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Quarta-Feira 20.mar.2019

Ano VII - Nº 342

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Mundo

Venezuela vive entre a miséria e a morte, diz Guaidó em Brasília

Rejeição de Bolsonaro a autocratas depende da cor da boina do ditador

Postado em 01 de Março de 2019 - DW e Bruno Boghossian (Folha de SP)

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Em visita a Brasília, o líder oposicionista Juan Guaidó, reconhecido por mais de 50 países como presidente interino da Venezuela, se reuniu nesta quinta-feira (28/02) com o presidente Jair Bolsonaro, no Palácio do Planalto, para discutir a crise no país vizinho.

Em pronunciamento após o encontro, o venezuelano agradeceu ao mandatário brasileiro pelo apoio político e disse que a reunião marca um "momento importante na história" sul-americana. "Um novo começo de relacionamento positivo entre Venezuela, Brasil e a região", afirmou.

Guaidó acrescentou que, após a desejada transição de governo em Caracas, o Brasil poderá contar com uma Venezuela próspera, de forma a recuperarem os laços econômicos. Segundo ele, a relação comercial entre os dois países, que já chegou a 5 bilhões de dólares, hoje é de 200 milhões de dólares.

Contudo, para que a Venezuela consiga se recuperar economicamente, é preciso que seja restaurada a democracia no país por meio de "eleições livres e democráticas, no marco da Constituição", afirmou o autoproclamado presidente interino.

Guaidó, principal opositor ao regime de Nicolás Maduro, ainda lamentou a situação política, econômica e humanitária que enfrenta a Venezuela e disse que o país vive hoje um regime de ditadura que "massacra o povo".

"Não é certo dizer que há um dilema na Venezuela entre guerra e paz, na Venezuela há um dilema entre a democracia e a ditadura, entre a miséria e a morte da nossa gente", afirmou o líder oposicionista em seu breve discurso ao lado de Bolsonaro.

Ele lembrou também os 300 mil venezuelanos em situação de "emergência de morte" e outros 3 milhões em risco humanitário em decorrência da profunda crise que afeta o país.

Assim, prometeu continuar seus esforços para a chegada de ajuda humanitária à Venezuela, numa operação que conta com o apoio de países como Brasil, Colômbia e Estados Unidos – no fim de semana, a tentativa de entrar no país com caminhões carregados de mantimentos foi duramente reprimida pelo regime de Maduro, com confrontos que deixaram mortos e feridos.

Bolsonaro, por sua vez, afirmou que o governo brasileiro fará de tudo que esteja dentro da lei para ajudar a restabelecer a democracia na Venezuela. Ele reforça, assim, a declaração do vice-presidente Hamilton Mourão de que o Brasil descarta apoiar uma intervenção militar no país.

"Nós não pouparemos esforços dentro da legalidade, da nossa Constituição e das nossas tradições para que a democracia seja restabelecida na Venezuela. E isso só será possível com eleições limpas e confiáveis. Nos interessa uma Venezuela livre, próspera e economicamente pujante", disse o presidente em seu pronunciamento.

Bolsonaro ainda pediu permissão para chamar Guaidó de "irmão", disse que ele representa "esperança" para a Venezuela e afirmou que o Brasil continuará apoiando as decisões do Grupo de Lima em favor da mudança política no país vizinho, "por liberdade e democracia". "Obrigado por confiar no povo brasileiro. Conte conosco. Deus é brasileiro e venezuelano."

O presidente aproveitou o discurso para fazer críticas aos governos petistas anteriores, de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, por terem apoiado o regime de Maduro.

"Faço uma mea culpa aqui, porque dois ex-presidentes do Brasil fizeram parte do que está acontecendo na Venezuela hoje. Essa esquerda gosta tanto de pobre que acabou multiplicando-os, e a igualdade buscada por eles foi por baixo. Queremos uma igualdade para cima, na prosperidade", afirmou.

