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Segunda-Feira 11.nov.2019

Ano VIII - Nº 371

Poder

Extremistas de direita tentam atacar Jean Wyllys durante palestra em universidade de Portugal

Um dos agressores, o brasileiro Thiago Moreno, é eleitor de Bolsonaro

Postado em 01 de Março de 2019 - Ricardo Ribeiro (Folha de SP), Leonardo Coelho (Ponte) e Sul 21

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Dois ativistas de extrema-direita tentaram atirar ovos no ex-deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), na terça-feira (26), durante uma palestra dele na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, em Portugal.

Wyllys falava havia cerca de 20 minutos quando um dos homens, que estava sentado na parte mais alta do auditório, se levantou e desceu alguns degraus. A segurança da faculdade logo percebeu a movimentação e fez um cerco ao homem, que tinha um caixa de meia dúzia de ovos.

Ele chegou a arremessar um ovo na direção da mesa onde estava Wyllys, mas que acabou desviado por um segurança do ex-deputado, que subiu no palco do auditório e se colocou na frente.

O professor Boaventura Sousa Santos e outros integrantes do Centro de Estudos Sociais da universidade, responsável pelo evento, estavam na mesma mesa. 

Na sequência, um segundo homem também ficou de pé com outra caixa de ovos e foi imobilizado pelos seguranças. Junto com um terceiro, que apontava para Wyllys e participava da ação, foram retirados, sob gritos “tira, tira, tira” e “fascistas não passarão” do público.

“Não peçam para tirar. Nunca tive medo dos covardes. Qualquer fascista covarde que queira se manifestar, em vez de atirar ovos ou tiros, por favor, vamos aos argumentos. Levantem-se, manifestem-se, falemos”, afirmou Jean Wyllys, logo depois do incidente.

Segundo o ex-deputado, as pessoas que atiraram os ovos “são compostas por esse ódio que não permite a diversidade”. “É um ovo, mas, se tivesse uma arma, era um tiro. Começa dessa forma e terminam executando as pessoas nas ruas. Por isso, é importante o repúdio de todas as instituições”, disse.

Durante a palestra, com o tema "Discursos de ódio e fake news da extrema-direita e seus impactos nos modos de vida de minorias sexuais, étnicas e religiosas - o caso do Brasil", Jean Wyllys destacou que Bolsonaro explorou os medos e preconceitos das pessoas para vencer a eleição, o que também leva aos ataques que tem sofrido.

“As pessoas fazem pelas fake news, mas também pelo monstro que habita nestas pessoas, que não suportam ver um gay ocupando espaços que, na visão delas, é reservado aos heterossexuais”, destacou.

Segundo ele, sua atuação no Congresso gerava desconforto porque, para muitas pessoas, “os homossexuais são bons quando estão em espaços sem poder, quando esticam, alisam e tingem cabelos num salão de beleza, ou quando são artistas”.

Quase um mês após renunciar a seu cargo político e deixar o país sob ameaças, Jean Wyllys iniciou um giro pelo exterior dando palestras sobre a situação política nacional. Além de Portugal, o ex-deputado já falou na Alemanha e diz ter sido convidado a falar na França, Suécia e Canadá.

‘Marielle vai derrubar Bolsonaro’

Wyllys voltou a destacar que deixou o Brasil por se sentir ameaçado, agora reforçando o papel das notícias falsas, tema que pretende estudar durante sua temporada na Alemanha.

“Sofria agressões diárias durante a atividade parlamentar de pessoas que acreditavam nas mentiras que recebiam pelo WhatsApp, especialmente associando minha homossexualidade a pedofilia. Uma vez minha mãe foi agredida no supermercado por homem que gritava que ela era a mãe de um pedófilo”, descreveu.

“O sistema decidiu que precisava me eliminar. Se não pela destruição da minha reputação, da minha imagem pública, através da morte real, com um assassinato encomendado”, de acordo com ele, como ocorreu com a vereadora Marielle Franco (PSOL).

O ex-deputado fez duras críticas ao atual governo Jair Bolsonaro, que, para ele, é formado por “incompetentes e mentirosos” e que será derrubado pelas investigações do assassinato de Marielle.

“A Marielle é que vai derrubar esta canalha. Será a memória dela e será a revelação de que há relações profundas entre quem hoje ocupa a Presidência [do Brasil] e o assassinato dessa mulher que tinha muito para dar à humanidade”, disse.

