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Domingo 08.dez.2019

Ano VIII - Nº 374

Brasil

A cada minuto, 30 mulheres são vítimas de algum tipo de violência

Mais de 75% das vítimas conhecem o agressor e 42% dos casos acontecem dentro de casa

Postado em 28 de Fevereiro de 2019 - Maria Teresa Cruz (Ponte) e Leonardo Sakamoto (UOL)

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Dezesseis milhões de mulheres sofreram algum tipo de violência nos últimos 12 meses. Isso equivale a mais de 180 Maracanãs lotados. Ou ainda, mais de 1.800 casos por hora. Dessas vítimas, 76,4% conheciam seu agressor, número 25% maior do que em 2017. A pesquisa “Violência contra as mulheres”, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e feita pelo Instituto Datafolha, ouviu mais de 2 mil pessoas em diferentes regiões do Brasil nos dias 4 e 5 de fevereiro. Mais de 40% das agressões aconteceram dentro de casa, padrão que vem se repetindo desde o levantamento anterior, há dois anos.

O número de agressões virtuais cresceu: em 2017, apenas 1,2% das violências – ameaça, difamação – aconteciam na internet; este ano, o número subiu para 8,2%. Mais de 6 milhões de mulheres sofreram algum tipo de agressão física: desde chutes, empurrões, até espancamento ou tentativa de estrangulamento.

Para Cristina Neme, consultora de projetos do FBSP, um dos pontos que mais chamam atenção é o fato de que o padrão de agressão permanece o mesmo, quando comparado a pesquisa anterior, feita há dois anos: o local onde acontecem as agressões continua sendo dentro de casa (42%), as mulheres mais jovens estão mais submetidas ao assédio (42,6%) e, no recorte racial, as mulheres negras continuam sendo as principais vítimas da violência, especialmente sexual (55,9%). “E você vê também um escalonamento da violência, desde um assédio verbal até crimes mais graves, agressões físicas que podem levar à morte”, avalia.

Um dos casos emblemáticos que ilustra essas estatísticas é o da tentativa de feminicídio da paisagista Elaine Caparroz, 55 anos, no Rio de Janeiro, no dia 16 de fevereiro. Vinicius Batista Serra, 27, espancou a vítima por quase 4 horas. Os dois tinham se conhecido no Instagram, mantinham um relacionamento virtual há meses e tinham marcado o primeiro encontro. Em entrevista ao Fantástico no último domingo (24/2), Elaine afirma que tem certeza que o objetivo de Vinicius era matá-la e que acredita que foi dopada para que não tivesse reação.  “Acho importante também dizer para todo mundo que quando ouvir uma mulher, alguém pedindo socorro, que vão ajudar”, desabafou. Vinícius continua preso e alega ter tido um surto.

A percepção da vitimização da mulher também apresenta diferenças quando o entrevistado é um homem. Segundo o levantamento, 59% dos entrevistados no total já viram uma mulher sendo agredida verbal ou fisicamente. Quando a pergunta é filtrada por gênero, as diferenças aparecem. Por exemplo, no questionamento: “Você já viu homens humilhando, xingando ou ameaçando namoradas ou ex-namoradas, mulheres ou ex-mulheres, companheiras ou ex-companheiras?” o “sim” apareceu para 33% dos homens entrevistados e 40% das mulheres. Essa diferença se manteve em outras questões como o “fiu-fiu” na rua e agressões físicas. Apenas em uma pergunta a lógica se inverteu: se entrevistados já tinham visto homens brigando, se agredindo, se ameaçando ou discutindo por causa de ciúmes de uma namorada ou ex-namorada, companheira ou ex-companheira, mulher ou ex-mulher. 37% dos homens disseram “sim” contra 31% de mulheres.

“Existe aí um componente machista de ter mais facilidade de identificar a agressão quando é do ponto de vista deles, quando é, por exemplo, a briga entre namorado e namorada. Já as mulheres têm uma sensibilidade, uma percepção maior e conseguem identificar uma ameaça, uma ofensa, uma humilhação”, avalia Cristina Neme.

Quanto mais jovem, mais é vitimada a mulher: 66% de mulheres com idade entre 16 e 24 anos sofreu algum tipo de violência nos últimos 12 meses. A maioria, 62%, ouviu algum comentário desrespeitoso de desconhecidos na rua. Com relação às mulheres negras, no quadro geral de vitimização, 55,9% das mulheres que sofreram violência no último ano são negras (pretas e pardas). Quando a pergunta é especificamente sobre assédio sexual, o número sobe para mais de 70%, contra pouco mais de 34% de brancas.

“No caso das mulheres negras, embora a diferença não seja tão grande ela aparece principalmente na agressão de cunho sexual. Isso sinaliza uma sobreposição, porque existem vários indicadores que as mulheres são prejudicadas e nesse caso a cor da pele também é um dado que mostra onde estão as maiores vítimas”, explicou.