Guaidó no Brasil

Guaidó chegou a Brasília na madrugada desta quinta-feira num voo da Força Aérea da Colômbia, onde estava desde a sexta-feira passada. Em seu perfil no Twitter, disse que veio ao Brasil em busca de apoio para a transição de governo na Venezuela.

Antes do encontro com Bolsonaro, ele participou de uma reunião com representantes diplomáticos de países da União Europeia (UE). Segundo a imprensa brasileira, o líder oposicionista teria apresentado demandas que serão encaminhadas aos líderes europeus.

"Em nosso encontro com os embaixadores dos países da União Europeia, continuamos a fortalecer as relações com nações que reconheceram nossos esforços para recuperar a democracia na Venezuela e obter eleições livres", escreveu ele no Twitter.

Entre os países do bloco europeu que já reconheceram Guaidó como presidente legítimo da Venezuela estão Alemanha, Áustria, Dinamarca, Espanha, França, Holanda, Portugal, Reino Unido e Suécia.

O venezuelano chegou ao Palácio do Planalto por volta das 14h (hora local), acompanhado pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e passou pelo tapete vermelho estendido em uma das portarias laterais do edifício principal.

Apesar de o Brasil reconhecer Guaidó como presidente interino, o governo informou que o encontro não foi considerado uma visita de Estado. Após a reunião no gabinete de Bolsonaro, ele foi recebido pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP).

Retorno à Venezuela

Guaidó deixará o Brasil nesta sexta-feira para uma visita ao Paraguai. Em entrevista à imprensa após o pronunciamento, ele afirmou que pretende voltar à Venezuela nos próximos dias, apesar das ameaças que tem recebido.

"Como todos sabem, recebi ameaças pessoais, familiares e também ameaças de encarceramento por parte do regime de Maduro. Mesmo assim isso não vai evitar o nosso retorno à Venezuela, neste fim de semana, no mais tardar na segunda-feira", disse o líder opositor.

Guaidó viajou à Colômbia na semana passada para participar da tentativa de entrega de assistência a seu país por vias terrestres. Contudo, ele estava impedido de deixar a Venezuela pelo regime de Nicolás Maduro, e as circunstâncias e consequências de seu retorno são uma incógnita.

Guaidó é presidente da Assembleia Nacional, órgão legislativo da Venezuela de maioria opositora e cujos poderes foram suprimidos pelo regime de Maduro. Ele se autoproclamou presidente interino do país no fim de janeiro, sendo reconhecido por mais de 50 países, entre eles os Estados Unidos, o Brasil e vários outros da região.

EUA e Rússia falham na ONU

Tanto os Estados Unidos quanto a Rússia falharam em aprovar resoluções sobre a Venezuela apresentadas na quinta-feira (28) ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), mantendo a entidade dividida e sem assumir uma posição sobre a crise política, econômica e humanitária que assola o país.

Os EUA, que apoiam o presidente autodeclarado Juan Guaidó e propunham a realização de eleições livres, obtiveram o apoio de 15 países. A medida proposta pelos americanos pedia "a restauração pacífica da democracia” na Venezuela, expressava preocupação com "a violência e o uso excessivo de força por forças de segurança venezuelanas contra manifestantes pacíficos e desarmados” e citava "tentativas recentes de bloquear a chegada de ajuda humanitária”, pedindo o acesso ilimitado de auxílio externo.

Nove votos teriam sido suficientes para a adoção da resolução, no entanto, Rússia e China, que apoiam o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, usaram seu poder de veto por considerarem a postura americana uma ingerência sobre os assuntos internos da Venezuela. A África do Sul também votou "não”, enquanto Indonésia, Guiné Equatorial e Costa do Marfim se abstiveram.

"Tivemos que utilizar nosso direito de veto porque o projeto dos EUA não tem a meta de resolver os problemas na Venezuela. Por isso, apresentamos uma alternativa que poderia ter ajudado o povo da Venezuela sem uma intervenção estrangeira para que o país resolva seus problemas”, disse o representante da Rússia na ONU, Vasili Nebenzia.

