verdades criadas que vêm com aquela marca da sacralização da política.

A imagem de que todos que não pensam iguais são comunistas é uma força política brutal no Brasil, e faz com que a maioria dos explorados se aliem aos seus exploradores de uma maneira quase espontânea.

A forte manipulação de que todo governo anterior foi comunista e precisa ser destruído, tem feito os explorados apoiarem os exploradores na destruição das suas próprias redes sociais de proteção, sem se darem conta que os grande prejudicados serão eles mesmos.

A destruição do direito a uma aposentadoria decente tem apoio de perto de 50% dos brasileiros, a destruição do SUS não tem gerado protestos de nenhum tipo junto aos setores mais pobres, a destruição das escolas públicas e gratuitas, a mesma coisa. Ao contrário, muitos que usufruem dessas redes de proteção social contra os efeitos perversos da pobreza são a favor dessa destruição.

Não sabemos se a geração desses efeitos, em algum momento, gerará por parte dos pobres alguma reação. Não temos noção se o poço tem fundo. Não sabemos até quanto alguém permitirá ser destruído em seus direitos.

E o pior de tudo isso, é que muitos de nós nunca imaginamos que algum dia poderíamos viver uma situação desse tipo e desse volume, apesar daqueles processos anteriores. Não imaginávamos, pois não tínhamos a dimensão da capacidade golpista que certos grupos institucionalizados, de modo formal ou informal, teriam para mexer no jogo político oficial, definido pelas regras constitucionais, manipulando, com fake news que colam nos corpinhos, a maioria das pessoas.

A maioria acredita que Lula é ladrão, apesar de não haver nenhuma prova efetiva produzida que mostre isso, apesar da insana investigação que já fizeram contra ele.

Não tivemos, enquanto sociedade como um todo, a capacidade de visualizar os tipos de decomposição que poderíamos viver, com a emergência de grupos que vocalizavam o preconceito contra a possibilidade de se construir uma sociedade mais tolerante com a diferença do outro e mesmo com a aparição de novas ideias e formas de viver, não consagradas pelas visões de mundo capitalistas conservadoras, demarcadas pela ótica machista, elitista e branca, que sabe explorar a paranoia e o preconceito.

Por isso, diante dessa situação não é a troca de um governante por outro que trará sossego, não haverá um ato único que nos libertará dessas ações autoritárias e antidemocráticas que ocupam o imaginário governamental e social, no Brasil de hoje

A resistência será a acumulação, no tempo, de cada uma de nossas lutas contra as atuais arbitrariedades que são praticadas em nome de ficções religiosas e de práticas políticas proponentes de violência contra perigosíssimos inimigos fictícios.


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