Semana On

Quarta-Feira 18.set.2019

Ano VIII - Nº 363

Coluna

E o cinema brasileiro?

Enquanto todos falam do Oscar, como andam as coisas por aqui?

Postado em 27 de Fevereiro de 2019 - Danilo Custódio

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

“O estado brasileiro é racista. Marighela foi morto, um homem negro, um revolucionário de esquerda. Ele foi morto pelo Estado, em um carro. Anos depois de Marighela, uma mulher vereadora no Rio de janeiro, também negra, de esquerda e defensora dos direitos humanos, também foi morta em um carro provavelmente por agentes do Estado”, disse Wagner Moura em entrevista coletiva na Berlinale semanas atrás, na oportunidade do lançamento de Marighella, seu primeiro longa como diretor. Enquanto ele e demais membros da equipe do filme criticavam a postura do Estado brasileiro em relação às frentes artísticas de opiniões contrárias aquelas oficiais do governo Bolsonaro, em terras tupiniquins a Pétrobras, através de seu presidente Roberto Castello Branco, anunciava cortar todos os patrocínios para o cinema e teatro.

Uma outra frente, na internet, deu outro duro golpe no cinema nacional. Postagens classificando as produções brasileiras como obras de “propaganda ideológica” e “marxismo cultural” pipocaram nas redes sociais. Somando essa falácia ao desconhecimento do público acerca dos filmes realizados por aqui, somando ainda com as impressões mentirosas acerca da Lei Rouanet disseminadas por fakenews na última eleição e ao desmonte do Ministério da Cultura, chegamos a um denominador suficiente para colocar em xeque o futuro do cinema brasileiro. Sabemos que a Ancine gerencia um Fundo bilionário, denominado FSA – Fundo Setorial do Audiovisual, que é destinado exclusivamente ao financiamento público da indústria cinematográfica nacional em todas as suas demandas. E é esse dinheiro que está em jogo.

Opinião

Por Carol Almeida via Twitter em 27/02/19.

Como não tem ninguém falando disso, vamos lá: segundo dados do MEC, das 62 faculdades de cinema em atuação (4 graduações abrem ESTE ano), 58 surgiram pós 2005 (93% delas!), dois anos após o presidente Lula assumir o governo. E por que as faculdades de cinema começaram a surgir e se multiplicar pelo país?

Pq um mercado se criou graças a políticas públicas - particularmente as adotadas com Gil no MinC - de um fortalecimento da Ancine (criada no governo FHC) como instituição, e por leis como a Lei 12.485, promulgada em agosto de 2011, que passava a obrigar as TVs pagas brasileiras a terem uma grade bem maior dedicada a conteúdo nacional, possibilitando o fortalecimento e surgimento de pequenas produtoras de audiovisual.

Recomendo também dar uma olhada na Lei 11.437, de dezembro de 2006, que mudou o sistema de financiamento público e da Lei 12.599, de março de 2012, que desonerou a construção e modernização de salas de cinema, acelerando, por exemplo, a digitalização de várias salas. Paralelamente, editais estaduais e municipais se readequaram às exigências do setor e, em alguns casos, à políticas identitárias. Recomendo olhar a experiência do Funcultura de PE (que virou lei com Eduardo Campos) e das ações pós SP Cine, da prefeitura de SP (gestão Haddad).

Em resumo: nos últimos 15 anos, assistimos a um crescimento de festivais de cinema, da descentralização do audiovisual que sempre se concentrou no eixo Rio-SP, do pensamento crítico sobre cinema, da invenção de outros imaginários de Brasil que não aqueles criados pela Globo. Isso tudo pra dizer que: muito desse circuito - de produções, de festivais, de distribuição, de mostras em centros culturais como as da Caixa e do CCBB - foi mantida por políticas públicas q possibilitaram que a Petrobras e o BNDES fossem agentes protagonistas desse cenário.

Sem Petrobras, sem BNDES, sem Caixa (e o anúncio do corte ao Cine Belas Artes é só o começo de uma narrativa) e, possivelmente, sem Banco do Brasil (CCBBs), vai ficar cada vez mais complicado fazer cinema e TV nacionais de conteúdo não massificante e emburrecedor. A produção independente e autoral ainda esteve nesse período muito restrita a um público elitizado? Sim, esteve. Mas havia um caminho sendo pavimentado pra que isso começasse a mudar.

E o grande cimento nesse caminho que estava sendo construído foram as ações afirmativas que levaram jovens negrxs às faculdades de cinema e possibilitaram não apenas outros filmes e outros imaginários, como outras demandas e exigências que, mais do que justas, são urgentes. Acabar com as políticas públicas para a Cultura E Educação é:

1) Voltar a ter como única fonte uma produção audiovisual que cristaliza pessoas negras como coadjuvantes subservientes, pessoas LGBTs como alívio cômico e índios como selvagens. Isso pq eu nem vou me meter a falar desse conceito chamado 'concessão pública' na TV brasileira.

2) Acabar com as faculdades de cinema, com o pensamento sobre cinema e, fundamentalmente, com milhares e milhares de empregos (pq não era disso que ~eles~ estavam falando durante a ~campanha~?).

ps.: quem vier aqui com ~argumentos~ do tipo: "mas por que o audiovisual brasileiro não é auto-sustentável?" eu sinceramente digo apenas: sem tempo irmão. Vá ler, vá se informar, pq zero energia pra comentarista de internet que faz graduação e pós em whatsapp.

Último comentário: a produção independe e autoral e guerrilheira e foda não vai deixar de existir. Há um processo irreversível que já foi lançado. Mas precisamos entender (e fortalecer quem mais precisa) como aprender a nadar entre ondas altas que vão tentar nos afogar.

Conheça o cinema brasileiro

A Filmoteca Zé do Caixão tornou-se a mais importante ferramenta de acesso ao conteúdo cinematográfico brasileiro por disponibilizar gratuitamente através do youtube, um acervo completo. Ali existe de tudo, da vídeo arte poética e experimental de Chris Marker ao cinema marginal de Julio Bressane. Curtas e longas metragens raros, pouco vistos e de difícil acesso estão disponibilizados por lá. Bora conhecer?


Voltar


Comente sobre essa publicação...