"Muitas delegações disseram que é necessário realizar eleições o quanto possível na Venezuela: eleições ou não, isso é algo que o povo venezuelano deve decidir, não que se deve decidir por eles.”

O plano apresentado pela Rússia, que defendeu a não intromissão nos assuntos internos da Venezuela e se opôs a uma intervenção militar, contou com o respaldo de China, África do Sul e Guiné Equatorial. Sete países votaram contra e quatro se abstiveram. Ao menos nove votos teriam sido necessários para uma aprovação, mas, caso isso tivesse ocorrido, os EUA, por sua vez, teriam usado seu poder de veto, afirmou o enviado especial dos EUA para a Venezuela, Elliott Abrams.

A resolução proposta pela Rússia afirmava ainda que é papel do governo venezuelano buscar e consentir com a entrega de ajuda humanitária internacional.

O resultado da votação revelou a incapacidade do órgão mais poderoso das Nações Unidas de agir para mitigar a crise na Venezuela devido às suas divisões internas.

Pouco antes das votações, Nebenzia acusou os EUA de se envolver em práticas de ”propaganda sem vergonha” com o objetivo de obter uma ”mudança no regime” venezuelano.

Já Abrams afirmou após o desfecho que "lamentavelmente, ao votar contra a resolução (norte-americana), alguns membros desse Conselho continuam protegendo Maduro e seus amigos e prolongando o sofrimento do povo venezuelano.”

Para o embaixador da Indonésia, Dian Triansyah Djani, que se absteve de votar nas duas resoluções, ambas eram incompletas, careciam de equilíbrio, não eram amplas o suficiente e se tornaram "politizadas demais”.

"Esse é um dia triste para a comunidade internacional, particularmente para o povo da Venezuela”, disse. "Isso é sem dúvida um fracasso coletivo – um fracasso de nós 15 que estamos sentados nessa mesa, porque todos nós viemos aqui hoje sabendo que não chegaríamos ao consenso necessário para adotar uma resolução.”

O presidente dos EUA, Donald Trump, deixou claro que todas as opções estão abertas para lidar com a crise na Venezuela, embora Abrams tenha ressaltado a intenção de chegar a uma solução "pacífica”. A proposta de Washington foi alterada para incluir a palavra diversas vezes, assim como o pedido pelo "início de um processo político pacífico que leve a eleições presidenciais livres, justas e com credibilidade.”

Ditadores de estimação

No discurso que fez ao lado de Juan Guaidó no Planalto, Jair Bolsonaro não usou a palavra “ditadura” para descrever o regime de Nicolás Maduro. O presidente brasileiro, como se sabe, até tem simpatia por governos autoritários. A razão da crise no país, ele sugeriu, é o fato de a esquerda estar no poder.

Bolsonaro resolveu contaminar o encontro com sua obsessão ideológica. Ignorou um alerta feito dois minutos antes pelo próprio convidado. “Não é certo que exista um dilema entre uma ideologia e outra. O dilema na Venezuela é entre democracia e ditadura”, afirmou Guaidó.

O presidente brasileiro até se comprometeu a trabalhar para restabelecer a democracia no país vizinho, mas também quis culpar as gestões petistas pelo apoio à ditadura chavista e disse que o Brasil quase seguiu o caminho da Venezuela.

Nunca houve dúvidas de que Bolsonaro usaria o governo como palanque para embates políticos com a esquerda. A referência ao regime venezuelano é singular porque, dois dias antes, o presidente se derramou em elogios a ditadores de direita.

Bolsonaro explorou um evento oficial na usina de Itaipu, na terça (26), para celebrar os generais do regime militar brasileiro e fazer uma homenagem ao paraguaio Alfredo Stroessnercorrupto, líder de um regime torturador e acusado de pedofilia.

O presidente gosta de jogar confetes sobre autocratas. Em 2006, quando era deputado, ele tentou usar a Embaixada do Brasil no Chile para enviar uma mensagem ao neto do “saudoso general Pinochet”. Em vez de condenar a perversidade de qualquer governo autoritário, Bolsonaro só enxerga a cor da boina do ditador.


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