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Sexta-Feira 24.mai.2019

Ano VII - Nº 351

Artigo da semana

Bolsonaro chama Stroessner de estadista

Natural, pois vê em Ustra um herói

Postado em 27 de Fevereiro de 2019 - Leonardo Sakamoto

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Jair Bolsonaro chamou o finado ditador Alfredo Stroessner, que governou o Paraguai de 1954 a 1989, de "estadista" em solenidade na hidrelétrica binacional de Itaipu, na fronteira entre os dois países. Durante esse período, o país vizinho torturou dissidentes e conviveu com autoritarismo e o desrespeito aos direitos fundamentais, tendo participado ativamente da Operação Condor – que reuniu países do Cone Sul para coordenar a repressão e a eliminação de opositores. Isso sem falar que era um governo corrupto até o osso.

"Isso tudo não seria suficiente se não tivesse, do lado de cá [paraguaio], um homem de visão, um estadista, que sabia perfeitamente que seu país, o Paraguai, só poderia prosseguir, progredir, se tivesse energia. Aqui também a minha homenagem ao nosso general Alfredo Stroessner", afirmou, segundo registro da Folha de S.Paulo.

O general morreu, em 2006, no Brasil, que lhe concedeu asilo político após ser apeado do poder.

A tortura no Paraguai, como aqui, não nasceu com a última ditadura militar. Mas Alfredo Stroessner, bem como os ditadores entre 1964 e 1985 no Brasil, conseguiram criar estruturas para torná-la sistemática – a face mais crua de regimes violentos e repressivos.

Considerando que o presidente brasileiro vê o coronel-torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, que espancava e matava quem não podia reagir por já estar preso e sob tutela do poder público, não admira que tenha chamado Stroessner de estadista.

O que ainda surpreende é a quantidade de pessoas que tentam passar pano na declaração, bradando que "ditaduras de esquerda também mataram". Esse tipo de comentário remete à minha infância, quando acusávamos o coleguinha de algo e ele, prontamente, respondia "mas fulano de tal também". A justificativa tem o mesmo DNA daqueles casos nos quais histórias de pessoas executadas sob a anuência das ditaduras brasileira ou paraguaia são apresentados e recebidos com um "mas fulano de tal também matou".

Esse raciocínio opera da seguinte forma: se essas duas ditaduras assassinaram, mas ditaduras comunistas e socialistas também, então ninguém pode falar nada a respeito sob risco de hipocrisia. Isso embute farsas argumentativas. Primeiro, quem se diz de esquerda não compactua necessariamente com o que governos que se dizem de esquerda fazem ou dizem (por exemplo, para mim Stálin, Pol Pot, Mao entre tantos outros, arderiam no mármore do inferno – se ele existisse).

Ao mesmo tempo, isso passa pelo pressuposto equivocado de que ao se equiparar um ato ao outro, mostra-se que todos são iguais para tentar inviabilizar a crítica. Essa justificativa tenta calar os que criticam a celebração de regimes autoritários que perseguiram, torturaram, mataram, esquartejaram, queimaram, jogaram ao mar. Celebração feita por pessoas que, hoje, desejam um Estado que propague a violência para garantir a paz.

Na verdade, há espaço para criticar todas as ditaduras violentas. Essa falta de maturidade é típica de um país que ainda engatinha quanto à pluralidade do debate público e vive em meio à herança não-resolvida do seu próprio período autoritário. O que me lembra o velho paradoxo das pessoas que querem usar sua liberdade de expressão para exigir que determinadas minorias não tenham liberdade de expressão, como era na época da ditadura.

Governos que se autointitulavam socialistas ou comunistas mataram milhões. Do Khmer Vermelho, no Camboja, aos expurgos, na União Soviética, passando pelos fuzilamentos na China ou em Cuba, a História é farta em registrar o que esses grupos fizeram em nome de suas revoluções ou da perpetuação de poder. Parte da esquerda faz essa crítica e não deseja copiar nenhum desses regimes. Da mesma forma, a História é rica ao demonstrar as montanhas de mortos em decorrência da ação colonialista de países europeus na América Latina, África e Ásia. Sem falar dos milhões que morreram em decorrência das políticas de expansão do capitalismo norte-americano ao redor do mundo ou das grandes corporações.

Como falta memória para muita gente, se a cada postagem sobre a ditadura brasileira você não fizer uma retomada histórica de 200 anos das mortes ocorridas após o nascimento de Karl Marx, torna-se um mentiroso seletivo e hipócrita. Se a cada postagem, não reafirmar que considera o governo Maduro, na Venezuela, autoritário e violento, seu pensamento não vale. Pois, no fundo, as pessoas não querem que você diga nada além do lado da história com a qual concordam.

Isso deságua mais do que na terceirização do pensamento e da reflexão. Leva à indigência intelectual que, ao atingir o fundo do poço, faz com que o ódio flua livremente pelo corpo sem os incômodos entraves impostos pela razão. Você se torna uma casca vazia e, o melhor, sem se sentir culpado por disso.

Já disse tudo isso várias vezes por aqui, mas achei útil retomar. Lidamos com o passado como se ele tivesse automaticamente feito as pazes com o presente. Não, não fez. E o impacto de não resolvermos o nosso passado, no qual Assunção e Brasília autorizaram a tortura de cidadãos com os quais não concordavam, se faz sentir no dia a dia das periferias das grandes cidades e nos grotões da zona rural, com o poder público aterrorizando, reprimindo e torturando parte da população (normalmente mais pobre) com a anuência da outra parte (quase sempre mais rica). Sim, milhões de pobres sentem no couro diariamente a herança dessa ditadura.

E vão continuar sentindo porque políticos e cidadãos passam por cima de fatos, lustrando biografias de quem torturou ou autorizou a tortura, buscando reescrever a história para que se pareça com um espelho.

Leonardo Sakamoto - Jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.


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