Semana On

Quinta-Feira 14.nov.2019

Ano VIII - Nº 371

Coluna

Tiradentes combina alma colonial com agenda cultural cosmopolita

Cidade histórica mineira atrai artistas e outros forasteiros com festivais o ano inteiro

Postado em 27 de Fevereiro de 2019 - Walter Porto – Folha de SP

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

A pequena Tiradentes costuma estar no roteiro das cidades históricas mineiras, o que já serve para dispor os interessados em cultura a se equilibrarem por suas ruas pedregosas. E a cidade tem sabido aproveitar o embalo da curiosidade intelectual somada ao conforto campestre para abrir um leque de opções culturais.

Hoje casa de artistas, abrigo de restaurantes finos e palco de festivais, o local nasceu como vila de São José no século 18. Foi uma das primeiras cidadelas construídas no apogeu do ciclo do ouro em Minas Gerais. (O inconfidente que depois veio a nomear a cidade, aliás, nasceu em uma fazenda que hoje fica em outro município, Ritápolis.)

Favorecida pelo tombamento como patrimônio cultural em 1938, Tiradentes foi capaz de manter seu aspecto colonial, com vielas, sobrados e solares ainda preservados de outros séculos.

À noite, lamparinas de óleo de mamona seguem (mal) iluminando o caminho do turista e, de dia, o sol castiga as igrejas, com destaque para a de Santo Antônio de Pádua, matriz construída em 1710, e a de Nossa Senhora do Rosário, onde escravos exerciam sua religiosidade sincrética.

Talvez surpreenda o visitante a rapidez com que ele pode cobrir todos os pontos turísticos do lugar: enquanto outra cidade histórica por excelência, Ouro Preto, tem território de 1.245 km², Tiradentes tem apenas 83 km². Em termos populacionais, os cerca de 7.900 tiradentinos, segundo estimativa do IBGE para 2018, representam pouco mais de um décimo do total de ouro-pretanos.

O curioso é que isso está longe de significar que não há o que fazer em Tiradentes. Aproveitando a discrição e a calmaria, a cidade guarda boas surpresas para amantes de todo tipo de cultura —e aqui se abdicará de falar de gastronomia, uma vez que o mero fato de ser mineira já dá à cidade todas as credenciais que o leitor precisa saber.

Um destaque improvável é o passeio ao Instituto Mário Mendonça: mantido pelo artista plástico de 84 anos, ainda hoje referência na arte sacra brasileira, o espaço reúne mais de mil itens do acervo angariado por ele ao longo da vida. O que significa: o público tem ao alcance, mediante um agendamento gratuito, a contemplação de obras originais de Auguste Rodin, Salvador Dalí, Pablo Picasso, Edgar Degas e pilares da arte nacional como Tarsila do Amaral e Emiliano Di Cavalcanti.

O próprio Mendonça, que mora no Rio de Janeiro e passa temporadas na casa equipada com ateliê, tem o hábito de conduzir os visitantes e apresentá-los à coleção.

Não faltam artistas plásticos em Tiradentes. O bucolismo do cenário e a inspiração árcade, estilo “fugere urbem”, cuida de atraí-los como abelhas ao mel, fazendo com que galerias de arte pululem e colecionadores possam perder bom tempo encontrando novas obras para seu acervo.

É o caso do pintor paulista Sérgio Ramos, cujo trabalho já foi mostrado em França e Portugal e neste ano estará na embaixada brasileira em Londres, e de José Luiz Rocha, que saiu de Belo Horizonte há nove anos para fincar raízes no povoado de Bichinho, espécie de comunidade de artesãos vizinha a Tiradentes.

“Vim conhecer a região no domingo e me mudei na segunda”, afirma o artista, não sem certo exagero. Hoje ele mantém ali um galpão onde produz, com auxiliares, obras em grande escala marcadas pelo uso de fogo sobre tintas inflamáveis. “Recebemos no estúdio muita gente das capitais, de São Paulo, do Rio.”

De fato, a responsabilidade por boa parte dos empreendimentos erguidos em Tiradentes —de hotéis luxuosos a restaurantes veganos— é de gente que migrou de centros maiores, trazendo consigo boa dose de requinte, capacidade de investimento e vontade de transformar a região em lar tanto de sossego quanto de desenvolvimento sustentável e vanguarda cultural.

Essa propensão itinerante também se aplica a um dos maiores atrativos da cidade, os festivais que dominam o calendário o ano inteiro.

Com abre-alas na já tradicional Mostra de Cinema de Tiradentes, que teve em janeiro sua 22ª edição, a programação segue nos meses seguintes com festivais de teatro (Tiradentes em Cena, maio), fotografia (Foto em Pauta, março) e jazz (Duo Jazz, novembro).

(Como afinal é impossível contornar este assunto —e segurar a saliva—, também há um célebre Festival de Gastronomia em agosto.)

Um destaque recente é o festival Artes Vertentes, que articula exposições, lançamentos de livros, debates com intelectuais, exibições de filmes e apresentações musicais e teatrais. A convite de alguma das sete edições já realizadas, passaram pela cidade nomes como Adélia Prado, Nelson Freire e Ferreira Gullar.

Na programação dos eventos, parece haver intenção de não escantear os moradores, para que as experiências são signifiquem só inconvenientes que de tempos em tempos lotam a cidade de forasteiros.

A Semana Criativa de Tiradentes, por exemplo, tem o objetivo de aproximar a obra de artesãos locais ao público e a especialistas de todo o Brasil.

Uma das instituições fixas mais arrojadas da cidade, o Museu da Liturgia —não por acaso, com temática religiosa numa cidade de pontos turísticos dominados pelo catolicismo—  atenta não só à manutenção de seu acervo de 380 itens eclesiásticos como também ao permanente contato com a comunidade que o cerca.

Além de um intenso trabalho de coleta da memória oral dos habitantes, o museu preza pela interatividade (parte das peças ainda é usada em procissões e missas) e seu diretor, Rogério de Almeida, promove apresentações musicais e encontros que chama de “café com dedo de prosa” —nos quais convida moradores para partilhar sua história de vida. Tudo com regularidade pouco rígida, como manda a afetuosa cordialidade mineira.

“Até umas poucas décadas atrás, essa região de Tiradentes era o fim do mundo. Não tinha nem farmácia”, diz Dalton Cipriani, que hoje (veja só) trabalha como guia turístico, conectando visitantes a produtores locais. Mais de 250 pousadas e 140 restaurantes depois, isso deixou de ser verdade, mas é inegável que o comportamento recatado de cidade escondida e acolhedora ainda impere por ali.


Voltar


Comente sobre essa publicação...