O número de vítimas que se cala ainda pode ser considerado alto: 52% das entrevistadas que sofreram alguma agressão afirmam que não fizeram nada. Apenas 10% procuraram uma delegacia especializada e 15% buscaram auxílio na família. “A mulher tem que falar sempre e cada vez mais, desde o mínimo sinal de violência. Não se deve menosprezar a gravidade da agressão, porque um xingamento vira coisa pior lá na frente. E temos o lado também de uma certa descrença ou ainda um medo do que vai acontecer se houver a denúncia. Por outro lado, é importante destacar que pesquisas apontam que a mulher que morre vítima de feminicídio, muitas vezes, não fez nenhum registro das agressões anteriores. Fica difícil acompanhar um caso assim, sem histórico. Então são várias frentes que é preciso avaliar para mudar essa baixa adesão”, disse a consultora de projetos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública Cristina Neme.

Cúmplices

Em uma sociedade historicamente estruturada em torno da violência de gênero, nossa responsabilidade como homens não é apenas evitar que nós mesmos sejamos vetores do sofrimento simbólico, psicológico ou físico das mulheres cis e trans. Neste caso, não basta cada um fazer sua parte para que o mundo se torne um lugar melhor. Se você fica em silêncio e não age junto aos outros homens diante de situações que fomentam a violência, sinto lhe informar que tem optado pela saída fácil da delinquência social.

Sim, ao ver um colega relinchando aberrações inconcebíveis na mesa do bar e não questioná-lo por isso, dando uma risadinha de conta de boca; ao ouvir aquele tio misógino defender que "mulher que se preze não usa saia curta" e ficar em silêncio; ao assistir àquele "humorista" fazer apologia ao estupro e não mudar de canal ou enviar mensagem protestando às autoridades; ou ao se deparar com um amigo compartilhando histórias de violência sexual e sua única reação foi um beicinho de desaprovação, você – em maior ou menor grau – está sendo cúmplice de tudo isso.

Nós, homens, temos a responsabilidade de educarmos uns aos outros, desconstruindo nossa formação machista, explicando o que está errado, impondo limites ao comportamento dos outros quando esses foram violentos, denunciando se necessário for. Não é censurar a liberdade de outras pessoas, pelo contrário. Esses são atos para ajudar a garantir que as mulheres possam desfrutar da mesmo liberdade que nós temos – liberdade que nossos atos e palavras sistematicamente negam a elas.

Nós, homens, pensaríamos duas vezes antes de fazermos comentários machistas e violentos se tivéssemos medo de sermos criticados, repreendidos e humilhados publicamente por outros homens em um almoço de família, no intervalo das aulas da faculdade, na mesa de bar. E, é claro, também nas conversas, publicações, curtidas e compartilhamentos no Facebook, Twitter e WhatsApp.

Precisamos qualificar o debate público. Não é tornar as conversas do dia a dia chatas, moralistas, hipercodificadas, barrocas ou acadêmicas e sim ajudar o outro a perceber a complexidade do mundo em que vive e a construir um novo sentido para as coisas. Um sentido que não trate mulheres como objetos descartáveis à nossa disposição.

Essa qualificação, é claro, vem de um processo que envolve escolas, famílias, sociedade civil e mídia. Em tese, é um processo lento, porque passa pela formação de visão de mundo. Mas mulheres continuam a ser agredidas, estupradas e mortas simplesmente por serem mulheres na segunda década do século 21. Portanto, não temos o luxo de contar com esse tempo. Temos que promover essa mudança em nosso comportamento imediatamente.

A maioria dos casos de violência são cometidos na própria residência das vítimas. Ou seja, no local que elas consideravam seguro. Ironicamente, parte do foco do debate público sobre violência é centrado na falsa ideia de que o perigo vem apenas daquilo que é desconhecido ou de fora. E que o porto seguro é a família e a religião, enquanto a violência vem da arte, da cultura, da educação.

As estatísticas e grandes casos de comoção nacional mostram o contrário, que também vêm daqueles em quem mais confiamos – líderes espirituais, médicos, padres, pais, tios, avôs, irmãos, primos, amigos. E, por vezes, denúncias são soterradas em montanhas de silêncio para manter as aparências. Isso quando são levadas a sério.

A verdadeira "ideologia de gênero" é martelada cotidianamente em nossas cabeças para que acreditemos que nós, homens, temos mais valor do que mulheres, naturalizando a violência contra a mulher e fazendo com que a nossa de homem tenha mais valor que as delas.

Essa ideologia contemporiza quando a mulher é transformada em objeto de prazer para ser violentado dentro da própria casa e alvo de ejaculação em trens e ônibus; chama o assédio sexual e o desrespeito de "simples elogio" ou "brincadeira"; declara o corpo delas é propriedade masculina, tentando proibir até abortos em caso de estupro; faz com que elas se sintam culpadas pela violência que sistematicamente sofrem; torna o disparate tão normal a ponto de nunca ser preciso pedir desculpas, mas, pelo contrário, faz com que esperemos delas a desculpa pela nossa própria agressão.

Ter coragem de vir a público e denunciar é uma ação poderosa. Temos que ouvir em silêncio o que as mulheres têm a dizer e refletir sobre isso. Nós homens precisamos entender que nosso discurso e nossas atitudes violentas não cabem mais no mundo em que estamos. Na verdade, nunca couberam, mas nós somos pródigos em calar aquilo que nos desagrada.


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