Manifestações

O auditório, com capacidade para 200 pessoas, estava lotado e cerca de 100 pessoas ficaram do lado de fora por falta de espaço. Jean Wyllys foi interrompido por aplausos diversas vezes. Na rua principal da faculdade aconteceram manifestações a favor da presença do ex-deputado em Portugal.

Do outro lado da calçada, cerca de 200 pessoas saíram em defesa do ex-deputado, com palavras de ordem contra o fascismo, entre partidos de esquerda do país e estudantes brasileiros. A Universidade de Coimbra é a que mais conta com estudantes brasileiros no país.

O PNR (Partido Nacional Renovador), legenda de extrema-direita portuguesa, reuniu cerca de 12 pessoas para criticar Wyllys, e o que chamam de marxismo cultural e a esquerda. Após a palestra, os dois homens que tentaram atirar ovos em Jean Wyllys confraternizavam com o grupo do PNR.

Quem é o brasileiro que atacou Jean Wyllys

O Movimento Brasil Livre (MBL) postou, no dia 26 de fevereiro, em suas redes um vídeo do ataque a Jean Wyllys. A ação foi comemorada na página, em especial por Thiago Moreno, que postou a seguinte frase.

“Os créditos da ovada são meus, amanhã tem mais em Lisboa.” O comentário já ganhou mais de mil curtidas e centenas de respostas de incentivo. O vídeo foi compartilhado mais de 5,5 mil vezes. Procurado em seus dois perfis no facebook, Thiago Moreno respondeu na manhã de quarta-feira (27/2).

Moreno é enfermeiro e está em Portugal para um tratamento de saúde. Ele confirmou a autoria do conteúdo postado na página do MBL, mas quando questionado se considerava o que fez como um tipo de agressão, ele discordou. “Não é atingir, é protestar, repudiá-lo”, justificou. “A agressão que ele está impondo aqui na Europa, dizendo inverdades, nada do que ele fala condiz com a verdade. Isso é o mínimo que eu posso fazer em forma de manifestar meu descontentamento com as ideologia dele, com as mentiras dele e tudo que ele representa, que é o avesso a sociedade de bem.”

Em seu perfil Thiago expõe toda sua trajetória, postando até mesmo uma foto às nove da manhã do dia 26 mostrando uma caixa com meia dúzia de ovos e a seguinte frase: “Já cheguei logo cedo para pegar a primeira fila. #jeanwyllysnaoébemvindoemPortugal”. Thiago disse que chegou a ser detido e logo foi liberado.

Thiago afirmou ter confraternizado com o grupo do PNR por conta da presença de manifestantes antifascistas que, segundo ele, teriam agredido ele e outros colegas antes mesmo da ovada.

Ainda em seu perfil, Thiago reforçou as ameaças já contidas na página do MBL e postou fotos de sua passagem para Lisboa, onde aparentemente espera que Jean Wyllys faça outra conferência ou aparição pública.

Uma das principais motivações para o ataque, segundo Moreno, seria a suposta ligação de Jean Wyllys, do PSOL, com Adélio Bispo, o homem que esfaqueou o presidente Jair Bolsonaro, ainda no período de campanha eleitoral, em setembro do ano passado.

“Não tenho receio de ser detido nem processado, porque estou exercendo o meu direito também, assim como ele julga exercer o dele. Ele deveria estar à disposição da justiça brasileira para eventuais questionamentos da Polícia Federal sobre Adélio que tentou matar o presidente Bolsonaro”, afirmou Thiago Moreno. Não há, contudo, qualquer comprovação de que haja essa ligação.

Quem criou a notícia falsa foram anônimos apoiadores de Bolsonaro, mas ela foi impulsionada com o apoio de perfis famosos como do cantor e compositor Lobão, que criou a hashtag #InvestigarJeanWillis (assim, com a grafia do ex-deputado incorreta mesmo) e o ex-ator pornô e agora deputado Alexandre Frota.

O próprio presidente, em postagens no Twitter, que ele usa como espécie de ferramenta oficial de comunicação do governo, também indicou ligação de Adélio com o PSOL, embora não tenha citado nominalmente Jean Wyllys. A tese foi desmentida por agências de fact-checking.

Um dos filhos do presidente, o deputado federal Flávio Bolsonaro, também citou a ligação entre o agressor de seu pai e partido de Jean Wyllys.

Crise da democracia

O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, diretor do Centro de Estudos Sociais, da Universidade de Coimbra, entrevistou Jean Wyllys sobre a situação política brasileira, a crise da democracia no Brasil e em outros países do mundo, bem como sobre as razões que levaram Jean Wyllys a deixar o país:


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